Mais Florestan Fernandes menos Olavo de Carvalho

De que servem os dogmas? E o discurso doutrinário ou demagogo? Já disse em aulas a meus alunos e, cada vez mais, em tempos em que virou moeda corrente falsos líderes subirem ao salto e decretar o que ou como fazer, que a melhor pessoa para decidir sobre o que é melhor pra você, só pode ser você mesmo. E este é, antes de tudo, o príncipio da liberdade de que mais gosto, aquele do autoquestionamento, das respostas não fáceis, aliás, de mais perguntas de que respostas.

O documentário Trajetórias vem seguindo seu curso de despertar mais do que doutrinar, de questionar mais do que responder. Ele foi exibido pela primeira vez na Unesp – Araraquara, no mês de abril, sala 37 do departamento de Letras e Filosofia, com a presença de alunos de graduação, a professora de Farmácia Raquel Regina, Enedina e Seu João do assentamento Bela Vista, e a professora Silvia Beatriz Adoue, organizadora do evento JURA – Jornada Universitária em Defesa da Reforma Agrária. Ela também dá aulas na Escola Nacional Florestan Fernandes – uma honra conhecer um pouco deste projeto criado para atender jovens, adultos e crianças provenientes de Movimentos Socias com a função de discutir temas tão “mascarados” no país e formar cidadãos na acepção mais clara da palavra. Dentre tantas discrimações que existem no Brasil, aquela de considerar o MST um movimento de aproveitadores, invasores e, em última instância, por que não, bandidos – faz com que conhecer esta escola, nos deixe cada vez mais longe desta falácia e deste grande ímpeto destrutivo, que mistura intolerância com insensatez, reinante, infelizmente, nestes tempos obscuros no país.

Precisamos mais do que nunca deste tipo de evento, para nosso filme, por exemplo, ele caiu como uma luva, no entanto parece que o cinema de autor percorre uma linha diferente do cinema dito comercial. Essa separação que se acentuou nos últimos anos devido a vários fatores só é prejudicial, como se houvesse uma divisão entre entretenimento e arte, distração e reflexão, fato que tornaria as pessoas cada vez mais superficiais, vazias e em busca de uma satisfação rala que nada mais é do que uma forma de alienação e “imbecilização” humana. Ou então há pouco espaço ao cinema independente, se vale assim chamar, e muito ao comercial, produzido em escala industrial que não propõe muita coisa, além de repetição de fórmulas e pouco ou nada de conteúdo sob o pretexto de criar mais maniqueísmos e lutas, tiros e efeitos especiais animados intermináveis como o balde de pipoca e o refrigerante do super combo.

Eventos como o Jura são raros também no Brasil. Financiamento para fazer cinema e a exibição dele também não surgem aos montes. Acontece que o cineasta brasileiro precisa antes de tudo ser um forte, embora a plataforma Youtube e outras estejam aí para ditar o contrário, quando se fala em cinema e em forma de exibição, estamos falando de algo exibido para o coletivo e para o debate coletivo. A própria cerimônia de ir a uma sessão de cinema sempre propôs algo novo, como a cinefilia da nouvelle vague francesa e os cine clubes espalhados pelo mundo todo; daí sai o grande cinema mundial, pois ele, sobretudo, propõe a discussão, o debate, a formação, o encontro com o outro, com o conhecimento e com a realidade ao nosso redor. (Re)inventar o óbvio deve ser a regra; fugir do lugar-comum, do individualismo e partilhar devem pautar nossas experiências e nosso dia a dia.

Daí é preciso acabar com essa separação e iniciar um debate mais sério sobre o cinema, a cultura, a reforma agrária, a discriminação e tantos outros temas recorrentes na sociedade. Como a própria Enedina e outros alunos de pedagogia disseram, uma escola melhor, com proposta político pedagógica, livre da centralidade de governos e mais pautada na independência de sua gestão pode acender pequenas centelhas para espalhar essa ideia.

Por fim, foi um prazer enorme participar deste evento e saber que o documentário cabe bem também nesta realidade, pois o anacronismo – ainda que vivamos em um tempo em que se é mais citado Olavo de Carvalho que Florestan Fernandes – é o pavor de qualquer pessoa que pretenda lançar um debate e fugir do dogmatismo.

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Professora Silvia (no centro) – o melhor de se fazer filmes ou assistir a eles são os encontros que a partir deles acontecem

( foto Sérgio Galvão )

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Trajetórias – 30 anos depois da greve de Guariba

Enfim se chega ao fim de um documentário, pelo menos no que se refere à produção. O caminho que se segue agora depende menos de seus realizadores e mais da vontade de seu público.

