O benefício da dúvida numa época de certezas inabaláveis

O nome de Bolsonaro está em toda parte. É inacreditável encontrar amigos, colegas de trabalho, homens e mulheres, sequestrados pelo “mito”, confirmando, infelizmente, diante de nossos olhos, as pesquisas eleitorais. Muitos revelam não saber nada de política, outros uma simpatia por alguns pilares do fascismo sem o menor pudor.
Fico intrigado e me pergunto o que faltou na trajetória de Educação de um professor para ele flertar com ideais bolsonaristas. Propagar bobagens. Não se basear em nada a não ser uma convicção que surge sabe-se lá de onde, muito provavelmente das profundezas da consciência, local onde já não há mais esperança. Tudo de que não precisamos é nos distanciar um pouco mais da civilização do século XXI no que ela tem de melhor: seu ativismo em defesa do planeta, da paz, do bom uso dos nossos recursos, de uma melhor distribuição da riqueza, de um diálogo constante entre as nações: o sonho a que todos os grandes aspiraram: Martin Luther King, Nelson Mandela e Gandhi para citar só alguns – e nos afastar de repente dos raios democráticos do dia, para dar espaço ao crepúsculo melancólico e estranho que instantaneamente se transforma num fim de tarde frio e nebuloso.
Não sei que passe de mágica Bolsonaro dará para melhorar o Brasil quando descobrir que o exército que o elegeu está afundado de alguma forma neste infinito mar de corrupção. Pois se o capitão da reserva tem a reputação ilibada (para quem acha que jornalismo não existe neste país) há uma chuva de acusações sobre ele, inclusive de cunho moral e racista, por esse lado, Bolsonaro aparenta ter uma vantagem: ele é o candidato dos adeptos da corrupção nossa de cada dia e de racistas velados de nossa sociedade. Talvez por isso tanta torcida, tanta dancinha, tanta pose de “eu sou um homem de bem”. Afinal, parte da sociedade brasileira mente muito bem para ela mesma. Esconde bem demais a sujeira debaixo do tapete. E joga no lixo qualquer versão da história que seja diferente da que ela (des)conhece.
Mas deve existir uma maneira, se não de convencer este povo, pelo menos, pô-los para pensar: plantar a semente da dúvida e afastar o ovo da serpente. Pois estamos a ponto de caminhar para um desses dois caminhos: ou despertamos a riqueza da dúvida, incitamos eles – os menos convictos, meio perdidos no vendaval de fakes – a lerem livros de economia: o Valsa brasileira da Laura Carvalho, ou de história: Sobre a tirania, 20 lições do século XX para o presente de Thimoty Snyder, ou ainda de literatura: a tetralogia de Elena Ferrante que resgata quatro décadas da história napolitana – do contrário o ovo da serpente vai chocar e o que virá a partir daí é um mal irrefreável.
Em dado momento no quarto livro da série A amiga genial de Ferrante, a narradora Elena Greco explica assim o fim e a consequência social e política da operação Mãos Limpas (na qual a Lava Jato se inspirou)

“Eram anos complicados. A ordem do mundo em que tínhamos crescido estava se dissolvendo. As velhas competências devidas ao longo estudo e à ciência do bom caminho político pareciam de repente um modo insensato de empregar o tempo. Anarquista, marxista, gramsciano, comunista, leninista, trotskista, maoísta, proletarista estavam se tornando etiquetas retrógradas ou pior, uma marca de ferocidade. A exploração do homem pelo homem e a lógica da otimização dos lucros, que antes eram consideradas uma abominação, agora tinham voltado a ser em toda parte os pilares da liberdade e da democracia.” (p.425)
(…)
Esta é uma das tarefas mais difíceis da vida: demover alguém de seus “princípios” (ainda que sob argumentos de grandes autores) ou convencer alguém a mudar de opinião (quem assistiu a 12 homens e uma sentença sabe bem do que digo); mas se nada disso for possível, ao menos deixe clara sua posição, na medida que o melhor é não se render nem mentir para si mesmo afirmando: vou anular meu voto.
O homem é movido pela esperança. Mas também é chamado à ação. Justamente quando momentos como esses se aproximam, é hora da persuasão, de desmascarar os fakes, de orientar os perdidos a ter empatia pelo próximo e menos ódio, fazê-los aceitar cada um da forma que se é, isto é, fazer valer toda caminhada que nossos ancestrais engendraram para nos trazer até aqui. Existe uma frase que cola bem aos adoradores do mito que está estampada no rosto assustado de cada um deles: me ame quando eu menos mereço, pois é quando eu mais preciso. Ou outra mais incisiva que vale para todos nós de Ortega y Gasset, importante filósofo espanhol do século xx, “o vigor intelectual de uma pessoa é medido por sua capacidade de suportar dúvidas.”

