A descoberta da autoficção

No panorama literário atual a linha mestra é a autoficção. Atenção jovens autores aspirantes ao stardom: transforme vossas vidas em narrativa. Acrescente tom confessional e reflexão, experimente locações reais. Imprima a tudo isso referências pop, bebida, sexo e, impreterivelmente, citações literárias.

Se for um leitor inveterado e quiser ler o que há de melhor no gênero, escolha um romance nórdico, vai aprender sobre John Fosse, Tor Ulven, ou então estar em contato com o futuro da literatura da Noruega. A descoberta da escrita, 5° volume da série Minha luta, é a odisseia do homem comum. Lembro de várias passagens em que o poeta Espen Stueland e o autor Karl Ove Knausgard discutem os acontecimentos literários da época: publicações e outras referências, ou quando, por exemplo, eles vivem o luto de um dos mais famosos autores da segunda metade do século XX. Tudo isso, sem dúvida, levou este autor ao que ele é hoje, sem descontar a gana que parece não tê-lo abandonado, a despeito do sentimento de frustração descrito em vários momentos.

É muito estranho e paradoxal ler um romance tão bem escrito, autobiográfico, de alguém que se tinha em tão baixa conta. Mesmo quando o sucesso veio aos 30 anos com a publicação de seu primeiro romance, em boa parte da vida narrada neste volume, a sensação de fraude ou delírio descritas por Knausgard o faz pensar que a escrita não o levaria a lugar algum. Em certo momento, quando enfim publica seu romance, ele reflete, então é isso ser autor, viajar pelo país participando de encontros literários com seis ou sete pessoas na platéia?

Para o leitor a obra literária é mais do que entretenimento. Vai além do escape. É o confronto consigo mesmo, a aprendizagem a partir da experiência do outro cruzada a todo o momento com a do leitor. Talvez o que mais seduza os leitores da série Minha Luta não seja apenas a literatura, embora esta seja imprescindível para o conjunto e é o meio ou o veículo usado para retratar o mundo e o humano que nos habita, mas, sobretudo, a experiência temporal da passagem da vida, a relação dos pares na família, os relacionamentos amorosos, as experiências sexuais, o bate-papo com os amigos, a vontade de ser alguém.

Toda essa viagem pela história da própria vida vem temperada com muita música. Neste volume se ouve muito XTC, The Stone Roses e mais uma vez um pouco de The Smiths e outras bandas norueguesas. O autor toca bateria numa banda completada com o irmão na guitarra. É possível sentir a atmosfera vibrante na cidade de Bergen. Karl Ove definitivamente a colocou no mapa.

A história se passa quase que totalmente lá. Nos anos de formação do escritor e no período entre o fim da juventude e o início da vida adulta. A primeira parte narra a experiência frustrante na Skrivekunstakademiet, a outra mais variada tem uma passagem pela Islândia, e em Bergen, várias vezes, estudando Letras e em trabalhos esporádicos e temporários, o primeiro escrevendo artigos para revistas e jornais locais, o segundo trabalhando como assistente em hospital psiquiátrico. E nesse ínterim, narram-se as batalhas pessoais na família e com as mulheres. E, sobretudo, a angústia e a vontade de se tornar um escritor.

A gangorra de emoções que é a nossa vida, os momentos banais e significativos ou costumeiros e sagrados, que cada um de nós vivemos, é o que Karl Ove capta tão bem em cada página deste romance e transforma em literatura. Nos aspectos formais não há regra definida de modo simples, certos momentos os discursos diretos tomam linhas de José Saramago, em outros surge o fluxo de consciência ou o discurso indireto-livre. São características que dinamizam a leitura e contribuem para imprimir a ela uma carga subjetiva singular. Estas associadas a uma descrição fulgurante da paisagem, nos remete ao que há de mais belo na literatura contemporânea. No entanto, esta obra permanece envolta no mistério: por que é tão bom se parece tão simples? Por que o fascínio, como se estivéssemos embevecidos em nós mesmos, ao ler um calhamaço de 600 páginas que fala de coisas banais e aparentes a todas as pessoas do mundo?  Será que o fato de ser “real” nos empresta esta sensação?

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No trecho abaixo um pouco de tudo isso. Uma reflexão em meio aos ritos funéreos da família na ocasião da perda do avô:

 

“Uma neblina espessa pairava sobre o amontoado de espruces verde-escuros, quase pretos na encosta junto à outra margem do lago. Eram nove horas, minha mãe perguntou se seu não podia colocar galhos de espruce na estrada, junto ao portão. Era um antigo costume. Desci em meio à chuva, larguei os galhos em cima do cascalho, olhei para a casa, para as janelas que reluziam na manhã cinzenta. Comecei a chorar. Não por causa da morte e do frio, mas por causa da vida e do calor. Chorei pela bondade que existia no mundo. Chorei pela luz em meio à neblina, chorei pelos vivos naquela casa da morte e pensei, não posso jogar minha vida fora.”

