Drummond e a mineração – Wisnik em novo livro lança mais luz sobre o poeta de Itabira

José Miguel Wisnik é professor da USP, pesquisador, ensaísta, músico e autor de vários livros em que vale destacar Veneno remédio sobre o futebol, o Brasil e suas implicações. Seu mais novo livro, Maquinação do mundo, aborda o maior poeta brasileiro: Carlos Drummond de Andrade e sua relação com a mineração, “O livro nasceu por acaso numa viagem que fiz a Itabira. Ela é uma pequena cidade que tinha uma jazida colossal de ferro, e a ligação de Drummond com a cidade passa por todos os livros dele”.
Para Drummond, nas palavras do professor, “Itabira é um retrato na parede que dói. E Drummond é um poeta que tem fome de mundo. Ele foi a grande voz da poesia durante a Segunda Guerra Mundial. E Itabira foi fundamental para a entrada do Brasil na guerra”. Em dois de seus livros mais famosos A rosa do povo e Sentimento do mundo, toda essa dor e luta íntima transborda numa poesia magnífica, E agora, José, um dos mais famosos poemas, pertence a esta fase de vida do poeta.
Wisnik afirma que a cidade tem as marcas da mineração “uma paisagem devastada – que eclodiu recentemente por meio das tragédias de Mariana e Brumadinho”. A mineração, como se sabe, deixa imensas crateras e barragens de rejeitos, nas palavras de Drummond são“…castelos de cartas na iminência de desabar…”
Uma vez que a ideia para o livro surgiu de uma viagem, ele fez o elogio dela “quando você deixa seu habitat e chega a outro lugar, as evidências gritam…tive uma espécie de sentimento do mundo em Itabira”.
A partir daí um “sentimento de urgência tomou conta dele” e a pesquisa sob este aspecto “mineral” das poesias de Drummond adquiriu novos significados. Esta nova abordagem, mais próxima da influência da “paisagem” na vida e obra do autor deu origem ao livro.
Os caminhos se encontram mais uma vez quando a Cia Vale do Rio Doce é criada em 1942 para explorar o ferro em Itabira do “pico do Cauê”. Em fotos, pudemos ver a magnitude do monte – que já não existe mais – a atividade extrativista deixou em seu lugar uma cratera de mais de 200 metros de profundidade. “Há em Itabira quatro barragens oito vezes o tamanho da de Mariana”. Essas jazidas, reservas minerais, fizeram parte da indústria do aço que movimentou o século XX, ele completa “esses minérios foram utilizados para a indústria bélica da 2° guerra”. Por isso ele diz que Itabira, apesar de seu aspecto provincial, esteve no epicentro do mundo, “Foram três décadas de exploração e exportação que deveria ser articulada com uma siderurgia nacional de grande porte. Um projeto nacional contra os defensores do livre-mercado. Veja como é atual?”, provocou.
No entanto, “Drummond viveu tudo isso à moda mineira, na surdina, a despeito de ter feito muitas críticas nos anos 50”. Para o estudioso, “a máquina do mundo ( de Drummond) é esta máquina de dispositivos de exploração do mundo e, ao mesmo tempo, o enigma da tragédia humana. Gera catástrofes inomináveis e é uma mercantilização voraz que não olha para aquilo que atravessa”.
Por esta postura crítica, a fama de Drummond surgiu da infâmia “ de alguém que toca nas feridas, por isso foi execrado e celebrado”.
Mas por trás desta cosmogonia, dessa máquina do mundo que tudo vê, também tem espaço em Drummond a poesia lírica que tem muito a ver com o conceito proustiano de memória involuntária “ aquela que te transporta a um passado vivo”, uma das madeleines do poeta era o sino da Matriz do Rosário “ Drummond vivia a poucos metros da igreja e a vida era pontuada por aquele sino, que nunca parou de bater na vida dele. O relógio do Rosário é um poema sobre a dor de existir”.
Esse universal e particular (ou provinciano) nunca deixou de existir na vida de Drummond, que como nenhum outro “peitou” as grandes corporações e, como outros poucos, desenhou tão bem a nossa intimidade “ uma grande dor coletiva só pode ser vivida quando ela é individualizada, isto é, humanizada pela experiência”, conclui o professor Wisnik.
Drummond atingiu um público enorme, alguns de seus poemas ficaram tão famosos, que versos caíram no imaginário popular, quem nunca ouviu diante de uma situação grave alguém expressar ” E agora, José?” ou desconhece o poema Quadrilha, que virou até peça publicitária? Suas obras continuam suscitando novas interpretações e embates sem deixar de tocar naquilo que a gente tem de mais humano e particular: nosso sentimento do mundo.
Para ilustrar bem este sentimento tão coletivo e ao mesmo tempo tão individual, Wisnik falou de cor um poema singelo e peremptório de “ uma cidade cujo destino é mineral”:

ITABIRA

Cada um de nós tem seu pedaço no pico do Cauê.
Na cidade toda de ferro
as ferraduras batem como sinos.
Os meninos seguem para a escola.
Os homens olham para o chão.
Os ingleses compram a mina.
Só, na porta da venda, Tutu Caramujo cisma na derrota incomparável.

De Alguma Poesia (1930)

No alto o professor José Miguel Wisnik, depois duas imagens daquela tarde agradável na feira do livro de Ribeirão: destaque mais uma vez da tenda Sesc.

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Desta terra nada vai sobrar, a não ser o vento que sopra sobre ela

 