O filme está pronto para alçar voos mais altos. Foi um trabalho muito prazeroso mas também muito difícil. A trajetória deste blog diz um pouco do que passamos nestes quase 4 anos de gestação.

Estamos felizes porque o projeto caminha a partir de agora com pernas próprias e também porque é o primeiro documentário em longa metragem sobre o tema do boia-fria, da greve de Guariba e de suas consequências 30 anos depois. Mais um pedaço da história do Brasil está registrado com o acréscimo de uma visão 30 anos depois do episódio desta greve que mudou boa parte das leis relativas aos trabalhadores rurais e colocou no mapa mundial a política industrial da cana de açúcar.

O trailer a seguir é uma fagulha da história do filme. A partir de agora o filme é de todos nós.

Agradecemos a todos que participaram, que abriram suas portas e nos deram o privilégio de poder conhecer um pouco mais da vida de cada um, da história de nossa cidade, região e país e de nossa própria história como indivíduos, pois todo trabalho de investigação, posto sob a ótica cultural, é como uma revelação sobre nós mesmos.

 

Agradeço muitíssimo a Sérgio Galvão pelo trabalho visual; Vambeto, José Nilson e José de Fátima por participarem da pré – produção e produção; e a Carlos Henrique Berg pelo auxílio na edição e, sobretudo, na finalização do filme.

A presença da Consciência Negra em Guariba

No dia 20 de novembro de 1695 finalmente o quilombola chefiado pelo mais proeminente de seus líderes caía. Zumbi dos Palmares foi morto pelas mãos bandeirantes para entrar na História. Ou pelo menos deveria ser assim. O fato é que Zumbi ainda permanece oculto para muitos cidadãos brasileiros; no entanto, semelhante a uma sombra que paira sobre o mundo contemporâneo, depois de mais de 300 anos seu nome ainda é invocado frente a tantas injustiças sociais que a população vivencia diariamente.

O professor de capoeira José Nilson Santana é mais uma prova da presença de Zumbi. Há mais de 20 anos ensina capoeira em Guariba, vários jovens da cidade já treinaram ou dezenas deles ainda jogam capoeira três vezes por semana no espaço dedicado a esse fim em um salão na antiga estação ferroviária do município. Esta sexta-feira da consciência negra, ele preparou um momento especial e, antes do jogo, tive o privilégio de conversar com toda a turma a respeito da data. Como professor de Língua Portuguesa não pude deixar de reverenciar nosso maior escritor de todos os tempos, Machado de Assis, neto de escravos e mulato, que com ironia e perspicácia fugiu de qualquer estereótipo de cor para se firmar no panteão dos escritores mais originais de todos os tempos. Machado não fugiu do tema da escravidão em suas obras, muito pelo contrário, escreveu entre outros o conto Pai contra mãe,(http://www3.universia.com.br/conteudo/literatura/Pai_contra_mae_de_machado_de_assis.pdf)obra inaugural da seleção de Ítalo Moriconi para a seleta ” Os cem melhores contos brasileiros do século” . Li o trecho inicial do conto em que brilham a ironia e a crítica social machadianas. Todos ficaram de ouvidos atentos aos métodos de castigos aos quais os escravos fujões eram submetidos – chamou especial atenção a máscara de Flandres “Tinha só três buracos, dous para ver, um para respirar, e era fechada atrás da cabeça por um cadeado…Era grotesca tal máscara, mas a ordem social e humana nem sempre se alcança sem o grotesco, e alguma vez o cruel. Os funileiros as tinham penduradas, à venda, na porta das lojas. Mas não cuidemos de máscaras.”

E realmente o conto vai muito além das máscaras, como o próprio título sugere , a história se desenrola num misto de tensão e expectativa para o leitor, enfim mais um conto magistral e imperdível de Machado.

Depois foi a vez do Contramestre Pixe soltar a voz, tocar o berimbau e a roda mais democrática e significativa iniciar o jogo de capoeira. Aí a atmosfera entra em ebulição e parece que somos transportados à época em que aprender capoeira era não apenas questão de vida ou morte para os escravos, mas sobretudo um símbolo da resistência e da luta. Ela é o marco sócio-cultural genuinamente brasileiro. Embora o movimento Capoeira Angola seja fortíssimo, foi no Brasil que esta arte adquiriu contornos essenciais e por isso foi classificada pela Unesco como Patrimônio Imaterial da Humanidade.