***

E mais uma vez voltamos ao Realidade Nordestina. Em 2009, Vambeto Gomes de Jesus já exercitava a autoficção e desde 2011 divulga seu trabalho em escolas e universidades. Sem o impacto editorial de karl Ove (não há nenhuma Cia Das letras por trás de tudo), mas com o impacto no coração dos leitores de um Brasil tão carente de tudo, e acima de tudo, de editoras e, principalmente, de leitores. Adotar o romance de Vambeto como uma ponte para atravessar esta falha histórica seria imprescindível para entendermos nossa história, do mesmo modo que os leitores na Noruega e em boa parte da alta literatura compartilham a autoficção de Karl Ove.

Para os brasileiros seria a descoberta de um país mais profundo. Longe dos holofotes, das novelas e da mídia. Assim como a de Karl Ove, a literatura de Vambeto é uma viagem às profundezas de ser, porém também é um relato histórico das mazelas sociais que nos afligem e perpetuam o Brasil à condição miserável de sempre. Ler Realidade Nordestina coloca o nosso país definitivamente no mapa. Como diz Paulo Freire, “a compreensão do texto a ser alcançada por sua leitura crítica implica a percepção das relações entre texto e contexto”.

 

 

Karl Ove, Vambeto e Espen: Não importa onde, a descoberta da leitura nunca vai deixar de ser o elemento transformador em uma sociedade.

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Viva o povo brasileiro

Joao Ubaldo Ribeiro é ao lado de Jorge Amado o grande romancista baiano. Com estilos bem variados, as comparações podem acabar por aqui. Eles eram muito amigos e com Glauber Rocha formavam a tríade dos bons contadores de histórias, da inovação, da crítica e do bom humor da boa terra.

De seus romances li apenas O albatroz azul, mas acompanhava suas crônicas semanalmente há mais de três anos. É uma sensação bem estranha saber que não terei mais seus artigos engraçados e irônicos bem como suas memórias de Itaparica e de seu tempo de início de carreira jornalística.

Uma figura mítica e de bondade transbordante que deixa a vida literária brasileira num momento em que ainda lemos tão pouco. Sua obra fica, sem dúviida, para todos nós, cidadãos, como um consolo e uma necessidade única de lermos cada vez mais.

Em outra ponta, em um mês de Copa do mundo, Karl Ove Kanusgard e documentário, fui sedimentando o caminho para que este último ficasse pronto antes do reinício das aulas. Quase consegui fechar a montagem teste, ainda faltam ajustes para depois passarmos para a finalização do projeto que tem data para a exibição primeira em setembro. Quando setembro chegar…

Se por uma lado, abre-se o tempo para cozinhar mais as idéias acerca do que é o filme, por outro a ansiedade aumenta ao vê-lo repetidas vezes. Ainda assim não existe um filme necessariamente pronto, muito menos uma obra perfeita ” nunca tema a perfeição, você jamais irá alcançá-la,” alerta Salvador Dali. É um conforto presunçoso, mas não posso contestar o amigo de Bunuel.

Além disso, é apenas um filme. Ao assistir à Palestina sendo bombardeada, um avião civil derrubado com tanta gente a bordo, inclusive especialistas em estudo da AIDS que ajudaram a salvar milhões de vida, percebemos o quanto o nosso vasto mundo anda caduco.

A literatura, a amizade, o amor vêm para acalentar nesses tempos frios. Temas estes reunidos num romance sensacional de Karl Ove Knausgard, o segundo volume da série Minha Luta. Ao lê-lo, assistimos ao escritor-narrador discorrer sobre suas derrotas e vitórias, sobre a família, namorada, filhos com uma sensibilidade inacreditável. A experiência bem sucedida da narração está toda ali: num ataque de autoflagelação, na conversa sincera com sua parceira ou na véspera do ano novo, quando em meio aos seus dotes culinários, cada amigo conta uma história fracassada sobre suas famílias.

É incrível, soma-se a isso as belas descrições de Estocolmo, as digressões sobre a arte de escrever, e os bate-papos pelos cafés com seu fiel amigo Geir.
Karl Ove criou uma obra pungente, que deve ser desfrutada e acompanhada de perto.

Foi com este clima que acompanhei a copa do mundo no Brasil, esperando que houvesse algum tipo de manifestação que acabasse com esta letargia do povo brasileiro, que acordasse os fortes, e pior, fui pego mais uma vez, a despeito das corruptas CBF e FIFA, como um torcedor apaixonado, mas o 7×1 parece nos ter embasbacado e jogados de volta à atmosfera de pesadelo. Será isso possível?