Ignácio de Loyola Brandão está com 82 anos e acaba de lançar mais um romance: Desta terra nada vai sobrar, a não ser o vento que sopra sobre ela. Este ano também foi eleito para a Academia Brasileira de Letras, a maior glória recebida por um escritor vivo, a esse fato brincou “enquanto estiver vivo apesar de imortal…”
Ele esteve mais uma vez na Feira do Livro de Ribeirão Preto em junho para receber também a homenagem de autor celebrado do ano e abriu o evento com uma pequena participação no domingo inaugural. Começou por lembrar de suas professoras do ensino primário, nos anos 40, em Araraquara – SP, “ Lurdes e Ruth, será que ainda estão vivas? Elas me ensinaram tudo que eu precisava saber para ser um escritor”, ele continuou acerca de uma atividade que adorava “ àquela época, ganhamos uma cadernetinha e a professora disse ‘ vão para a rua e anotem tudo que vocês veem, depois vão fazer uma redação: o nosso bairro’ e lá fui eu”, completou o escritor.
Ignácio saiu às ruas no dia de branco, “ naquele tempo não havia absorvente, e as mulheres tinham suas próprias peças íntimas ” branquíssimas”. Naquele dia escrevi uma redação sobre o Dia de Branco no bairro e passeei observando e me encantando com as peças da vizinhança, a professora adorou minha redação, mas não pude ler para turma” em meio a risos da plateia, ele ainda teceu o seguinte comentário “ Certas coisas a gente entende bem depois” brincou em relação à censura a seu texto.
“Elas me ensinaram para sempre, menos para o tempo em que estamos vivendo” ele seguiu para falar um pouco do livro, uma distopia, cujo título é inspirado num poema de Brecht e vem completar uma trilogia iniciada por Zero e Não verás país nenhum.
O livro foi inspirado em Salinger, pois sempre quis fazer um livro sobre uma viagem assim como O apanhador no campo de centeio, “fantástico livro”. E ressalta que este romance “é uma grande metáfora” da loucura do nosso tempo, onde já não há mais separação entre realidade e ficção “ se eu tivesse escrito que alguém viu Jesus numa goiabeira…” ( muitos risos) e segue “ No Brasil hoje a normalidade é a anormalidade…200 tiros para matar um músico – e todos serão absolvidos “
“eu fiz este livro para provocar, para questionar “Já Kafka, talvez o maior autor do século XX, já expusera o absurdo da vida. O livro trata disso e não deixa de ser também “a soma de nossas experiências” e mais ainda revelou “a gente cria personagens que gostaria de ser”
Numa época bastante complicada e absurda, o romance veste o seu tempo e Loyola Brandão não baixa o tom “em 82 anos de vida nunca vi nada parecido com que a gente está vivendo…um homem destemperado, fala o que quer e só fala bobagens. Vai e volta e não chega a lugar nenhum. Ele não é estadista, não é presidente”
Depois volta a dizer que a fantasia ajuda a suportar a vida e que não existe inspiração como algo mágico, “são vocês que fabricam, basta olhar e observar”
Sobre a técnica da escrita ainda observa “à medida que escrevo, as cenas caminham de um lado para outro. Minha vida é muito fragmentada, por isso penduro as cenas num barbante e vou até arranjar a sequência, nunca sei o final. Tenho uma ideia para onde quero ir, mas não tenho o capítulo final”
Loyola Brandão confirma que demorou quatro anos e meio para escrever este livro, mas segue sem pressa. Gostaria, é claro, que este país valorizasse mais a cultura, “ somos um país de 200 milhões de habitantes e não temos um ministério da cultura”, mas continua seu caminho palestrando para jovens e crianças, como os do projeto Combinando palavras da Fundação do Livro e Leitura e parceria com as escolas pública e particulares, em que o autor todo ano conversa com seu público mais cativo e que tem um carinho enorme por ele.
Da última vez que o vi, ainda aqui na feira, há uns três anos, com sua filha Rita lançando um trabalho em conjunto, parecia mais alegre, pudera, tudo parecia melhor, o ambiente com a família, a situação política – apesar dos pesares, agora, com uma voz mais empostada, o abdômen mais largo e duro, a pele mais branca e vermelha e com menos cabelo, Ignácio me pareceu frágil e raivoso. Deve ser muito triste depois de tantos anos na luta, ver o país preso num labirinto Kafkiano, em que todos nós subitamente nos vimos metamorfoseados num país sem nexo e alimentado por descalabros cotidianos. Ele ainda brincou quando se referia a Kafka com as primeiras linhas de seu romance mais famoso“ Quando certa manhã Gregor Samsa acordou de sonhos intranquilos, encontrou-se em sua cama metamorfoseado em Bolsonaro” ou seria “Quando certa manhã Bolsonaro acordou de sonhos intranquilos, encontrou-se em sua cama metamorfoseado num inseto monstruoso”.
Todos rimos da graça, embora a vontade às vezes seja mesmo de chorar. Loyola Brandão leu mais um trecho de seu livro e se foi, a esperança de que o país saia dessa e possamos vê-lo numa próxima feira, continua.

Loyola Brandão lê seu mais novo livro

Um raio de esperança

Primeiramente, antes de ler este texto, peço que conheça Greta Thunberg, https://brasil.elpais.com/brasil/2019/03/09/actualidad/1552146532_090042.html, estudante secundarista diagnosticada com Asperger, que venceu o isolamento e o mutismo para se tornar a porta- voz de sua geração, depois, se existe uma coisa sobre a qual o livro de Steven Pinker O NOVO ILUMINISMO me deixou bastante esperançoso foi o fato de ele apontar por meio de dados mais diversos a opinião dos jovens acerca de várias questões cruciais para o nosso tempo, como aquecimento do planeta, democracia, identidade e economia dentre outros. Em sua maioria, o que eles pensam coincide com o que relatam e exortam os cientistas, professores e especialistas de todas essas áreas. Os jovens são mais inclinados à promoção da paz entre os povos e integração dos imigrantes e refugiados de guerra e do clima, ao combate a quaisquer formas de discriminações, são favoráveis à democracia em detrimento de qualquer outra forma de organização política, exigem medidas para frear a devastação do meio ambiente, a queima de combustíveis fósseis e o desmatamento das florestas tropicais, por fim, são mais propensos ao debate das desigualdades de renda e à compreensão das múltiplas identidades e da integração das minorias à sociedade.

O otimismo ganha relevância, porque, em 20 anos, serão esses jovens os protagonistas e os atores mundiais em ação, isto é, o que Pinker tenta provar neste seu calhamaço é que, ao contrário do que alarmistas de vários veículos de imprensa e catastrofistas de toda sorte alardeiam, o fim não está próximo, pelo contrário, não houve época em que a prosperidade humana fosse tão visível e chegasse a tantas pessoas.

Exemplos recentes do protagonismo desses jovens não faltam: os movimentos #fridaysforfuture , #marchforourlives e #blacklivesmatter levam milhares de pessoas às ruas de quando em quando, a eleição de parlamentares jovens progressistas por todo o planeta, no Brasil Talíria Petrone e outros tantos e tantas, nos EUA AOC, representam no cenário político internacional que as lideranças jovens e inovadoras estão furando a bolha do establishment e do lobby das grandes corporações.

De todas as novidades que este livraço nos mostra, esta é, sem dúvida, a primeira, em face do esgotamento deste velho mundo e destes velhos líderes, razão para acreditarmos que a força da vida se colocorá contra a morte, a violência, a discriminação e o ódio, como outras vezes vimos pela história.

Desta vez com um elemento completamente novo: são jovens que estão na frente da marcha da história.

Que os nossos jovens que vieram às ruas esta semana pela educação e contra o corte indiscriminado de verbas para pesquisa continuem na luta por um mundo cada vez mais justo.

Greta – uma das vozes mais importantes da Nova Geração

Pela volta da social democracia e das políticas de centro

Só há uma forma de combater o extremismo que tomou conta do cenário político brasileiro – isso inclui todos os debates políticos, do boteco a Brasília – essa forma passa pelo retorno das políticas e dos políticos de centro. A socialdemocracia do PSDB, por exemplo, precisa encontrar um caminho entre um menos raivoso e mais propositivo Bruno Covas e um menos liberal e mais humano João Dória, isso em São Paulo, em nível nacional o partido, com a exceção do Rio Grande do Sul, terá que se reinventar, aproximar-se do povo, assim como fez bem a inspiração dos tucanos, os democratas americanos atuais.

Mas não só o PSDB, dos partidos criados recentemente na onda de tirar o nome partido e fugir das siglas, surgiram alguns novos-velhos caciques, por exemplo, (re)criou-se os democratas, antigo PFL e o Solidariedade, teve vez outros risíveis, como os Patriotas, e alguns a esclarecer melhor a que vieram, como o Novo e o Podemos. Bem estabelecido e merecedor de um olhar mais atento está a Rede. Ainda no centro, temos um possível MDB em que o partido tem de melhor, começaria por uma presidência de Requião que comandaria esta renovação. O Psol poderia se aproximar mais da centro-esquerda, assim com já fazem os trabalhistas PT e PC do B. Sobram ainda dois importantes partido de centro-esquerda, o PSB e o PDT.

Estas forças somadas com a capilaridade ideal (esta é a parte mais difícil, como espalhar estas políticas pelos interiores e regiões do país) seria exitosa, porém, como vimos, o momento é de volatilidade e fanatismo. Por um lado, não existem lideranças políticas eleitas ou não para coordenar estas ações por todos estes partidos. Além disso, a maior parte dos políticos eleitos nos municípios e estados brasileiros estão mais interessados em manter o status quo, apesar de dizerem o contrário, do que realmente romper as relações perniciosas do toma-lá-dá-cá a que estão acostumados. Por outro lado, nas políticas populares em bairros afastados e periféricos a organização social se deu pelas igrejas pentecostais, que fazem, além dos cultos, um serviço de caridade, mas pouco formativo na política, que está pregando a parte mais conservadora do cristianismo, relacionando liberdade e excesso a pecado e não retidão.

