O amigo alemão

“O mal da pobreza não está tanto no sofrimento que impõe ao homem, mas no apodrecimento físico e espiritual que provoca.” (George Orwell)

O pesquisador Jan Brunner da Universidade de Berlim é do departamento de Ciências Sociais. Ele participa de um projeto chamado GLOCON – Global Change – Local Conflicts? https://www.land-conflicts.fu-berlin.de/en/index.html (Mudanças globais – conflitos locais) – em que analisa os efeitos da globalização na América Latina e África Subsaariana.

A Jan coube o estudo da indústria da cana de açúcar no Brasil. Ele viajou pelo interior de São Paulo e Recife. Aqui pela Região de Ribeirão Preto, esteve em São Carlos na Universidade Federal falando com o famigerado ( Chiquinho ) professor Francisco Alves – autoridade máxima no assunto – em Pontal e em Guariba, onde estive ciceroneando – o por alguns pontos da cidade a fim de que pudesse aprofundar a pesquisa sobre o movimento sindical, a greve de Guariba e as condições atuais do trabalhador rural.

Conheci-o algum tempo antes com Vambeto Gomes de Jesus, apresentei-lhe o autor de Realidade Nordestina e lhe entreguei cópia do documentário Trajetórias sobre os 30 anos da Greve de Guariba – material que possibilitou este encontro e que deve ter servido de fonte para seu trabalho.

Tempos depois quando esteve em Guariba, levei-o à famosa Feira do domingo e encontramos o Luquinha Atleta e outros, com quem pudemos conversar comendo um pastel. Lembro que quase todas as pessoas com quem ele falava o 7 x1 quebrava o gelo, um que outro arriscava sobre o papel proeminente da Alemanha na economia e eu, a certo momento, brinquei “a Merkel é a Manda-Chuva de lá” tese à que Jan torceu levemente o nariz. Embora ele em abril do ano passado já me antecipasse a perda de relevância da premiê e do partido Democrata-cristão, o pesquisador decerto não esperava que os socialistas mais uma vez tivessem que se engalfinhar a Merkel para que juntos pudessem enxotar a tendência de extrema-direita que começa a mostrar as garras mais uma vez.

Foram dois dias bem interessantes que ele passou em Guariba, Jan é um tipo loiro, alto e simpático. Muito alemão embora odeie este tipo de estereótipo. Além de conhecer a Feira e entrevistar o Luquinha e trabalhadores rurais, andamos pelo Jardim São Francisco e Bairro Alto à procura de mais gente, estivemos na Cohab II, onde os ônibus rurais chamaram a atenção dele. Parou especificamente próximo à casa do turmeiro Jurandir, com quem brevemente falou sobre a disputa sindical dos últimos anos.

No dia seguinte esteve com José de Fátima e na EE José Pacífico, escola em que eu lecionava, para entrevistar um de meus alunos. No fim da noite ainda fomos até um Posto para tomar uma cerveja quando ele disse num português bastante razoável “ Queria entender por que no Brasil as pessoas se encontram e bebem em postos de combustíveis ?” Apenas dei de ombros assistindo a Neymar marcar mais um gol, não soube responder, tempos depois com outro amigo ao lembrar a situação disse “ deve ser a maneira brasileira de celebrar o fim do mundo, com bastante festa, a queima de combustíveis fósseis”. Quando ele foi embora me convidou para conhecer Berlim e disse “agora você tem um amigo lá”.

Sempre é bastante intrigante receber pessoas de outras culturas e, sobretudo, perceber que a realidade político-econômica local é muito estudada em um departamento tão distante, ao passo que a América Latina parece viver – em tempos de globalização! – uma fase de entorpecimento, transbordando ódio e se esquecendo mais uma vez de sua história, ficando novamente tão distante do mundo do conhecimento.

Quando íamos embora da Feira, no início da tarde e o sol estava a pino, observei com leve rubor a sujeira: papeis, restos de comidas, copos plásticos jogados por toda a pista, e mais longe pessoas bebendo na rua, ouvindo um ruído de música especialmente alto combinado a um cheiro nauseabundo de algo assado que se dissipava sem antes fazer coçar as narinas. Enrubesci, me irritei e disse que no Brasil ainda há muita pobreza, quis explicar o tipo de pobreza a que me referia, mas Jan me interrompeu e sublinhou “ Pobreza é pobreza, Bruno”.

Fomos embora.

Nunca me esqueço quando li Na pior em Paris e Londres de George Orwell – um dos meus autores preferidos e ao qual deveria recorrer mais vezes – num ensaio o autor cravar “O mal da pobreza não está tanto no sofrimento que impõe ao homem, mas no apodrecimento físico e espiritual que provoca”.