São pessoas como José Nilson que mantêm este patrimônio e história vivos e é uma lástima saber que durante todos esses anos pouco no nosso município se tenha feito para ajudá-lo nesta empreitada. Embora saibamos que ainda existe o preconceito contra a capoeira e os capoeiristas, não se pode admitir que uma visão medieval, isto é, confundir capoeira com bruxaria, ainda impere na mente de alguns educadores e sufoque o trabalho que Nilson tem para oferecer nas escolas. Há alguns anos conversamos com varias autoridades municipais, como prefeito, vereadores, secretários de gabinete e tudo que recebemos foram promessas não cumpridas. O que revolta é que enquanto projetos sociais como esse são abafados, nossa sociedade, principalmente negros de periferia sofrem, vítimas da violência, da droga, da falta de cultura que uma escola mais aberta para a comunidade deveria oferecer. Hoje em dia, os currículos fechados dopam a mente de muito educador ordinário, que por sua vez, poda o diálogo mais franco com a sociedade.

Uma pena, mas mantenhamos a esperança, há muitos alunos jovens.Há dois meninos, por exemplo, o filho de Zé Nilson, Matheus, não perde nenhuma aula de capoeira do pai, carrega no DNA o prazer do jogo e o Ruan, tão adolescente como Matheus, foi meu aluno no Ensino Fundamental durante um ano e também pude comprovar sua evolução com um adendo: neste dia ele me confessou que adora escrever e, aproveitando a ocasião, pedi para que ele escrevesse sobre este dia tão especial:

Dia da Consciência Negra

“Hoje, meu dia foi bem cheio… Bom o meu e de mais um monte de gente. Nós do grupo “Chipaia De Ouro” resolvemos passar esse dia tão histórico em ritmo de alegria e paz. Um dia de muita importância, mas que infelizmente muitos sequer sabem o porquê dessa data virar feriado, mas hoje reservamos nosso tempo para discutir sobre esse assunto. Começamos com um bate-papo sobre Zumbi Dos Palmares e o racismo, que infelizmente é a nossa realidade social. Também abordamos o assunto “literatura” quando se falou de Machado De Assis, afinal um dos maiores escritores do mundo e que escreve bastante em suas obras sobre a escravidão . Depois dessa conversa ,começamos a capoeiragem e fizemos a típica roda. Que energia boa ! Não troco por nada, capoeira é fonte de paz e harmonia e por isso deveria ser mais reconhecida no nosso país.”

Valeu Ruan, Matheus, Nilson e todos os participantes,

o recado está dado.

Axé !

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Um espaço para todos: capoeira é fonte de paz e harmonia

Dos filmes dentro do filme ( e a presença de Maria Moraes )

Conseguimos encontrar por acaso alguns participantes do filme Califórnia à brasileira, produzido por Beto Novaes e Chiquinho – até então a bíblia da greve de Guariba –  para nós, iniciantes do trabalho. Foi um dos nossos pontos de partida, me lembro de ter gelado ao perceber a pertinência do curta. Ele toca em vários assuntos e aponta no final para a mecanização e o enfraquecimento dos sindicatos rurais, nele aparecem Cidinho Barros em entrevista ao longo dos anos 90 e José de Fátima em uma gravação próxima à época da greve de 84 apenas. Numa das entrevistas com Zé ele me confirmou seu desconforto ” não vieram atrás de mim, por quê? O filme é do sindicato do Hélio” ( em várias conversas, sobram alfinetadas ao presidente da FERAESP e cabeça do movimento sindical pós-greve de Guariba).

Depois deste filme encontramos outro curta da dupla sobre os 20 anos da greve, cujo objetivo foi não apenas alertar sobre a pertinência da memória, mas também a obra culmina com a inauguração do salão do Sindicato Rural da cidade. O título é ” A memória em nossas mãos” deste conseguimos entrevistar o grevista hoje assentado Tio Bica e seu Geraldinho, que entrevistamos primeiro para depois reconhecê-lo neste filme. Vambeto quem participou da coincidência, os dois freqüentam a mesma igreja. Deste filme também usamos as cenas do dia 15/05. Desde às do início da manhã até o quebra-pau no final da tarde no bairro do João de Barro -são cenas revoltantes de violência.