Quando tudo parece ser uma imensa confusão, ler pode tentar ordenar o caos.

Anúncios

Paisagem com leitor

Uma paisagem só de livros não tem graça. Ela precisa de leitores e outros leitores para que assim a manhã seja tecida: luz-balão. Caminhava pela feira do livro de Ribeirão e ouvia nos fones de ouvido Beirut – culpa do Palermo Shooting do Win Wenders – pela música e pela mania de fotografar que se concretizava ali pelo espaço da praça do leitor. Há muito tempo namorei nas vitrines de lojas e na tela do celular uma câmera profissional e o tiro certeiro foi dado por um dos filmes mais malhados do alemão. Que bom que há tempo desconsidero muita crítica e sigo meu próprio caminho. Caminho este só possível por meio da leitura.

Susto maior foi ter conseguido algumas fotos legais, o ambiente estava propício, a praça em 2017, com a fonte, a concepção não apenas decorativa mas de reaproveitamento de objetos e espaços, como pneus, paletes, geladeiras e contêineres, davam o tom da paisagem. Ainda o domingo ensolarado e a presença de um público variado levaram tudo a uma atmosfera extremamente agradável.

Depois de assistir a uma fala espetacular de Chico César na Tenda Sesc, que falou sobre Estado de Poesia, seu mais recente disco, que entre as pérolas estão Atravessa-me e Reis do agronegócio, esta última estabelece relação surpreendentemente irônica com o patrocínio do evento em si, mas delineia perfeitamente o proverbial dístico “o homem e suas contradições”. Tivesse Chico mais presente nas escolas e nas periferias a discussão certamente seria mais profunda.

Um momento marcante foi quando a conversa sucumbiu ao flerte autoritário de nosso tempo, ele disse “o autoritarismo é a ausência de poesia”. Depois de muitos cliques, Chico deve ter notado a minha pouca discrição, saí dali satisfeito. Encontrei um coletivo de atores encenando trechos de textos literários, vestidos à romanesca e com livros às mãos, eram performáticos, usavam gestos largos e modulavam a voz como encantadores.

Mas a foto que mais me chamou a atenção foi uma que fiz sem querer, enquanto fotografava ambientes com livros em vista de registro e soma de ideias para uma possível feira na cidade em que vivo, eis que surge uma menina na minha tela, depois da foto batida, durou segundo, pois não a vi quando cliquei, vi apenas um vulto e ela brotou na tela perfeita. Deu vida a tudo.

Comecei a pensar, como a paisagem sem leitor perde tanto a graça. O que dá vida aos livros são os leitores, de que valem bibliotecas borgianas, infinitas se não existe a aventura do leitor. O segredo do sucesso do Brasil passa pela sedução de leitores, como se fossem flautistas encantadores, as escolas precisam de professores e educadores que executem esta tarefa.

Durante três anos e um bimestre fiz este trabalho com muito zelo numa escola estadual de ensino médio e pude perceber como a relação leitor-livro foi crescendo e as personagens viraram figuras de proa em minhas aulas por meio de grandes autores que dispunha o acervo da escola, ali eles conheceram o drama pessoal e familiar de Marcelo Rubens Paiva em Feliz ano velho e se encantavam com sua pungência de viver narrada tão belamente, a história do pai assassinado durante a ditadura militar foi outro ponto de destaque dessas aulas – alguns alunos tinham pela primeira vez conhecido por meio deste livro a noção de um governo autoritário e compartilhavam do sentimento da perda de um pai.

Mas a lista seguiu com Gabriel Garcia Marques e Relato de um náufrago e O velho e o mar de Hemingway, os quais foram um dos primeiros experimentos certeiros – geralmente esta era a primeira caixa do ano. Em seguida vinham os contos de Laços de família de Clarice Lispector e Antes do baile verde de Lygia Fagundes Telles e tantos outros, com um repertório bastante vasto do professor e do acervo pudemos variar, teve Herman Hesse, Sidarta e Demian, Admirável Mundo Novo de Aldous Huxley e Menino de Engenho do José Lins. Esperava chegar em breve a Machado e até usei alguns, como o belíssimo conto Pai contra mãe e cheguei a Guimarães Rosa, com o Primeiras Estórias e funcionou.