Ainda assim, tudo isso é preferível a um governo de extrema direita e ideológico, que instiga a todo tempo o radicalismo e a polarização. Enquanto não houver respeito ao adversário político, um clima de paz e tranquilidade, o Brasil não irá pra frente. Bolsonaro, a não ser que dê uma guinada comportamental acentuada – o que é improvável – não parece ser a pessoa mais indicada para a conciliação e pacificação política no Brasil. Nem parece querer ser esta figura. A alternativa é aguentar firme estas turbulências, respeitar a liturgia do cargo e se organizar durante estes três anos e meio para formar uma corrente forte e derrotar a ele ou a qualquer outro similar dentre os já mencionados, e pôr o país nos trilhos do progresso e do humanismo mais uma vez a frente de outros valores excludentes e autocráticos em voga.

Brasil é um dos países que menos investe em educação.

Sinta-se indignado pelo papel da América na crise que afeta o Iêmen

Os EUA abastecem com bombas e outras armas a guerra que mata civis e está gerando mais uma crise de fome no mundo

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A notícia sobre Bret Kavanaugh e Rod Rosenstein é viciante, mas reserve um tempo para um Crime contra a Humanidade que os EUA estão provocando no distante Iêmen.

Presidente Trump não mencionou isto nas Nações Unidas, mas a América está colaborando com a morte, a mutilação e a fome de várias crianças iemenitas. Ao menos 8 milhões de iemenitas correm risco de desnutrição por uma crise alimentar que não foi causada por falhas na safra de alimentos, mas causada pelos americanos e seus aliados. As Nações Unidas estão chamando de pior crise humanitária atual e nós a causamos.

Uma bomba americana fabricada por Lockheed Martin atingiu um ônibus escolar o mês passado matando 51 pessoas. Um pouco antes, bombas americanas mataram 155 pessoas que atendiam a um funeral e 97 pessoas em um mercado.

Crianças iemenitas passando fome acabam tendo que se alimentar de uma espécie de sopa de folhas. Mesmo aquelas que sobreviverem ficarão comprometidas pelo resto da vida, física e psicologicamente.

Muitos assuntos de segurança global envolvem negociações complexas, mas esta é diferente: nosso comportamento é inadmissível.

A atual crise no Iêmen é provocada pelo homem, disse David Miliband, ex-secretário britânico e atual do Comitê Internacional de Resgate, que recentemente retornou do Iêmen. “Este não é caso em que o sofrimento humanitário é o preço a pagar por vencer uma guerra. Ninguém está vencendo, exceto os extremistas que grassam no caos”.

Os EUA não estão diretamente lançando bombas no Iêmen, mas abastecem com armas, inteligência e suporte aéreo a Arábia Saudita e os Emirados Árabes enquanto eles massacram o Iêmen com ataques aéreos, destroem sua economia e deixam a população à beira da fome e miséria. O objetivo dos sauditas é derrotar rebeldes Houthi que tomaram a capital do Iêmen e estão alinhados ao Iran.

Esta é uma sofisticada REALPOLITIK para você: porque não gostamos dos Aiatolás iranianos, vamos matar de fome as crianças iemenitas.

“O governo Trump é cúmplice de uma sistemática de crime de guerras”, disse Kenneth Roth do Human Rights Watch.

Vamos ser claros, também. Esta é uma catástrofe moral bipartidária. Esta política começou com Barack Obama, com algumas reservas, e depois Trump a multiplicou e descartou qualquer reserva.

“A guerra no Iêmen é hoje considerada a pior tragédia humanitária em curso no mundo”, disse Robert Malley, um ex-assessor de Obama que reconhece os erros do governo no Iêmen – que Trump tem agravado. Agora presidente do GRUPO PARA CRISE INTERNACIONAL, uma organização sem fins lucrativos trabalhando para evitar conflitos, Malley acrescentou “ Pelas nossas ações e inações, somos inevitavelmente cúmplices de tudo isso”.

Eu sei, eu sei. Todos os nossos olhares estão focados no reality show que é a Casa Branca de Trump. No entanto não podemos deixar Trump sugar todo o oxigênio de assuntos que envolvem vida e morte. O drama de Trump não pode anular as tragédias globais.

O massacre no Iêmen só não é mais visível porque os sauditas usam bloqueios para manter os jornalistas longe do país. Faz dois anos que estou tentando viajar ao país, porém os sauditas me barram de ir com grupos de ajuda.

Os dois lados desta guerra civil têm às vezes se comportado de forma brutal, e a única saída é a diplomacia. Mas o príncipe saudita prefere a fome e uma estado fracassado no Iêmen a qualquer outro compromisso, e quanto mais oferecemos armas a ele mais prolongamos os sofrimentos. Deveríamos usar nossa inteligência a fim de parar os sauditas e não os incentivar.

Para crédito nosso, alguns congressistas estão tentando parar esta atrocidade. Um esforço bipartidário, liderados pelos senadores Mike Lee, Chris Murphy e Bernie Sanders tentou limitar apoio à guerra no Iêmen e surpreendentemente conseguiu algo bom, com 44 votos. Outros esforços estão a caminho.

Líderes mundiais se reuniram na Assembleia Geral da ONU, fizeram votos sobre os objetivos globais em busca de um mundo melhor, mas a assembleia está infundida de hipocrisia. Rússia não dá a mínima para os crimes contra a humanidade na Síria, a China mantém detidos talvez um milhão de UIGHURS enquanto também apoia Mianmar em seu provável genocídio, e os EUA e o Reino Unido estão ajudando os sauditas a cometer crimes de guerra no Iêmen.

Isto é patético: quatro dos cinco membros permanentes do Conselho de Segurança das Nações Unidas são cúmplices de crime contra a humanidade.

Muitos americanos irrompem em fúria quando Trump mente, ou tuíta algum comentário indesculpável. Por favor, indigne-se, no entanto, guarde mais indignação para outros atos ainda mais monstruosos – aqueles em que contribuímos para matar crianças de fome numa das piores crises humanitárias dos últimos anos.

 

Tradução da coluna do Nicholas Kristof no NYT de 26/09/2018

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A gestão participativa e a história da comunidade

A GESTÃO PARTICIPATIVA E A HISTÓRIA DA COMUNIDADE: CAMINHOS PARA A CONSTRUÇÃO DA IDENTIDADE ESCOLAR

FACULDADE DE EDUCAÇÃO SÃO LUÍS
JABOTICABAL
2016
BRUNO GARAVELLO

A GESTÃO PARTICIPATIVA E A HISTÓRIA DA COMUNIDADE: CAMINHOS PARA A CONSTRUÇÃO DA IDENTIDADE ESCOLAR

Trabalho de Conclusão de Curso apresentado à Faculdade de Educação São Luís, como exigência parcial para a conclusão do curso de pós-graduação em Gestão Escolar.

Orientadora: Profa. Dra. Adriana Turqueti

FACULDADE DE EDUCAÇÃO SÃO LUÍS
JABOTICABAL 2016

Dedico
Aos meus familiares, pelos sorrisos e choros, alegrias e tristezas compartilhadas.

AGRADECIMENTOS

Agradeço a Vambeto Gomes de Jesus, José Nilson Santana e José de Fátima Soares pelo apoio e participação neste trabalho.