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George Orwell e nós: Brasil e Alemanha vai muito além do 7 x 1.

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Sociedade Infraleve

Estudei toda a educação básica em Guariba e nunca – que me lembre ao menos – tinha ouvido falar da greve dos cortadores de cana de 1984 ou sequer reconhecido que vivemos na região da cana de açúcar. Em meados dos anos 90 a educação era outra, admito, no entanto é bastante intrigante o fato de na época de ouro do governo FHC a história local estivesse tão distante dos currículos escolares, e ainda esteja. Um dos fundamentos de nosso documentário 30 x 20 é exatamente batalhar pelo contrário disso tudo, não é, portanto, mero oportunismo. Nem pode ser haja vista o tanto de alunos que durante quase dez anos de magistério tenho encontrado, ensinado e com os quais tenho aprendido.

Nosso projeto, sem sombra de dúvida, tem valor histórico e educacional.

Por todos esses motivos, houve muito trabalho para encontrar material disponível para estudo. Livros exemplares, como o do atualmente professor da Unesp de Franca, Alexandre Marques Mendes, simplesmente inexistem na combalida e parca e única biblioteca municipal, ou em qualquer outro acervo que exista precariamente nas bibliotecas das escolas municipais; um regozijo, Guariba não é exceção em nosso país.

O conflito social de Guariba, tese de mestrado de Alexandre foi-me emprestado por um dos depoentes para o livro, Moacir Caporusso Jr, que à altura da greve era um jovem ligado ao movimento de abertura democrática e, segundo me disse em uma entrevista,” participei de um dos fatos que marcaram para sempre minha vida” . Como todo momento inigualável, este o levou a outros rumos, como o político do qual faz parte hoje como coordenador da macro petista na região de Ribeirão Preto, aliás, Moacirzinho, como conhecido, não foi o único tocado pelo movimento grevista, a ele se juntam várias figuras célebres, Antônio Palocci, o senador Eduardo Suplicy e tantos outros com particpação chave na época.

Além de Moacir, também aparecem no livro outros entrevistados: o ex-sindicalista José de Fátima, o então comerciante Jaci Pimenta, o ex-empregado rural seu Afonso, o dono do mercado saqueado Santo Antonio Claret, o falecido Cláudio Amorim, o presidente da FERAESP Élio Neves e outros. Por tudo isso, o livro de Alexandre deveria ser mais lido e bem recebido pelos guaribenses e fazer parte da educação local. É uma coletânea de textos e entrevistas muito esclarecedores e que lança luz num episódio macro mas com relevância internacional.

À época, ferviam vários movimentos grevistas em diversos locais, só para citar de memória, a reprimenda furiosa da dama de ferro aos mineiros em greve na Inglaterra e o governo indiano que combateu com igual ( ou maior) força qualquer greve da industria têxtil.

Por isso e muito mais a greve foi assunto de várias teses de mestrado, doutorado e livros e nos tempos atuais, mais do que nunca, continua sendo estudada, para lançar luz ao que somos apesar do já sabido “Quem controla o passado, controla o futuro. Quem controla o presente, controla o passado”. Nosso trabalho, nessa convulsão toda, adquire ar de resistência, embora continue no projeto de Vilnius da Sociedade Infraleve e acompanhe de perto seu Arquivo Geral do Fracasso.

Entre tantos outros livros e filmes, consegui o livro de José Graziano “De boias-frias a empregados rurais” e dois de Maria Conceição d`Incão, autoridade máxima do assunto, “Qual é a questão do boia-fria”, em que já no prefácio expõe suas angústias de trabalhar sobre o tema e “Boia-fria: acumulação e miséria”, além do ótimo livro de Ana Luiza Martins sobre os cem anos de Guariba, embora limitado sobre o assunto da migração e da greve, história recente de Guariba, mas como já disse, riquíssimo sobre a história não apenas da cidade mas de todo interior agrário paulista.

Faltou, uma pena, encontrar a tese interessantíssima do Demétrio Magnoli, “Agroindústria e urbanização: o caso de Guariba”, revelando os bastidores da migração e da construção na cidade.

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História local difícil de ser encontrada. Quando vamos acordar para nossa realidade?

Dez dicas para bombar na redação do ENEM e George Orwell

Na minha brava luta diária, orientando centenas de alunos, dentre eles vestibulandos e dentre tantos outros também ávidos por ouvir real opinião e debater assuntos relevantes da atualidade, escrevo um pequeno grupo de ideias sobre como se virar na redação do ENEM ( ou ao menos aprender um pouco a organizar o pensamento para a luta diária pelo reconhecimento e restituição de nossos direitos)

1) Nós somos o governo

Pare de escrever ” o governo deveria fazer isso” ” os políticos deveriam fazer aquilo, tomar vergonha na cara…etc” Besteira ! Nós somos o governo. Incentive a ideia da conscientização de cada cidadão, do investimento na educação das pessoas, da participação social. Se quiser, dê exemplos, como as conquistas do MPL no Brasil todo.