Em suma, recobro que a escola é um campo aberto a ser explorado, os alunos mais soltos, não apenas presos a aulas absurdamente teóricas, pode ser uma fórmula para combater a ojeriza ou o desprezo à leitura tão evidentes por onde quer que se anda.

Esta falta abre caminho aos pulhas, aos verdugos que assassinam o futuro do país. Deixa na mão de gente sem caráter, gananciosa, incompetente e maldosa, um país inteiro, que só precisa ler mais, levar a sério a escola e os livros para que deixemos de ser apenas uma paisagem no mapa a ser explorada. Para que sejamos protagonistas e comecemos por explorar nossos próprios potenciais.

“Antes as pessoas brigavam contra a ditadura. Agora brigam entre si.” Zuenir Ventura e Florestan Fernandes Jr debatem o Brasil em Ribeirão Preto

O teatro Pedro II esteve quase cheio para receber dois grandes nomes do jornalismo brasileiro em um momento crucial para o país e para o jornalismo. Florestan Fernandes Jr. começou com uma homenagem ao citar o amigo Alberto Dines (com quem realizou o projeto Histórias do poder) que morrera durante a tarde “É preciso reformular e pensar o poder no Brasil, ele dizia”. Depois logo quando enveredou pela política, disse “a política invadiu minha casa nos anos 60 a partir do golpe militar”. Ele também relembrou Antonio Candido, o melhor amigo de seu pai, o sociólogo Florestan Fernandes.

Ao comentar Histórias do poder pôde afirmar que durante anos de pesquisa conseguiu chegar, ao menos, a duas constatações acerca da história política do Brasil: sempre houve uma presença forte dos militares e as oligarquias mantêm o controle do país.

Assim que chegou de fato ao tema da mesa “1968 – o ano que não terminou”, resumiu “aquele foi um momento de ebulição. Contaminou o país e a utopia moveu a minha geração”. Ele relembrou o AI – 5, o fechamento do Congresso e, ao mesmo tempo, surgiu a lembrança do Festival de Música quando Sabiá venceu e foi vaiado, “os jovens queriam a música do Vandré”. Concluiu este primeiro momento dizendo que 1968 “foi um sonho interrompido “e que tem semelhanças com 2013.

Zuenir começou brincando “Eu vou terminar antes deste livro”. Depois continuou “1968 não é um ano, é um personagem que não quer sair de cena. Houve talvez outros anos mais importantes, mas não tão lembrado, festejado…”

Quem conhece a obra sabe que Zuenir tem várias ressalvas com relação a idealização daquele momento. Para isso o ilustra logo de início ao citar a epígrafe do livro em que cita Mário de Andrade – que se referia a geração dele e dos modernistas contemporâneos, Manuel Bandeira, Oswald e outros personagens brilhantes da semana de 22 – da seguinte forma “Não devemos servir de exemplo a ninguém. Mas podemos servir de lição.”
Ao mesmo tempo que havia a onipotência e a confusão das coisas e regras, a “geração que não tinha limite” deixou ao menos quatro legados positivos: os movimentos negro, de gênero, ambiental e feminista. Deste último Zuenir ressaltou as várias conquistas.

50 anos depois quando lhe perguntam como viver um novo 68, ele cita Caetano “Pra ser igual tem que ser diferente” E finaliza esta primeira parte aludindo a 2103 “Foi empolgante, mas aquele movimento se perdeu com a participação dos vândalos. Não se derruba o capitalismo quebrando caixa de banco e vidraça.”

Quando a conversa voltou a 68 e ao Regime Militar com Florestan Fernandes Jr, ele referiu-se ao período de Geisel da seguinte maneira “Com ele a truculência aumentou. Ele tinha o controle da repressão. Durante anos de ditadura mais de 30 bombas foram detonadas em bancas. Uma na OAB e outra no rio Centro”.