Antes de iniciar as filmagens, falei com o Fê Sousa, para pedir ajuda. E ele no ato também me disse que já havia feito um filme com o pessoal do Cine Cauim de Ribeirão Preto, a direção é de CArlos Caxassa e a fotografia do Fê. Até então não atinava para as coincidências. O fato é que descobri no meio do caminho que a Greve de Guariba era muito mais complexa e importante, não apenas em termos de sacudir o país num momento bem diferente do agora, mas também no que se refere ao nascimento de um espírito de mudança, guiado pelas idéias marxistas, e fundado na idéia de esquerda que havia na época: exemplos claros são as greves sindicais no ABC paulista, que entre outras coisas, alavancou o nome de Lula a patamares inesperados, esses movimentos se opunham a grandes poderes da classe conservadora e impulsionaram o desenlace da ditadura militar, também a partir deles ou concomitante floresceram os partidos democráticos e mais à esquerda, o partido dos trabalhadores. Encontrei Fê em um momento diferente da história, no entanto, o curta O bóia-fria já sinalizava para a exploração do trabalhador e para a violência policial.

Um dos curtas mais enigmáticos é o que revela imagens que sempre me chamaram atenção antes de elas existirem, senão em minha imaginação e graças a poucos frames dos filmes de Chiquinho e ao desconhecido e excelente trabalho fotográfico de Carlos Fenerich. As cenas das assembléias estão presente em A classe que sobra, citado na obra O conflito social de Guariba do professor Alexandre Marques Mendes. A direção é de Peter Overbeck, alemão radicado no Brasil, fotógrafo de alguns longas dos anos 60 e 70, fato que paira como uma aura de mistério. Até hoje não consegui descobrir muito sobre a obra além de assistir a ela. De viés praticamente Marxista, ele revela o pensamento de um tempo em que o Brasil reescreve sua história com indignação, luta sindical e política. Há uma trilha original maravilhosa, a exibimos em nosso documentário e embora cite Guariba, a maior parte das cenas se passam na região de Piracicaba, outro centro canavieiro de grande relevância no cenário nacional.

Por fim, mas não menos importante, num desses encontros da vida e entre as andanças que Vambeto e eu fizemos a fim de divulgar o romance Realidade Nordestina, conhecemos a professora Paula Scanuela, muito engajada em projetos similares, que nos apresentou o doc O facão de ouro, que  apresentou-me pela primeira vez ( pelo menos audiovisualmente) a Maria Aparecida Moraes, professora da Ufscar, estudiosa das questões que envolvem o bóia -fria e, portanto, conhecedora da realidade político-econômica de nossa região. Ela vem somar aos estudos da outra Maria, a D’ Incao, uma pioneira, e para quem acompanha este blog, presente em um post de algum tempo.

Reinaldo Moraes e a epopéia literária de nosso tempo

Reinaldo Moraes pode não estar no panteão dos best-sellers nas livrarias brasileiras. Mas seu romance Pornopopeia está muito além de qualquer sucesso passageiro na atual literatura das megastores.

Engraçado, envolvente, sexualmente bukowskiano, são incontáveis as qualidades do livro, às vezes, confundimos Reinaldo e Zeca. A quem é quase iniciante da literatura do mestre, minhas referencias são alguns textos muito engraçados na Piauí – sua porno-homenagem a Wolinski, seu último telefonema a Cortàzar e algumas traduções – é bastante difícil e tolo fazer tais afirmações, porém o que é legal neste livro é o quanto é realístico-filosófica esta idéia do artista fracassado e metido a intelectual – e a muita liberdade sexual – que parece fazer parte do mítico da figura de autor.

Com Pornopopeia, Reinaldo, no entanto, concretiza o desejo de alguns aspirantes a artista, escreve um clássico de nossa literatura contemporânea, abusa de uma linguagem riquíssima, não só da galera paulistana descolada em todos os aspectos. Ele cria neologismos interessantíssimos, como o próprio título sugere, faz associações e hibridismo de palavras, emprega estrangeirismos com grafias audaciosas e inteligentes, imaio para email, long-neck, sexygenária, catso, por supuesto, e tantas outras técnicas que muito enriquecem o romance e a relação com o leitor, pra mim o vocabulário foi muito familiar (!), moro no interior de SP. Mas imagino os leitores das várias regiões do Brasil. Sem dúvida, Pornopopeia rompe todas estas fronteiras.

Mas voltando ao enredo vale perguntar: Quem nunca embarcaria numa surubrâmane com a Sossô, amiga da filha de 18 anos do melhor amigo, e o amigo maluco tocador de cítara?

Em uma maluca viagem noite adentro, regada a muita cerveja, old eight falsificado, droga e sexo, o leitor vai se encontrando com os devaneios de Zeca em busca de idéias para seu vídeo institucional de uma fábrica de embutidos de frango.