Fim de festa, com uma Alemanha vitoriosa desde Santa Cruz Cabrália, por essas e outras que acredito um pouquinho no que diz Domenico De Masi, ou melhor, no povo baiano. Viva Vambeto e seu livro Realidade Nordestina.
Que venham o escore das eleições, porém antes, é evidente, a campanha eleitoral de cada candidato e, assim, veremos o que eles têm para nos oferecer.

Não posso deixar de dizer que a educação deveria vir em primeiro lugar. Não podemos afundar mais no compadrio, nos cargos comissionados e na desonestidade nas relações financeiras e no desafio-cotidiano. Quanta gente vendendo ingresso falso, quanta empresa oferecendo serviços de péssima qualidade, quantos ainda morremos todos os dias em filas de hospitais ou vítimas da violência gratuita.

Nosso documentário continua, pois a vida não para. E junto com ele, uma análise de como o Brasil mudou de cá prá lá, quem somos hoje e, doravante, arrisca a dizer, como será o amanhã?

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Da Bahia para o mundo: Uma das mentes mais lúcidas, engraçadas e sinceras de sua geração.

Romance autobiográfico – um gênero a cultivar

Não faz uma semana terminei de ler o romance autobiográfico, ou a primeira parte dele, Minha luta 1 – a morte do pai, de Karl Ove Knausgard, romancista norueguês que alcançou notoriedade mundial com esta obra, que como ele afirma, nada mais foi do que um pacto com o diabo. Ali ele expôs toda a amargura e o sofrimento com a família, além de conflitos íntimos banais e existenciais ao extremo.

E tive uma surpresa de gênero, pois é o segundo livro deste tipo que leio e nem sabia que existia um gênero específico, mas percebe-se que há uma tendência atual para transformar as histórias de nossas vidas em episódios narrativos, palmas para eles que conseguem envolver o leitor e discutir momentos de sua vida.

Por um bom tempo, desde que a literatura me convenceu como leitor de que existe algo muito além de nossas vidas, abominou-se o fato de comparar a vida do escritor com a obra. Ou melhor, confundir vida e obra. No entanto é comumente estudada a vida do autor para saber detalhes de sua obra, ou o porquê de tal característica em tal livro. Lógico que ficar reduzindo o poder da arte apenas explicando como esse autor viveu é tarefa para tolos ou para uma sessão de psicanálise e isso de nada vale se o que se procura é um bom livro. Machado de Assis é um caso muito debatido quando rompeu com as fontes inesgotáveis aparentemente do Romantismo e, justamente no momento que ficara doente, nos brindou com suas obras mais prolíficas e fundamentais da literatura mundial. O debate sempre fica: será que foi a proximidade com a morte que produziu Memórias Póstumas, ou a influência de suas leituras de Celine e outros? Ninguém nunca saberá, mesmo porque o livro de Brás Cubas se assume como ficção logo nas primeiras linhas, é um defunto-autor e não um autor-defunto.

Nos tempos de hoje me pego com o romance autobiográfico de Vambeto, que fiquei cabreiro em classificá-lo desse modo no início por não saber se tratar de gênero que existisse. Esse livro sim, e o de Knausgard, assumem bravamente o tom autobiográfico, tarefa corajosa e (acredito) penosa, pois não é fácil lidar com a própria história e menos fácil ainda transformar esta história num romance, em que as pessoas tomam ares de personagens, que acabam se transformando em uma ficção do próprio biografado e essa mistura torna cada vez mais borrada e incompreensível a fronteira entre vida e arte.

Ainda assim o romance autobiográfico tem uma sintonia peculiar com o leitor e o fisga pela curiosidade e pela honestidade com a própria história, nos vemos em várias daquelas situações – ainda que em outros ambientes, como na gelada Kristiansand ou na árida Ipirá – somos todos um só, vivemos as mesmas alegrias e passamos pelas mesmas dificuldades.

Isso não desqualifica o romance, e nunca vai, as páginas das grandes obras de ficção sempre permanecerão no panteão das grandes obras da humanidade, assim como continuarão a ser escritas. É apenas mais um capítulo que continua o gênero e vem funcionando muito bem, a obra de Karl Ove é sucesso mundial e principalmente local, na Noruega vendeu quase meio milhão de cópias num país de pouco mais de 5 milhôes de habitantes.

No Brasil, a obra de Vambeto vem, de forma independente, alcançando o coração dos leitores, já vendemos mais de 500 exemplares e passamos por várias cidades da região, em todas, a autobiografia chega bem perto na vida das pessoas, principalmente dos migrantes nordestinos, que encontram no romance novos caminhos para redescobrir a própria vida, se não são por esses caminhos e por essas forças de descoberta que versam todas as obras de arte da humanidade, quais são?

ImagemImagem Karl Ove e Vambeto: em Kristiansand ou em Ipirá somos um só