Produtor do Voz Ativa, programa de cobertura jornalística e debate, destacou alguns dados alarmantes veiculados sobre Fake News: “A mentira tem 70% de chance de ser espalhada. Atinge das redes sociais ao Whats app da família” e Zuenir completou “Fake news é o problema maior das eleições deste ano. Fake News não é notícia, é fake!” e finalizou dizendo que vivemos um período de excesso “informação demais é ruído”.

Florestan Fernandes e Zuenir discordaram sobre a liberdade da imprensa e a democracia. Quando Zuenir afirmou que não se pode tirar o crédito da cobertura jornalística “a imprensa é fundamental para a democracia”, Florestan tomou a palavra e escandiu “A grande imprensa faz política o tempo todo. O papel da imprensa é muito complicado no Brasil. Destrói as pessoas sem provas…”
Enfim o debate esquentou e Zuenir destacou “vivemos uma democracia incompleta, cheia de imperfeições. Sou como Churchill. Democracia tem que ser aperfeiçoada”. Elogiou” Graças a Lula e FHC a transição para a democracia foi possível”

Zuenir Ventura tentou ponderar todo tempo “Me incomoda a polarização e a intolerância mútua”. E afirmou “Antes as pessoas brigavam contra a ditadura. Agora brigam entre si.”

Ao aparecer o nome de Bolsonaro numa pergunta da plateia, houve uma longa e uníssona vaia. Zuenir disse nem citar o nome dele “para não apoiar este tipo de coisa”. Florestan Fernandes Jr. Citou o texto do pai em O fascismo na América Latina “Hitler e Mussolini perderam a guerra, mas o fascismo continua”.

O debate se encerrou com o educadíssimo Zuenir Ventura “Vamos manter este clima aqui, de tolerância e respeito, principalmente por quem pensa diferente”. “É muito fácil respeitar quem pensa com a gente. E o contrário?”

Ribeirão Preto lança debate que chacoalha o Brasil

Fernanda Takai – música e literatura

Com dois passos bem decididos, a compositora, autora de livros infantis e líder da banda Pato Fu, subia para o palco do Sesc montado num tablado de madeira leve e clara para conversar sobre literatura, música e outras histórias da vida.

Embora de ascendência japonesa ela confessou tardiamente atentar-se a raiz de seus avós. Despertou-lhe a curiosidade quando leu Corações Sujos de Fernando Morais, livro que relata “a revolta da colônia japonesa”.

Falou muito sobre música entrelaçada à literatura. Em dado momento “a música nos traz emoção, nos faz lembrar de nossa história” em outro “Uso a música como forma de me concentrar. “Já escrevi esperando em aeroporto, ouvindo música no fone”.

“Quando as coisas ficam muito tempo na minha cabeça, ou viram música, ou alguma outra coisa”. Sobre a inspiração para o livro O cabelo da menina, ela conta que partiu de uma situação banal, a filha depois de uma noite de festa junina, acordou com o cabelo marcado pelas xuxinhas da personagem caipira e quis ir pra escola assim. Ela não deixou, mas a ideia circulou pela sua cabeça e daí nasceu o livro. Um sucesso da coleção Itaú. “O artista escreve a partir de suas experiências”, resume. “Gosto de fotografia, anoto o que me chama a atenção”. Suas influências na carreira de cronista (Não deixem de ler o texto Procura-se uma professora de violão) vão de Fernando Sabino a Rubem Braga, e ainda, “Drummond cronista além de poeta”. A carreira de Fernanda é perpassada pela literatura, ela cita a música A hora da estrela inspirada no livro homônimo de Clarice Lispector que virou trilha do filme Olhando para as estrelas,

No começo disse “Dê livro de presente para as crianças” e continuou “Devemos dar mais credibilidade à escola e à família”. No final, quando o evento esteve aberto a perguntas, a respeito do ódio nos dias atuais disseminado tão selvagemente pelas redes, ela respondeu o ódio é “a falta de jeito de entender e olhar “, depois comentou que se precisa aprender a olhar para os outros, com menos julgamentos, esquecendo um pouco de nós mesmos.

Fernanda Takai ainda respondeu a mais algumas perguntas e encerrou: posou para mais algumas fotos e autografou livros. Mais à noite ela iria apresentar com o Pato Fu o show Música de brinquedo 2.