Logo nas primeiras páginas o título audaz começa a fazer todo o sentido. Pornopopeia é imperdível: um dos romances mais originais dos últimos anos ( décadas ) da literatura brasileira, um tratado engraçadíssimo e revelador sobre essa coisa enfadonha e politicamente correta que é a interpretação do sexo, como pecaminoso – pelo menos aos olhos mais caretas e vigilantes – dessa nossa sociedade.

Em Pornopopeia tudo é grandioso, a começar pelo romance de bolso de 660 páginas que arremessado de forma certeira em algum desses vigilantes da hipocrisia, causaria um nocaute bem merecido. Mestre em Cortázar e nos beatniks, Reinaldo se vale de técnicas narrativas bem construídas ao mesmo tempo que dialoga com o hipotético leitor a respeito do que escreve, Pornopopeia se tornaria um roteiro de cinema da vida do narrador, um recurso metalinguístico que, às vezes soa estranho, às vezes compreensível dada a ânsia megalomaníaca de transformar em arte tudo que faz o protagonista Zeca.

Os personagens também são delirantes, não perca o deleite da velha estalajadeira, ou a gracinha da caiçara dentucinha, ou ainda a cena em que a torta de Portnoy se transforma numa lula, tudo muito escatalógico, de rolar de rir.

Uma delícia de leitura, não se ri tanto com a literatura brasileira há tempos. As barbas da seriedade ficam de molho enquanto estamos próximo de Reinaldo, cronista engraçadíssimo, que retorna à arte do romance com muita lucidez ao apresentar uma obra holisticofrênica, como o maior sucesso cinematográfico de Zeca. Um produto de nosso tempo, sem dúvida, como se prega na contracapa do livro.

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A arte do romance nas escolas

Já não estranho mais a confusão que meus alunos, muitos do terceiro ano do Ensino Médio, fazem com o significado da palavra romance quando empunho alguns em mãos para apresentar a eles no início do nosso projeto literário, “A leitura das grandes narrativas”. Explico romance como gênero literário narrativo; diferente da acepção: uma história de amor, mais usual nas caras e bocas dos adolescentes ( ainda bem !)nesses intermináveis tempos do cólera.

É incrível ( e triste )como uma arte tão apreciada e importante para nossa sociedade continue tão longe das escolas, e muito possivelmente, da vida das pessoas que já não estão mais nelas. Se o Brasil quiser reverter este deficit escolar gigantesco, terá que incentivar, sobretudo, a leitura desta arte narrativa que nos brindou com o que há de melhor na combinação história-filosofia-invenção.

Além disso, os romances devem ser lidos também porque geram a concentração em estado máximo, a capacidade de construir uma seqüência narrativa, o convite à reflexão, a abordagem íntima com as personagens e consigo mesmo, a compreensão do período histórico, e a lista seguem além…

Há uma certa tendência a desmerecer este trabalho em sala de aula (eu também escolheria ler num amplo parque ou à sombra de frondosas árvores, ou mesmo em casa), mas a única opção que tenho é a leitura na sala de aula em silêncio ( uma das poucas formas ainda de o fazer sem ameaças e impropérios). Da mesma forma, posso garantir a leitura de todos os alunos a um só tempo.

No primeiro bimestre deste ano, a caixa conteve romances de Fernando Sabino, Marcelo Rubens Paiva, Ernest Hemingway e Daniel Defoe, além dos contos de Clarice Lispector do livro Laços de família. Deu certo o trabalho pelo segundo ano consecutivo, alguns alunos ficaram um pouco perdidos, mas no geral todos aprenderam bem. Eu finalizei-o pedindo uma pesquisa sobre os autores para avaliação. Percebi que ensinar a pesquisar é ensinar a não fazer cópia, em primeiro lugar. Ou se a fizer, pelo menos ler e organizá-la de modo diferente na sua ” pesquisa”.

No mais, os romances perduram desde o século XIX; é uma arte nobre e um dos ofícios mais difíceis de se concretizar: primeiro porque é um trabalho intelectual ao alcance de poucos, segundo porque há de se ter o talento desperto e, terceiro, há cada vez menos leitores dispostos a “perder” seu precioso tempo de prazer imediato numa reflexão mais profunda.