“Não basta que seja pura e justa a nossa causa. É preciso que a pureza e a justiça existam dentro de nós”
Mia Couto

RESUMO

O trabalho a seguir faz um estudo acerca da importância da história da comunidade para a (re)construção da identidade da escola, na qual está inserida, em outras palavras, é uma forma de afirmar que a escola/comunidade são indissociáveis, perante uma verdadeira gestão democrática e participativa da unidade escolar. O trabalho participativo, assim como o Projeto Político Pedagógico elaborado em sintonia com às necessidades locais, são capazes de transformar a realidade de um bairro e até mesmo de uma cidade. A gestão participativa requer a democracia na tomada de decisões elaboradas em prol da proposta pedagógica e na qualidade da aprendizagem, através de ações coletivas. Nesse sentido, o papel do gestor é fundamental. É possível afirmar que o estudo da história entre a escola e uma dada comunidade abre caminho para analisar vários enfoques, quais sejam, a relação entre a escola e a família, a participação comunitária no Conselho de Escola e na Associação de Pais e Mestres – APM e tantas outras. Todavia o objetivo desse trabalho é abordar os acontecimentos, os fatos relevantes e motivadores que permeiam a história entre a escola e a comunidade. A greve que ocorreu em Guariba é um fato histórico que repercutiu não só na comunidade, mas lança luz sobre a reflexão da questão da qualidade do ensino e o movimento grevista, ávido por melhores condições de trabalho, salarial e participativo na gestão da escola pública. Portanto, o trabalho se divide em duas partes: a primeira parte aborda o referencial teórico acerca da importância da escola em debater o momento histórico local e a Proposta Político-Pedagógica; a segunda faz um resumo sobre a greve de Guariba e as narrativas dos participantes e no jornal Folha de S. Paulo.

Palavras Chave: Escola; Comunidade, Gestão Participativa, Movimentos de classe.

SUMÁRIO

INTRODUÇÃO 08
2. O PAPEL DO GESTOR NA DEMOCRATIZAÇÃO DA GESTÃO ESCOLAR 10
3. O RECONHECIMENTO E A FORMAÇÃO DA IDENTIDADE 12
4. AS NARRATIVAS DE UM GRANDE ACONTECIMENTO ” O CASO DA GREVE DE GUARIBA” 16
4.1– O Encontro com as narrativas populares 20
4.2– A Repercussão dada pela cobertura jornalística do jornal Folha de São Paulo 23
5. CONSIDERAÇÕES FINAIS 26
REFERÊNCIAS 27

INTRODUÇÃO

O objetivo deste trabalho é lançar luz à questão escola-comunidade. Para tanto, é imprescindível, analisar a questão da Gestão Democrática através da participação da comunidade na construção do Projeto Político Pedagógico, no Conselho Escolar e na Associação de Pais e Mestres – APM.
De acordo com Oliveira (2010) “as mudanças esboçadas no campo educacional face à reestruturação produtiva e, sobretudo, as mudanças no mundo do trabalho impuseram à escola um novo desafio: a escola enquanto núcleo de gestão”. Nessa direção, ela passa a ser entendida como espaço de deliberação coletiva em diferentes áreas: financeira, pedagógica e administrativa.
Outra reflexão importante é entender como se estabelece a relação de forças entre o currículo e a construção da proposta pedagógica, preservando as características históricas da comunidade.
Através do cruzamento dessas questões, procurou-se considerar a importância da Gestão Democrática sobre a comunidade, resgatando os fatos históricos e, como consequência, o fortalecimento desse laço. Além disso, esse trabalho contempla um olhar especial sobre um acontecimento histórico especial “A Greve de Guariba”, reportada através de vários interlocutores da comunidade e a repercussão gerada pela imprensa escrita, especialmente pela importante contribuição da Folha de São Paulo (1984), a qual repercutiu a greve, suas reinvindicações e as consequências históricas para a comunidade.
Nesse sentido, buscou-se conciliar o levantamento bibliográfico em material escrito, destacando as obras “As Dimensões do projeto político-pedagógico: novos desafios para a escola” das autoras Ilma Passos, Alencastro Veiga e Marília Fonseca e “Gestão e Organização Escolar” de Naura Syria Carapeto Ferreira e alguns depoimentos de pessoas da comunidade com alguma expressão de liderança, como o professor de capoeira e presidente da Comunidade Negra José Nilson Santana, para ajudar a encontrar algumas pessoas que participaram do movimento em 1984.
Por fim, para abordar a greve de Guariba, foram consultados os filmes: “A classe que Sobra” de Peter Overbeck, “Califórnia à Brasileira” e A memória em Nossas Mãos” de Beto Novaes e Francisco Alves, além do artigo sobre a greve de guariba publicada pelo Jornal Folha de S. Paulo, entre os dias 16 e 20 de maio de 1984, especialmente, a reportagem da capa do dia 16 de maio de 1984.

1. O PAPEL DO GESTOR NA DEMOCRATIZAÇÃO DA GESTÃO ESCOLAR

Esse capítulo aborda a importância da gestão democrática dentro e fora da instituição escolar. Nesse sentido, foram analisadas as dimensões da gestão escolar e a comunidade, uma união imperativa, quando ocorre de fato a gestão democrática ou participativa.
Vamos considerar como eixos participativos a família, as instituições e as organizações constituídas pela comunidade. No primeiro eixo a escola e a família, as quais devem agir como parceiras.
Vale destacar que é necessário criar situações para a família participar da vida escolar de seus filhos. Nesse sentido as reuniões bimestrais de pais e mestres, palestras sobre temas abrangentes e locais, formação para a educação de seus filhos, campanhas de solidariedade e outros eventos além de confraternizar, criam situações importantes para a escola democrática.
Sobre a importância dessa participação, Menezes (2016) destaca que:

No início de cada bimestre ou trimestre, as crianças e seus responsáveis – mães, pais, irmãos, tias ou avós – devem ser informados sobre quais atividades serão realizadas em classe e em casa, de que recursos elas farão uso, que aprendizagem se espera em cada disciplina e que novas habilidades desenvolverão. Esse é o momento, ainda, para que todos apresentem demandas e sugestões. Ao promover esse encontro, os professores, em conjunto com a direção e a coordenação, precisam ter clareza das expectativas de aprendizagem e das atividades previstas na proposta curricular, realizadas num projeto pedagógico efetivo. Isso já é um bom começo (MENEZES, 2000, p. XX).

É importante destacar que as reuniões não devem ficar restritas à de pais e mestres uma cada bimestre, como foi apontado. A escola democrática oxigena a comunidade, através da participação em palestras e eventos culturais previstos na proposta pedagógica construída com a participação da comunidade.
No PCN fica evidente esta necessidade:

Esse projeto deve ser entendido como um processo que inclui a formulação de metas e meios, segundo a particularidade de cada escola, por meio da criação e da valorização de rotinas de trabalho pedagógico em grupo e da corresponsabilidade de todos os membros da comunidade escolar, para além do planejamento de início de ano ou dos períodos de “reciclagem”. ( p. 35 – introdução).

Ele ainda vai além quando inclui a formulação de metas e meios, a primeira a fim de que no final de cada processo se faça uma avaliação mais qualitativa de resultados quantitativos, a segunda imprime a ideia da metodologia uma vez que o conhecimento escolar é intencional, sistematizado e embasa-se no teórico.
Para tanto este eixo de participação da comunidade é um dos pilares para a consolidação da gestão democrática garantindo assim a não alienação da família nem da escola nos problemas que envolvem estas duas esferas e assegurando a formação e informação ao educando como ferramentas para atuar no próprio meio social e ir além dele.
Outro eixo são as instituições e organizações que funcionam na comunidade. São representações constantes as de cunho religioso, pois faz parte da rotina de muitos educandos. Embora vivemos em um país laico e a escola também seja laica este assunto é bastante delicado, mas essencial pois se debatem as ideias não apenas na esfera escolar. Neste sentido a gestão democrática deve considerar a religião como manifestação individual e não interferir nesta característica, e também deve considerar a igreja como parte constitutiva da comunidade em que está inserida assegurando assim a participação sem fins doutrinários nas decisões escolares que lhe cabem este direito, tais como festas tradicionais ou campanhas desde que o conselho escolar assim o permita. Outra manifestação cultural, a capoeira, por exemplo, deve ter seu lugar garantido quando for representativo dentro da comunidade, ou incentivado quando não.
As ONGs também devem ser parceiras em projetos e atuar nos momentos propícios pois quanto mais fortes forem estas interações mais a gestão se aproxima de uma educação libertadora e do exercício completo da cidadania.
Além desses, outro aspecto a ser abordado é a criação e o funcionamento dos colegiados, pois apenas a partir deles as decisões serão descentralizadas da esfera da gestão e poderão se firmarem como democráticas e, como consequência, se bem avaliadas pela equipe gestora, transformadoras da vida escolar do educando.
Pata tudo isso acontecer, é necessário que a gestão trabalhe amparada na lei e desta forma garanta a democratização da escola, ao fazer estas parcerias com elementos da comunidade, a escola se torna reflexo e aparelho desencadeador da mudança ajustando os hábitos culturais da comunidade, propondo soluções baseadas na compreensão para diversos assuntos dentro do meio social.