Eu dei uma passada na feira em frente ao Pedro II, as atividades do Sesc estão mais uma vez muito bem boladas, um lance ecológico, bonito de se ver. Parece que a praça do leitor assim como as atrações da Feira deu uma minguada. Porém o trabalho, principalmente o Projeto Combinando palavras são as sementes que germinaram da história de 18 anos. Para o leitor que ainda não exige muito, a maior parte dos stands estão cheios de literatura infantil desenterrada e pechinchas a módicos dez reais que vão desde O pequeno príncipe – em quase todas as editoras – até o livro sobre Sérgio Moro. Os clássicos desapareceram mais um pouco. Também a parceria com as livrarias e os autores que participam das mesas devia ser mais evidente. Parece que ainda existe um longo caminho a percorrer. De um lado e de outro. O bom é que tem um monte de gente envolvida.

Fernanda e o enigma do olhar…mais pousado sobre a feira se vê uma instalação: homens de papelão com mensagem nas costas em meio a bancos de paletes reaproveitados reforçam a ideia de cidadania difundida pela Feira deste ano.

“O Brasil é um país em permanente procura”, Zuenir Ventura

Ficar perto de Zuenir é sentir-se um nanico, não apenas em proporções físicas (ele é um gigante de quase dois metros de altura), mas também em matéria jornalística. Passa pelo trabalho do escritor muitas das maiores reportagens que aconteceram no Brasil. Autor de livros como Cidade Partida em que expôs as feridas do Rio de Janeiro, Crime e Castigo em que contou a história do assassinato de Chico Mendes e 1968 – o ano que não terminou, a lista é longa.

Aos 86 anos ele continua seu trabalho como cronista do Globo, na Feira do livro de Ribeirão Preto no ano passado fez várias revelações à plateia entusiasmada em conhecer de perto mais um ícone do jornalismo no Brasil. Ele pode ser considerado um dos fundadores da Feira, foi ele quem sugeriu a Galeno Amorim que a Feira acontecesse na Praça Sete, uma ideia que chega este ano à maioridade – serão 18 anos de Feira do livro.

Zuenir foi companheiro de redação de Herzog – jornalista assassinado pela ditadura militar brasileira (1964 -1985) e quando questionado acerca da definição de jornalismo afirmou “O jornalista é a testemunha de seu tempo” Ele precisa aprender a “olhar e contar”.

Sobre um de seus primeiros trabalhos que viraram livro está 1968 – o ano que não terminou. Ele disse que “68 foi um processo que fermentou”. Na época morava em Paris e ouvia dizer que lá “não havia nada”, quando “estourou maio de 68”. O livro lançado em 1988 faz uma radiografia no período do Brasil e é um marco de sofisticação e acuidade jornalística.

Neste mesmo ano recebeu a proposta de cobrir os eventos – um mês – após o assassinato de Chico Mendes e hesitou, pois, segundo ele “Não gosto de floresta, tenho medo de bicho, não sei nada da Amazônia”. Mas como todo bom jornalista foi até lá e nos brindou com outro trabalho importantíssimo para a literatura jornalística brasileira com o livro Chico Mendes – Crime e Castigo, em que narra não apenas os acontecimentos que levaram à morte de “uma figura planetária”, como também acompanha o julgamento dos assassinos de “um mártir da luta ambiental e um dos heróis da nossa história”. Zuenir conta que todo esse processo foi muito revelador além de proporcionar “uma das experiências mais importantes da minha vida – jornalisticamente e existencialmente”.

No começo dos anos 90 veio a proposta de escrever sobre o Rio e desta experiência em que viveu por algum tempo na favela do Vigário Geral nasceu o clássico Cidade Partida, para ele “a melhor maneira de amar uma cidade é revelar suas mazelas”. Incorporou a vivência na favela porque jornalismo não se faz apenas “com dados e estudos científicos” e transformou esse trabalho na “crônica de uma cidade partida” ideia que ele afirmou partir de Luiz Schwarcz. Descobriu que assim como os franceses “são muito cartesianos e a França é um país pós-moderno” o Brasil “é o país do contraste”.

Quando confrontado sobre o ato de escrever, postulou “é muito chato”, a procura da palavra é um exercício, ele, por fim, citou Loyola Brandão “não gosto de escrever, gosto de ter escrito”. Depois acrescentou que “tudo na minha vida acontecia por acaso”. Sou jornalista “por acaso”. Zuenir foi professor por muitos anos e revelou “a parte minha mais valorosa é o magistério”.

