Afinal, o que é o documentário O espírito de 84?

Afinal, o que é o documentário O espírito de 84?

Difícil responder a questões sobre um filme quando ele é apenas uma tentativa, não está pronto. Se é que um filme esteja pronto para seus idealizadores algum dia.

Ainda assim é preciso traçar algumas metas para a realização do trabalho. No nosso caso, documentário de entrevista, pelo menos na maior parte, estamos na fase de marcar as entrevistas para a produção e algumas outras para a pré-produção, há pessoas importantes também que aparecerão diretamente no vídeo, sem a pré-entrevista propriamente dita.

Então o documentário tenta responder a seguinte pergunta: quem são e como vivem os participantes da Greve de Guariba, a qual chacoalhou a política econômica da época denunciando um modelo escravo de trabalho volante, e fez surgir no cenário nacional não apenas os trabalhadores migrantes e sua condição miserável, mas também novo modelo sindical e partidário que alavancou líderes no contexto do fim da ditadura militar e das campanhas das diretas já?

Por tudo isso, o olhar do filme se estreita na relação íntima que essas pessoas possuem com o passado. Desde os boias-frias, protagonistas até certo ponto ingênuos da greve, até os jornalistas que cobriram o evento, políticos e líderes sindicais já velhos ou em formação, também a presença da igreja católica representada pela CPT, os sociólogos e cientistas sociais que estudaram o assunto e assim participaram deste momento.

Mais no íntimo, o filme tenta abordar quais as reflexões dos moradores de Guariba. Como eles veem o reflexo dessa greve na cidade e como foi a semana a partir do dia 15 de maio de 84. Outro aspecto citado é a premissa de que a greve teve motivações políticas locais e o estado de sítio e violência que perdurou durante vários dias, imagens conflituosas que ficaram, devido à tendenciosa cobertura da imprensa, ao preconceito contra o migrante nordestino e à luta quase impossível das camadas inferiores da sociedade contra os gigantes latifundiários do país aliados à falta de representação política.

Esta semana começamos a gravar e abaixo uma breve reflexão minha, como roteirista e co-diretor.

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as assembleias no Estádio municipal, dali nasceu o primeiro acordo coletivo de trabalho da história para os trabalhadores rurais

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Matéria da história

Muito legal o encontro A história em debate, sobre a greve de Guariba e o ano de 1984, que gerou a discussão acerca das consequências daquele evento para a vida das pessoas e para o trabalho nos canaviais, no sindicalismo e na política, nos estudos sociais e na economia.

Chiquinho Alves, autor de diversos livros e filmes, em sua fala, marcou o encontro. Entre suas palavras ” faz 29 anos que conheço Guariba ” e ” os migrantes, na verdade, foram expulsos de suas terras” , concentram-se o poder de encantar as pessoas, a certeza da relevância do assunto e o conhecimento das maiores causas da pobreza e da exploração.

Despojado e hábil pôde descrever, com perspicácia e incrível franqueza, parte do momento histórico brasileiro, as causas da greve, a situação do migrante, o processo industrial e econômico de nossa região e comparar toda essa conjuntura com o atual estado das coisas.

Imperdível.

Outro debate visualmente chocante e de teor não menos polêmico do qual participei foi a mesa “A história da Greve dos boias-frias de Guariba contada em dez fotografias ” . Pudemos ver e comentar fotos que não estão disponíveis para o público, as quais fazem parte do acervo do museu da cidade, que não está em funcionamento. O trabalho fotográfico de grandes nomes do fotojornalismo brasileiro, como Carlos Fenerich e Rolando de Freitas, compõe a história da cidade e do Brasil, além disso, o maior resultado da greve, o Acordo Coletivo de trabalho, é histórico, pois não apenas é o primeiro advindo de uma “negociação ” direta entre trabalhadores e patrões, como também pôde garantir para o trabalhador rural direitos trabalhistas já conquistados pela classe trabalhadora brasileira dezenas de anos atrás.

Ficamos muito contentes de ver o anfiteatro lotado, muitos meus alunos ou ex-alunos, amigos, munícipes de várias esferas da sociedade. Muito me alegra saber que o tema escolhido para o nosso próximo trabalho, um documentário, interessa tanto as pessoas e narra um episódio inédito no país, que é, sem dúvida, mais um motivo para levar o trabalho a sério.

PS. As fotografias das mesas de debate são de Sérgio Galvão e falam por elas. Na sequência: Chiquinho Alves, eu, Vambeto Gomes de jesus e José de Fátima.

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