2. O RECONHECIMENTO E A FORMAÇÃO DA IDENTIDADE

Uma vez em prática a gestão democrática e posto em discussão a elaboração e discussão do Projeto Político-Pedagógico, a escola está pronta para discutir e reformular sua identidade a partir da identidade de seus sujeitos, a qual é construída por várias influências, como as do meio social, familiar e dentro da própria escola.
A partir do pressuposto da construção da identidade como uma ação individual e coletiva pode-se destacar que, no primeiro caso, o sujeito não aceita uma identidade apenas herdada, mas construída a partir de uma racionalização e compreensão de si mesmo e de seu papel no mundo. Esta é uma das prioridades da escola, dar abertura para a liberdade de expressão, a discussão de ideias e o enriquecimento pessoal a partir dos saberes ensinados e aprendidos no cotidiano escolar. No segundo caso, é evidente que a construção coletiva vai formar uma escola mais plural, destacando as diferenças e atando-as aos pontos comuns da comunidade e da própria escola. Desse modo, com a participação de todos os envolvidos no projeto, a escola ganha um novo rosto.
Nesta perspectiva ” ao serem originadas pelos próprios sujeitos e ao constituírem fonte de significado para eles, as identidades são construídas por meio de um processo de individuação que o sujeito empreende em suas relações com os outros indivíduos e as instituições ” (ALENCASTRO, 2012, p.220).
Neste ponto há também o questionamento das relações de poder uma vez que está construção confronta-se com o pensamento dominante. Portanto a construção não é passiva e deve gerar conflitos para a gestão escolar abordar e mediar de forma que não se formule apenas uma identidade de resistência ou seu contrário, uma de aceitação; ao contrário esta nova identidade adquire contornos de ação transformadora do indivíduo que ao internalizar as injustiças pelas quais passam, esses sujeitos tenham o pressuposto de pensar um mundo mais justo em que o conhecimento a o acesso aos mais básicos direitos humanos estejam em pauta e sejam cada vez mais garantidos e lançando assim uma sensação de pertencimento que é parte essencial da constituição de qualquer ser.
Sendo assim o indivíduo está apto para começar a exercer a cidadania pois ela envolve um processo de consciência pessoal e social e segundo Naura Syria Carapeto Ferreira (p 34 e 35).

A realização se faz por meio das lutas contra as discriminações, da abolição de barreiras segregativas entre indivíduos e contra as opressões e os tratamentos desiguais, isto é, pela extensão das mesmas condições de acesso às políticas públicas e pela participação de todos na tomada de decisão.

Toda esta ressignificação do indivíduo como ser social e ” ser-sendo ” é essencial, pois não apenas é um mecanismo eficiente de transformação, mas também aborda o discente como protagonista do processo de ensino-aprendizagem. È apenas com essa sensação de pertencimento que se age sobre o objeto de estudo não só como objeto estático, mas elemento desencadeador de uma nova forma de entender e conhecer.
Outro ponto a destacar é que a comunidade cria uma expectativa em relação a escola que serve a ela e é servida por ela também. Esta relação bilateral tem na comunidade sua fonte histórica de acontecimentos, exemplos de relações familiares e presença de instituições que moldam o caráter da população em geral.
A função da escola é considerar os aspectos construtivos da comunidade e procurar relacioná-lo com o saber aprendido a partir da base curricular nacional e apontar seus pontos de incongruências e interação de modo a preservar a história da comunidade e, ao mesmo tempo, abordá-la sob um outro ponto de vista a fim de resinificar a própria história do bairro e comunidade. Esta é uma forma muito eficiente de se discutir os valores até então absolutos e, muitas vezes, autoritários para que se vençam as fragilidades dos que estão distantes do poder, causando um empoderamento do indivíduo em sua rede social.
A identidade é um organismo vivo, por isso em constante mutação. A legitimidade desta flexibilidade é o que estabelece o ideal democrático de qualquer sociedade e deve ser tema constante no dia a dia da escola. O papel do gestor é equilibrar esta força e torná-la fator motivador para a aprendizagem dos educandos, dos discentes, da equipe gestora e de todo quadro técnico da escola.
Em sintonia com a comunidade o raio de alcance desta identidade se torna maior, criando indivíduos menos intolerantes e que compreendem as dificuldades de se encaixar em modelos sociais cada vez mais impostos por uma cultura global massificante. Ora é a partir do local que se chega ao universal e não o contrário ” se queres ser universal, conhece melhor a tua aldeia ” afirma Tolstói e na raiz deste pensamento também está a preservação do que vem diretamente da comunidade ou que se formou com ela ao longo do tema, sejam esses aspectos linguísticos, religiosos e culturais.
Por isso também a discussão do local na pauta escolar valoriza não apenas a cultura e os ensinamentos e a forma de ensinar, mas também combate a cultura imposta pela mídia e faz crescer a sensação de legitimidade e o caráter único que toda identidade tem.

3. AS HISTÓRIAS DA COMUNIDADE

“É rico de lições perceber que, no momento mesmo em que atingiam sua maturidade, as Ciências Humanas buscassem a alternativa interdisciplinar como solução para seus impasses. Desse enriquecimento, surgiram abordagens diversas e inovadoras, em antropohistória, geohistória, sociolingüística, história e geografia econômicas etc. ”

PCN – Ensino Médio Ciências Humanas p. 07

Depois de um período no limbo as Ciências Humanas ressurgiram timidamente ao término da ditadura para se reestabelecerem e, pós – LDB, comporem parte significativa da matriz curricular e se firmar como um pilar fundamental para o crescimento em vários aspectos, como os cognitivos, os afetivos, os culturais, os sociais etc.

A combinação destes componentes curriculares alinhados às Linguagens e Códigos compõe vasto repertório para a aprendizagem – esta possa abordar uma perspectiva mais ampla e global, sem perder de vista o microcosmo ou mesmo tornando-o “âncora” para as interpretações dos mais variados fenômenos, como os econômicos, nas relações de trabalho, no campo da ciência e tecnologia.
O fundamental é a Proposta Político-Pedagógica apertar o laço com as Ciências Humanas e tornar esta discussão fundamental, principalmente no que tange à história local, pode-se entender que a compreensão do ambiente social passa pelo conhecimento da história local.
Como escreve NORONHA (2007), “a história local dá ao aluno um referencial analítico para compreender a dinâmica social.”