Sobre o Brasil de hoje disse “não podemos transformar fatos ruins em realidade eterna” e continuou que “o Brasil é um país em permanente procura”. Citou Betinho ao dizer que “tem que haver uma invasão de cidadania”. Construir “escolas, hospitais, oferecer saneamento básico à população”, pois o Rio “não precisa de polícia”, e adiantou que, na verdade, “tudo passa pela educação – que é uma questão econômica”.

Chegou a dizer também no final que “a gente tá vivendo o fim de um mundo que tem que acabar” e devemos por isso estar preparados para fazer algo melhor. Hoje “cada tribo é uma geração”, temos que aproveitar o que existe de cada uma e transformar o Brasil num país melhor para se viver.

Zuenir na Feira do Livro – um gigante do jornalismo brasileiro

O amigo alemão

“O mal da pobreza não está tanto no sofrimento que impõe ao homem, mas no apodrecimento físico e espiritual que provoca.” (George Orwell)

O pesquisador Jan Brunner da Universidade de Berlim é do departamento de Ciências Sociais. Ele participa de um projeto chamado GLOCON – Global Change – Local Conflicts? https://www.land-conflicts.fu-berlin.de/en/index.html (Mudanças globais – conflitos locais) – em que analisa os efeitos da globalização na América Latina e África Subsaariana.

A Jan coube o estudo da indústria da cana de açúcar no Brasil. Ele viajou pelo interior de São Paulo e Recife. Aqui pela Região de Ribeirão Preto, esteve em São Carlos na Universidade Federal falando com o famigerado ( Chiquinho ) professor Francisco Alves – autoridade máxima no assunto – em Pontal e em Guariba, onde estive ciceroneando – o por alguns pontos da cidade a fim de que pudesse aprofundar a pesquisa sobre o movimento sindical, a greve de Guariba e as condições atuais do trabalhador rural.

Conheci-o algum tempo antes com Vambeto Gomes de Jesus, apresentei-lhe o autor de Realidade Nordestina e lhe entreguei cópia do documentário Trajetórias sobre os 30 anos da Greve de Guariba – material que possibilitou este encontro e que deve ter servido de fonte para seu trabalho.

Tempos depois quando esteve em Guariba, levei-o à famosa Feira do domingo e encontramos o Luquinha Atleta e outros, com quem pudemos conversar comendo um pastel. Lembro que quase todas as pessoas com quem ele falava o 7 x1 quebrava o gelo, um que outro arriscava sobre o papel proeminente da Alemanha na economia e eu, a certo momento, brinquei “a Merkel é a Manda-Chuva de lá” tese à que Jan torceu levemente o nariz. Embora ele em abril do ano passado já me antecipasse a perda de relevância da premiê e do partido Democrata-cristão, o pesquisador decerto não esperava que os socialistas mais uma vez tivessem que se engalfinhar a Merkel para que juntos pudessem enxotar a tendência de extrema-direita que começa a mostrar as garras mais uma vez.

Foram dois dias bem interessantes que ele passou em Guariba, Jan é um tipo loiro, alto e simpático. Muito alemão embora odeie este tipo de estereótipo. Além de conhecer a Feira e entrevistar o Luquinha e trabalhadores rurais, andamos pelo Jardim São Francisco e Bairro Alto à procura de mais gente, estivemos na Cohab II, onde os ônibus rurais chamaram a atenção dele. Parou especificamente próximo à casa do turmeiro Jurandir, com quem brevemente falou sobre a disputa sindical dos últimos anos.

No dia seguinte esteve com José de Fátima e na EE José Pacífico, escola em que eu lecionava, para entrevistar um de meus alunos. No fim da noite ainda fomos até um Posto para tomar uma cerveja quando ele disse num português bastante razoável “ Queria entender por que no Brasil as pessoas se encontram e bebem em postos de combustíveis ?” Apenas dei de ombros assistindo a Neymar marcar mais um gol, não soube responder, tempos depois com outro amigo ao lembrar a situação disse “ deve ser a maneira brasileira de celebrar o fim do mundo, com bastante festa, a queima de combustíveis fósseis”. Quando ele foi embora me convidou para conhecer Berlim e disse “agora você tem um amigo lá”.

Sempre é bastante intrigante receber pessoas de outras culturas e, sobretudo, perceber que a realidade político-econômica local é muito estudada em um departamento tão distante, ao passo que a América Latina parece viver – em tempos de globalização! – uma fase de entorpecimento, transbordando ódio e se esquecendo mais uma vez de sua história, ficando novamente tão distante do mundo do conhecimento.