2) Conheça o assunto

Um dos grandes problemas dos vestibulandos é estar ilhado num oceano de informações fúteis ou superficiais. Saiba aproveitar seu tempo e escolher o que há de bom para ler. Fuja do senso-comum, invista em novas ideias, conheça dados interessantes. Leia, mantenha-se informado.

3) Evite o fatalismo

Antes de achar que ” não haverá mais mundo daqui a cem anos…se continuar como está acabaremos com a nossa raça” etc. Apresente dados mais realistas. A temperatura média do planeta deve subir entre 2 e 3 graus Celsius nos próximos cem anos, e isso vai elevar o nível dos mares e, como consequência, prejudicar cidades litorâneas…Lógico que é preocupante, no entanto ainda é cedo para o apocalipse, além disso, a falta de alternativa descaracteriza uma dissertação e de nada serve para um verdadeiro debate.

4) Parágrafos

Divida seu texto entre quatro ou cinco parágrafos equilibrados em tamanho e em número de ideias centrais. O primeiro contém a tese ( ideia-chave), âncora para todo o texto; do segundo ao quarto parágrafos, o desenvolvimento dos principais argumentos , e o último ( se tratando de ENEM) deve conter uma proposta de intervenção ao tema da prova.

5) Proposta de Intervenção

A prova do ENEM se baseia no conceito do cidadão participativo e conhecedor da realidade. Além disso, ela recomenda a argumentação baseada nas outras áreas de conhecimento. Portanto, preste atenção ao que é ensinado em todas as aulas e escreva propostas de intervenção inteligentes, possíveis e coerentes com o assunto desenvolvido em todo o texto.

6) Não seja tão esperançoso ou ingênuo

Achar que “todos devemos nos unir”, “dar as mãos para um mundo melhor” já são metáforas desgastadas e de nada servem para sua ideia. Não estamos penalizando o otimismo, mas precisamos nos livrar do lugar-comum e de clichês metafóricos desconectados com a realidade, recomendamos ” pé no chão e cabeça nas nuvens”, como dizia Mário Quintana.

7) Cite autores, teorias e filósofos com precisão

O que seria desse mundo sem as grandes ideias e os grandes pensadores? Conhecê-los é a primeira grande missão do jovem conectado ao mundo de pouca leitura e de mídia quase que alienante. Saia um pouco da frente da TV e das redes sociais. Leia os grandes autores, conheça as ideias que revolucionaram o mundo. A citação e a referência são elementos cruciais à boa argumentação. Além do mais, esse novo hábito não será de grande valia apenas na hora do vestibular.

8) 1° pessoa, “achismos”, na minha opinião

Diferentemente do artigo, a dissertação não privilegia o uso de impressões pessoais ou julgamentos demasiado subjetivos sobre a realidade, tampouco expressões como ” eu acho” ou ” na minha opinião” . Embora seja um texto em que se deva tomar posição acerca de um assunto, recomenda-se a impessoalidade no uso dos verbos. Achismos, sem dúvida, de nada valem em nenhum contexto, muito menos no vestibular. “Na minha opinião” é marca da oralidade ou de outros textos informais, como a carta do leitor, por exemplo.

9) Tempo para ler, refletir, esquematizar e escrever

Entre começar e terminar a redação precisa-se de, no mínimo, 1 hora. Se puder, arranje um pouco mais de tempo. Além disso, já tenha dois “planos” ou modelos de dissertação em mente. Afinal, com o tempo que se tem, o melhor a fazer é não arriscar e extrapolar os limites impostos pela organização da prova.

10)” Se puder cortar uma palavra. Corte-a sempre”

Importante é ler boa literatura, pois só aprendemos com os melhores, no livro de ensaios ” Como morrem os pobres”, George Orwell relaciona linguagem e a busca da verdade:

“A insinceridade é a grande inimiga da linguagem clara. Quando há um abismo entre nossos objetivos declarados e os reais, quase instintivamente apelamos para palavras longas e expressões gastas, como uma sépia que esguicha tinta. Em nossa época, não existe algo como ” ficar fora da política” . Todas as questões são políticas e a própria política é uma massa de mentiras, evasivas, loucuras, ódio e esquizofrenia. Quando a atmosfera geral é ruim, a linguagem sofre.” ( em A política e a língua inglesa).

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George Orwell (1903 – 1950)

“Infrinja qualquer uma destas regras antes de dizer alguma coisa totalmente bárbara”