A partir disto o gestor deve acompanhar com os professores ações que não sejam “estanques” nas disciplinas, mas que transitassem por todas as disciplinas e espaços escolares a ponto de transpor os muros da escola e estender-se para o bairro e toda a comunidade. Que a comunidade seja um espaço de conhecimento e, assim, abra possibilidade para transformação no indivíduo e na própria comunidade. E que estes laços sejam cada vez mais fortes, é um caminho que se abre para o desenvolvimento de outros conhecimentos e para que a visão de mundo do educando seja cada vez maior, ampla e ele possa compreender os fenômenos em nível mundial que também o afetam.
Muitas vezes histórias simples da comunidade, da memória coletiva do povo, da migração e tantas outras passam despercebido ou são desimportantes frente aos “grandes acontecimentos do mundo” que nos fisgam a todo instante nos noticiários de jornal ou internet. No entanto, é válido destacar que a construção do saber começa pela compreensão do “quem somos” e “onde vivemos”. A ambas as perguntas a resposta começa pelo conhecimento daquilo que nos cerca e para o ambiente sob o qual fomos moldados, “construídos” e criados. A própria história pessoal ou a da família pode ser o capítulo inicial desta busca. Esta recuperação da memória e construção da identidade compõe capítulo essencial para toda escola que se deseja democrática e transformadora, não refém de modelos impositivos ou alienadores.
Tudo isto para formar as histórias da comunidade. A partir deste momento impõe-se a necessidade do registro e adequado arquivamento do material, seja ele visual, sonoro, através da escrita; e da compilação de livros, artigos acadêmicos e outros que já existam mas precisam ser reunidos e disponibilizados para a comunidade escolar.
De acordo com Noronha (2007), “as publicações locais, escritas por moradores da cidade, devem ser utilizadas dentro do espaço escolar como forma de oportunizar o aprendizado da história local. Estas publicações, por serem de autoria de munícipes, trazem, além da história, a experiência do autor na sua cidade, e torna-se um objeto de investigação mais interessante para ao aluno”.
Apenas desta forma alcança-se a cidadania plena, com atores protagonistas no processo de construção da própria história. A escola que adota tal projeto tende a alcançar o sucesso porque ela pensa além de seus muros e começa a refletir e atuar dentro da própria realidade (ROCHA, 2001, p. 45).
Não basta falarmos em datas e personagens e sim explicitar o contexto do fato, como era a sociedade nesta época, como pensavam e o como isso interfere ou não na realidade vivenciada atualmente por eles. Mostrar que fazem parte dessa história e que podem e devem se posicionar ativamente nas transformações da sociedade. Para Rocha (2001), “É preciso que os professores tenham bem claro o papel da história no currículo escolar, para que ocorra uma renovação na prática educativa”.
Além desses benefícios o Ensino da história local esclarece dois conceitos difusos na sociedade, o primeiro afirma que se precisa valorizar a história do homem comum assim não se cai no risco de que seus membros não a considerem importante ou valorizada; o segundo defende que ao presenciar a diversidade, esta pesquisa resulta na ruptura de preconceitos e, por conseguinte, no respeito às diferenças.

4. AS NARRATIVAS DE UM GRANDE ACONTECIMENTO ” O CASO DA GREVE DE GUARIBA”

A greve de Guariba é um exemplo de fato histórico ignorado ou desconhecido por quase todas as camadas sociais e, como consequência, não é objeto de estudo nas escolas ou quaisquer outros meios, salvo exceções muito raras, como citação em livros de moradores da cidade, como o de Dinho Grieco cujo capítulo se inicia com um “é uma página negra na história de Guariba” ou no livro de cem anos, com direito a publicação da réplica do Acordo de Guariba, ou ainda no romance autobiográfico de Vambeto Gomes de Jesus – Realidade Nordestina – em que fica evidente a figura do migrante como participante da greve e do processo sócio histórico de formação de identidade da cidade naquela época.
Também há quatro documentários em curta-metragem Califórnia à brasileira e A memória em nossas mãos de Francisco Alves e Beto Novaes, O boia-fria de Carlos Caxassa e A classe que sobra de Peter Overbeck. Enfim neste caso há referências sólidas para o desenvolvimento do tema nas escolas, ainda assim, percebe-se o silêncio nas propostas pedagógicas do município ou mesmo em escolas estaduais, quase sempre amarradas a um currículo imposto pela secretaria e presas à gestão que ignora praticamente não apenas fatos históricos relevantes, mas também fatos mais “corriqueiros” tornando a escola um objeto estranho na sociedade e ficando distante das histórias dos alunos e da formação da sociedade.
Que esteja bem claro não haver necessidade de fatos históricos proporcionais ao da greve para se fazer este trabalho de aproximação entre a Proposta Político-Pedagógica e a comunidade, uma vez que a construção da identidade se faz nos acontecimentos ordinários do cotidiano quase se dá uma dimensão mais profunda a eles.
4.1– O Encontro com as narrativas populares