Vambeto Gomes de Jesus, o autor de Realidade Nordestina, vem pelo menos abrir uma brecha nesta terceira regra se pensarmos no leitor brasileiro não como aquele que freqüenta megastores em busca de bestsellers, romances comumente tão vazios quanto insípidos, mas no leitor mais humilde, aquele brasileiro esquecido para o mundo editorial não freqüentador de shopping center: aquele que trabalha como um louco e tem que estudar na educação de jovens e adultos a fim de recuperar aquilo que o governo brasileiro não oferecia e, para as crianças de agora oferece tão parcamente. Para este leitor o livro de Vambeto é um deleite, isto já provamos em tantas escolas por que passamos.

Será que há mais público?

Em vista de meu trabalho nas escolas públicas de São Paulo, acredito que sim. Há um mar de leitores nas escolas à espera de programas mais efetivos de leitura que consigam conquistá-los. A maior parte de meus alunos fica encantada com os romances de Fernando Sabino, Marcelo Rubens Paiva e Vambeto Gomes de Jesus.

Por isso A arte do romance nunca irá morrer. Pode ser que tenhamos menos leitores em vista da falta de incentivo ou desses arroubos de megastores, no entanto, enquanto houver romancistas, haverá leitores.

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O desatino da rapaziada : Fernado Sabino, não deixe o romance morrer.

O Nordeste é aqui

Nosso documentário Trajetórias, 30 anos depois da greve de Guariba já vem cantando a bola há muito tempo do preconceito velado que existe não apenas sobre a greve de 1984, mas, sobretudo, sobre a figura do nordestino. Meus maiores amigos, hoje, são nordestinos, já citei aqui o escritor, dentre tantas atribuições , Vambeto Gomes de Jesus e o capoeirista José Nilson Santana. Além disso muita gente sabe que é nas diferenças que nos completamos, que nos tornamos melhores e maiores e esse papo de andar só com gente que tem as mesmas idéias que você é sinônimo de insegurança e, no mínimo, falta de criatividade.

Na minha adolescência até existia uma brincadeira sobre o adjetivo de que quem nasce em Guariba, é Guaribaiano, não fosse piada de criança, soaria ofensivo e para quem tem bom humor, nos tempos atuais vale até como uma justiça a esse povo que trabalhou tanto e colaborou para a evolução não apenas de minha cidade mas de todo o estado paulista.

Nos debates na TV quando via alguns candidatos dizendo ao outro ” você precisa estudar” , na verdade o que pensava era ” vocês precisam oferecer uma educação melhor aos seus cidadãos, crianças e jovens, principalmente. Sei que vocês já estudaram bastante e estão apenas participando de um joguinho sobre o que posso ou não dizer”

Ao mesmo tempo, o que se proclamou nas redes sociais em alto e bom som, além de mostrar a estupidez e a intransigência, em seu maior requinte e asco, também provou que o projeto educacional brasileiro precisa de uma reviravolta e fugir de estereótipos e desse modelo malfadado e fracassado de anos, do contrário, continuaremos ofendendo uns aos outros com mensagens preconceituosas e até agressões, como tem ocorrido recentemente.

Apenas a educação ou projetos que recuperem a história de nosso país, principalmente dos últimos 35 anos, não num viés nacionalista e retrógrado, mas de forma a debater, primeiro, as perdas e ganhos, pode nos devolver o essencial.

Em segundo lugar recuperar a história sob um novo conceito, a da luta trabalhista no final dos anos 70 , seria uma boa pedida, ou ao menso mais justa. Hoje em dia, muitos alunos saem da escola sem saber nem ao menos o que foi a Ditadura Militar no Brasil, quanto mais questões sindicais ou constitucionais no decorrer dos anos 80 e 90.

Somado a isso, nosso projeto de recuperar a história local é essencial para entendermos quem somos, o que nos domina e como tornar essa relação mais justa oferecendo oportunidade para todos.

Nossos empreendimentos estão lançados: o debate do romance Realidade Nordestina de Vambeto, o documentário, a exposição e foto-livro: Trajetórias, 30 anos depois da greve de Guariba são apenas o início da luta em um contexto de preconceito tão arraigado, e dissimulado na falta de educação que nos preocupa e que ao mesmo tempo nos oferece o combustível necessário, e limpo – espero – de qualquer simplismo e visões extremistas , o qual nos permita encher nosso tanque e oferecer um caminho e um grande espaço ao nosso lado para quem quiser vir junto.

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O mapa das eleições presidenciais, mais eu e Vambeto na faculdade São Luís no início de 2013. Já estamos tocando o livro Realidade Nordestina há muito tempo e continuaremos…a propósito, esqueçamos as fronteiras: somos vários e uma nação única que percorre toda a América Latina.