A facilidade com que se dá, ainda, de encontrar testemunhas, grevistas e ex-cortadores de cana é muito evidente. Basta comentar o assunto e quase todas as pessoas possuem alguma narrativa para ser contada, principalmente acerca do dia 15 de maio de 1984, dia em que ocorreu a paralisação e as consequentes ações dos boias-frias ao depredar dois prédios da cidade e a reação da polícia que, depois de dispersar a multidão com gás lacrimogêneo e tiros ( de fato, muitos trabalhadores ficaram feridos e uma testemunha foi morta nas escadarias do campo onde dias depois se realizariam as assembleias), subiu o morro e espancou várias pessoas.
Escolhi três dos vinte entrevistados para abordar por razões de relevância à greve e à proposta deste trabalho.
O primeiro personagem do qual se ouve o nome é José de Fátima, figura proeminente após a greve, pois seria o líder sindical e o escolhido pela CUT e pelo partido de esquerda da época como representante do movimento. Por trás desta lenda, 30 anos depois, há muito mistério e divergências. Quando entrevistei Zé em um primeiro momento, em 2012, ele vivia de pequenos serviços na cidade, longe da força sindical que o havia catapultado e sarcástico frente aos acontecimentos políticos nacionais, a saber, o caso do mensalão que derrubou José Dirceu e Antônio Palocci, desafetos dele desde a época em que Zé optou pelo malufismo em meados dos anos 80.
Ele me abriu as portas para investigar a história de várias pessoas, e ao lado do material digitalizado da Folha de S. Paulo, me serviu como referência para a interpretação dos fatos.
José de Fátima conta que a greve de Guariba teve toda essa manifestação contra a Sabesp e o mercado de Cláudio Amorim por razões políticas locais. Dois anos antes quando houve as eleições municipais, o grupo vencedor, representado por vereadores locais, prometiam não entregar a água do município para a Sabesp do governo Montoro, que havia começado um grande plano de saneamento básico no estado, no entanto, quando eles venceram as eleições, A Sabesp começou na cidade, com um dos vereadores acumulando função na diretoria da estação, revoltando os boias-frias. A este fato se somou um plano tarifário relacionado ao gasto de cada residência, que versava em linhas gerais que quem gastasse menos, pagaria menos. Os boias-frias, por que moravam em grupos ou com grandes famílias, e por estarem expostos a sujeiras e fuligens, gastavam muita água para higienização, banho e lavagem das roupas, deste modo o plano, em vez de ajudar, lançou a conta de água deles a valores astronômicos. Quanto a Cláudio Amorim, ele disse que além de uma peleja política – ele havia sido derrotado para prefeito por um torneiro – ele era um dos mais bem-sucedidos empresários no ramo e os boias-frias compravam no mercado dele. Todos os prédios ficavam a menos de cem metros de distância e próximos à entrada do estádio Domingos Baldam, palco das assembleias que chegariam ao acordo coletivo de trabalho.
Ele também conta dos dias que se seguiram e da formação do Sindicato do Trabalhador Rural de Guariba (STR) um dos desdobramentos que fortaleceram a greve. Ele foi presidente e durante os dois anos seguintes, uma das principais lutas dos sindicalistas era garantir que o acordo fosse cumprido. Foi uma luta muito grande ele dizia, pois além de muitos participantes configurarem numa lista negra que os impedia de trabalhar como assalariados, gerando um movimento nunca visto de criação de assentamentos na região de Ribeirão Preto, também houve uma luta muito grande para que os usineiros cumprissem com o Acordo.
Como o movimento se espalhou por todo o estado, com a abertura democrática e o fortalecimento e a legalização de grupos sindicais, José de Fátima se configuraria como grande líder na região e chegaria a ser vice-presidente regional da CUT regional de Ribeirão Preto, tendo acima dele apenas Antônio Palocci.
Outra narrativa interessante cabe ao senhor Geraldo Amorim, citado por José de Fátima, estive em sua casa para conversar, ele e sua esposa eram cortadores de cana como muitas outras famílias à época, ele se lembra das dificuldades de viver em apenas um cômodo com filhos e também dos dias anteriores quando acendeu a centelha da greve. Havia muita conversa no eito sobre a dificuldade que o novo regime de sete ruas apresentava aos trabalhadores, primeiro porque ficava muito difícil formar a partir de sete ruas, três montes de cana, havia perda de tempo e esforço extra de trabalho para carregar a cana até os montes. Vale observar que para o usineiro havia um plano de redução de gastos com combustíveis através do número menor de montes e também mais economia ao transportar menos terra.
Também o dia 15 de maio marca um episódio para eles, ele disse que sua casa foi invadida por policiais que pisoteavam o prato de comida das crianças, agrediam e deixavam marcas de violência e medo por onde passavam, em sua casa ou na casa de vizinhos. Várias pessoas foram agredidas e as imagens estão presentes na memória e nos filmes Califórnia à brasileira, que foi um dos primeiros documentários a veicular mais uma vez a truculência da polícia militar brasileira durante a greve.
Um dos registros interessantes se concedermos a memória marcante dele, é quando ele me conta que segurou o filho pequeno nos braços e correu quando um piquete formado por ele e amigos tiveram que se desvencilhar de uma saraivada de balas da polícia. Ele se lembra claramente de correr protegendo o filho e chegar em casa desesperado e atônito por conseguir escapar. A imagem que fica na memória deste senhor de 58 anos é muito rica, pois é quase uma atitude de herói e por ser parte do nosso imaginário coletivo – deixa a pergunta no ar sobre verdade e invenção, memória e imaginação, heroísmo e sorte.
Por fim existe a narrativa de Tio Bica, que hoje vive assentado. O grupo de pessoas de Guariba que iniciou a reforma em Córrego Rico em 1998 invadiu as terras improdutivas entre Guariba e Jaboticabal – até então do estado – depois de muito refletir e tiveram a ocupação reconhecida pelo governo do estado. Eles estão até hoje lutando para que seus ideais e suas vontades sejam ouvidas e cumpridas.
Tio Bica foi um dos líderes da greve de Guariba, participou dos piquetes e dos primeiros movimentos na segunda quinzena de maio de 84. Na época, disse que era um velocista e venceu na corrida a pancadaria dos policiais durante a repressão violenta. Partiu para a reforma pois seu nome circulava nas listas negras das usinas da região como agitador e rebelde. Além disso é o homem do campo por excelência, gosta dessa vida e acha que se muitos fizessem como ele desde aquela época, não sofreríamos tanto um período de dominação como esse que temos atualmente.
Enrolou um pequeno fumo e aos goles de um café preto tragava e contava grandes histórias de como a luta vale a pena embora os riscos sejam grandes. Também chegou a reforma em 98, tem dois filhos, um deles ainda sofre pelo passado revolucionário do pai e uma das indignações é o fechamento da usina são Carlos no final de 2012.
Ele conta sobre as dificuldades de mercado enfrentadas e continua à espera de uma verdadeira Reforma Agrária que não contemple apenas a agricultura familiar, mas que discuta o agronegócio e o coronelismo no país.
Estas pequenas narrativas mostram a importância de se investigar as histórias particulares dos moradores da comunidade escolar. É tarefa de sumo importância, pois, incluir num Projeto Político-Pedagógico as narrativas dos arredores escolares, não apenas como forma de recuperar a história, mas também como valorização dos cidadãos que compõem a comunidade.

4.2– A Repercussão dada pela cobertura jornalística do jornal Folha de São Paulo

Aqui se propõe fazer um pequeno resumo e comentário da abordagem de um jornal de grande circulação da época a fim de discutir como a imprensa narrou o fato e como os articulistas o interpretaram.
Os fatos do dia 15 de maio de 1984 tiveram uma repercussão tão forte na mídia televisiva da época e foram incrivelmente registrados por fotógrafos e jornalistas que em Guariba aportaram, que não é de se surpreender que Guariba estreava na capa de um jornal de grande circulação. Com o título de Conflito em Guariba e o lead tendencioso, “Boias-frias demolem prédios, incendeiam veículos e saqueiam supermercados” percebe-se a tônica do jornal em acusar os trabalhadores rurais de distúrbio e provocadores da violência que tiveram que enfrentar. Melhor seria um lead em que se afirmasse a truculência da polícia que no mesmo dia, quando abafara a depredação, atirou em cidadãos desarmados e depois subiu o morro para “acabar o serviço” e invadir as casas, espancar e intimidar trabalhadores que buscavam fugir das condições de miséria a que se submetiam.
Este tipo de notícia, quase sempre em débito com a verdade dos fatos e omissa, é prática recorrente no Brasil, embora vivia-se um período de transição para a abertura democrática, a mídia brasileira, de modo geral, quase sempre se curvou aos grandes poderes e evitou a polêmica e a perda, talvez, de patrocinadores, pois não se faz notícia para um país em que mais da metade da população era analfabeta e os leitores, classe média, de pequenos empresários ou profissionais liberais que leem estes jornais em sua grande maioria, é claro.
No entanto, em clima de diretas já e engajamento político por parte de intelectuais, além de um clima marxista que extravasa como poucas vezes os nichos universitários, vários colunistas saíram em defesa dos trabalhadores rurais e denunciaram o crime silencioso à integridade das pessoas que ocorriam. Ainda que fosse na página 2 ou no espaço dedicado à opinião, a qual muitas pessoas abdicam da leitura, o tema pegou fogo.
Galeno de Freitas num artigo do dia 18 de maio de 1984 destaca ” este país formado à sombra das sesmarias e crismado pelo latifúndio, em nível das classes dominantes, acostumou-se a auto explicar a partir de preceitos que inculpam sempre os de baixo. O nobre, o senhor e o dono do latifúndio nunca tem culpa pelas disfunções dos sistemas econômicos”. Por fim ele comenta a necessidade de pôr em discussão o Estatuto da terra de 1967, que entre outras definições, “objetivava a criação de uma classe média rural – pequenos e médios proprietários – que seria a base política do regime futuro”
A importância de não apenas se informar, mas debater as opiniões dos jornais se faz evidente em qualquer contexto, ela amplia a visão do projeto escolar, traz à tona novas formas de interpretação de um mesmo fato e aprofunda o conhecimento acerca do fato noticiado. Se está em consonância com a realidade local escolar, e o caso de Guariba é extremamente rico neste ponto, só há ganhos.
Ainda no jornal do dia 18 de maio de 1984 em uma seção especial intitulada A revolta dos boias-frias (sic), noticia-se o resultado da assembleia de Guariba, outro fato marcante, e do qual saiu o primeiro Acordo Coletivo de Trabalho entre usineiros e trabalhadores rurais, conhecido como Acordo de Guariba (ver anexo 1) que se estendeu para todo o estado e país.
Na capa do dia 19 de maio de 1984 uma manchete no canto esquerdo do jornal anunciava que o Acordo valeria para o estado. O anúncio saíra da Cooperativa dos cortadores de cana de Sertãozinho, uma espécie de representante patronal, e do qual participaram os secretários do Governo e do Trabalho, Roberto Gusmão e Almir Pazzianotto, respectivamente. Porém no editorial do mesmo dia, o jornal já alertava que ” a ausência de sindicatos bem organizados” põe a greve em Guariba em situação de temeridade em relação ao futuro das conquistas.
Por fim, outro assunto destacado pelos colunistas foi a violência – perpetrada pelos policiais – e outras formas de ela se manifestar “não-violência é não à violência(…)a proposta ética de resistir às multiformes de opressão econômica, social e ideológica que se resumem na conhecida palavra ´ injustiça`” foi uma afirmação de Alfredo Bosi na seção Tendências/Debates do jornal do dia 19 de maio.
Enfim, toda a cobertura de um fato histórico ou de fatos cotidianos da comunidade é uma forma de apresentar o assunto de forma viva, atraente e colocar os educando e educadores como sujeitos da ação, prontos para interpretar os fatos e recriar sua própria realidade a partir da compreensão do que somos. É imprescindível adicionar esse conceito à Proposta Político-Pedagógica, de modo que ela se torne mais rica, um instrumento de reflexão e por que não, de política ou de tomada de consciência de que somo sujeitos de nossa própria história.

5. CONSIDERAÇÕES FINAIS

A pauta do cotidiano, o olhar para a comunidade e a percepção das injustiças nos leva sempre a uma reflexão mais profunda. Ainda que possa ser doloroso, a viagem de descoberta põe em evidência aquilo que somos e acende as centelhas da transformação. Uma escola não pode encarar o currículo como algo distante de sua realidade. Ao contrário, ela precisa a todo momento colocá-lo em evidência e despertar os educando e educadores em busca da história perdida e, sobretudo, daquela que acontece todos os dias de modo que possamos levá-la a nosso favor através da atuação sobre ela.
Também a gestão participativa é uma das dimensões mais importantes na gestão escolar, ela é uma forma de “desinstitucionalizar” a educação, tornar a escola mais independente de, não raro, propostas de trabalho descontextualizadas e geridas por governos, muitas vezes, despreocupados com a formação cidadã e com reconhecimento da história como fator precípuo da formação do indivíduo.
Essa combinação, como muitos educadores citados apontam, é salutar e já foi considerada uma conquista de, infelizmente, poucas escolas de nosso país.

REFERÊNCIAS

RIOS, T. A Identidade da escola. Disponível em: http://gestaoescolar.abril.com.br/comunidade/identidade-escola-autonomia-etica-valores-gestao-participativa-democratica-trabalho-equipe-escolar-515765.shtml. Acessado em 15 de mai de 2016.

MENEZES, L.C. A escola e família como parceiras. Disponível em: http://revistaescola.abril.com.br/formacao/escola-familia-como-parceiras-423328.shtml. Acessado em 15 de mai de 2016.

VEIGA, I.P.A.; FONSECA, M. As dimensões do projeto político-pedagógico: novos desafios para a escola. São Paulo: Papirus, 2002.

FERREIRA, N.S.C. Gestão e organização escolar. Revista Retratos da Escola, Brasília, v. 3, n. 4, p. 273-275, jan./jun. 2009.

Acervo do Jornal Folha de S. Paulo (1984). Disponível em: http://acervo.folha.com.br/resultados?q=greve++Guariba&Site. Acessado em 15 de mai de 2016.

Nick Cave e o início do fim da democracia no Brasil

Com um show vibrante de um dos músicos mais admirados do mundo e com um inequívoco #elenão o Brasil se despede do breve período democrático. Parece contraditório, mas aquele público do Espaço das Américas, representa apenas parte do país. Jovens adultos e adultos saudáveis, bem vestidos e da alta cultura são a minoria que o candidato do PSL e sua base não alcançam e pretendem combater. Talvez seja uma vingança, talvez apenas ressentimento, o fato é que naquele espaço em que o Nick Cave e os bad seeds fizeram um espetáculo musical excepcional, não cabe toda a margem de brasileiros.

Na fila da entrada, ouvindo as conversas de grupos próximos parecia estar em outro país. Discursos de tolerância, outro ridicularizando a campanha difamatória de Bolsonaro sobre os projetos de educação de Haddad quando ministro, revelam um grau de intelectualidade não visto em qualquer outro cerco. No entanto, quando se volta para as áreas populares os discursos que mais se ouvem é de brasileiros ressentidos, sem estudo e conhecimento, galvanizado pelo ódio, sedimentado pelas redes sociais e pelas fake News, que sem condições de interpretar o que se diz, traduz no apoio às ideias mais retrógradas e fascistas.

Na guerra pela informação rápida e instantânea, ganha não aquele que tem o compromisso ético e moral, mas aquele que quer a vitória a qualquer preço, que reinventa as regras do jogo, ou melhor, subverte-as a seu favor. A tecnologia chegou a quase todos os brasileiros, a educação de qualidade não. Se o período democrático brasileiro apontou uma falha gravíssima para consolidar seus ideais, esta falha foi na área da educação. Embora tenha havido avanços na universalidade da educação básica, os índices baixíssimos nas avaliações institucionais mais a formação precária de professores, muitos apoiando um candidato que endossa a tortura e a violência como cura dos males, são sinais do abismo a que chegamos. O Brasil tem uma das taxas mais baixas de leitura do mundo ocidental, adultos quase não leem nem livros nem jornais, jovens vivem pendurados em vídeos de youtubers que se tornam sucessos instantâneos sem o filtro da ética e da qualidade, e eles influenciam demais as pessoas.

Quando se coloca um jovem na escola em frente a um computador, ele não sabe fazer outra coisa a não ser acessar site de jogos e redes sociais, como o facebook e o Instagram. Isto ocorre porque enquanto a escola priorizou vencer conteúdos, passar informação de modo tradicional, se esqueceu de que a informação está em toda a parte ao alcance das mãos, e por isso, deveria centrar seu método em ensinar a interpretar os fatos, reconhecer pontos de vista, praticar o senso crítico, não achar que problemas complexos sociais sejam resolvidos com sandices e propostas vazias ou autoritárias. Não deixar que, em decorrência disso, a imprensa independente morra e se crie em seu lugar redes de informação monopolizadas, canais alternativos comandados por pessoas que tentam persuadir de forma suja a opinião pública.

A democracia por esse motivo foi entregue ao populismo ou ao messianismo, a moderação perdeu a batalha ao descomedimento, este inimigo íntimo dos democratas, e o show do Nick e sua manifestação explícita contrária ao autoritarismo vai ficar reservado àquele seleto grupo de homens e mulheres educadas de São Paulo. Eles cavaram esse fosso entre a pobreza e riqueza, entre o conhecimento e a falta dele, e essa arrogância, ainda que despropositada, será paga com o ressentimento das urnas, endossado por artistas pífios e marginalizados pela alta cultura, como Zezé di Camargo e Regina Duarte.

É uma pena que a educação no Brasil não tenha chegado a todos, assistir ao show do músico australiano e sua banda formidável foi um dos maiores prazeres que um país democrático poderia conferir a mim e deveria conferir a tantas outras pessoas este mesmo prazer ou outros similares a todos os gostos.

Na saída, extasiado, fui comer um lanche dentre os inúmeros food trucks que ficam na avenida adjacente ao espaço. Ao meu lado, um casal argentino feliz pela oportunidade única de assistir ao espetáculo vê no celular o vídeo em que a plateia entoa o #elenão e come um hot dog, atrás da gente, beirando o muro da UNINOVE em meio ao lixo jogado na calçada, um morador de rua tenta dormir com um pano branco enrolado na cabeça, ele não tinha colchão nem travesseriro, à minha frente se levanta o Memorial da América Latina; por onde se olha a realidade salta aos olhos e o país pulsa sem saber para onde se vai ao certo. Até agora o que se escolhe é uma estrada escura e vazia de sentimentos. ( foto de fabrício Vianna)

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