Quando íamos embora da Feira, no início da tarde e o sol estava a pino, observei com leve rubor a sujeira: papeis, restos de comidas, copos plásticos jogados por toda a pista, e mais longe pessoas bebendo na rua, ouvindo um ruído de música especialmente alto combinado a um cheiro nauseabundo de algo assado que se dissipava sem antes fazer coçar as narinas. Enrubesci, me irritei e disse que no Brasil ainda há muita pobreza, quis explicar o tipo de pobreza a que me referia, mas Jan me interrompeu e sublinhou “ Pobreza é pobreza, Bruno”.

Fomos embora.

Nunca me esqueço quando li Na pior em Paris e Londres de George Orwell – um dos meus autores preferidos e ao qual deveria recorrer mais vezes – num ensaio o autor cravar “O mal da pobreza não está tanto no sofrimento que impõe ao homem, mas no apodrecimento físico e espiritual que provoca”.

g orwell.jpg

20161105_171955.jpg

George Orwell e nós: Brasil e Alemanha vai muito além do 7 x 1.

Uma mirada perscrutadora

Quando vi Veríssimo na Feira do Livro de 2017 ele acabara de completar 80 anos. É, até hoje, uma das mentes mais brilhantes de sua geração. Era a primeira vez que assistia ao vivo a uma mesa com o autor como protagonista, da outra vez o vi na Flip em uma entrevista com o dramaturgo Tom Stoppard. Porém parecia que já o conhecia há tempos, faz mais de 5 anos que leio semanalmente suas crônicas e para um professor de português é impossível não se lembrar das caricaturas, dos desenhos, ou não topar em qualquer livro didático de qualquer série, do 6° ao Pré-vestibular, com um texto do simpático autor.

A surpresa pra mim ficou por conta de sua mirada perscrutadora, para um fotógrafo amador foi petrificante como um olhar de medusa, não conseguia acertar enquadramento, ajustar o foco, combinar velocidade do obturador e abertura do diafragma a fim de capturar cada vez que ele me mirava, Veríssimo tem aquele olhar plácido que apenas as pessoas no alto de sua sapiência possuem. Certa hora, quando tive a sensação de ser o único fotógrafo no Pedro II e o tempo pareceu “congelar”, consegui “captar” sua mirada firme e sábia. De modo geral, depois de travar uma batalha com minha inapetência e com a figura do cronista a minha volta, consegui alguns cliques razoáveis e resolvi sentar para prestar atenção ao que dizia o grande mestre.

A mesa começou com a eterna pergunta a respeito da definição de crônica, que ele pontuou da seguinte maneira “a crônica é este meio termo entre o jornalismo e a literatura”. Ainda no início quando o mediador comparou a obra literária do pai do autor – o romancista Érico Veríssimo – à dele, ele imediatamente rebateu que, embora escritores, suas atividades em termos de gênero literário são extremamente diferentes “o romance é um transatlântico e a crônica é um barco à vela”, ponderou.

Ainda sobre literatura, ele disse àqueles ávidos por receitas para se tornar escritor que “Escrever é 90% transpiração e 10% desodorante “, ou ainda, num momento menos descontraído revelou “Não há outra maneira de aprender a escrever a não ser lendo”.

Durante a manhã, Veríssimo havia participado do sensacional projeto da Fundação Feira do Livro “Combinando palavras “que promove leituras para mais de mil crianças da rede municipal e depois um encontro com os autores na feira do livro: LFV, Zuenir Ventura, Loyola Brandão foram alguns dos privilegiados (e vice-versa) de ter seus textos lidos e comentados em salas de aulas durante todo um ano letivo. Parabéns a todos os envolvidos. São raros os projetos de leitura no Brasil e quando estes são bem-sucedidos, isto é maravilhoso. Zuenir disse um dia antes em uma mesa que aquele havia sido um dos momentos mais emocionantes de sua vida de escritor. Veríssimo disse “Há esperança”, “Nem tudo está perdido. Através do livro se descobre o mundo, se emociona…”

Logo depois sobre o mercado editorial ele destacou que “Não se formou ainda um mercado para a literatura no Brasil”. E, por isso, “são poucos escritores que vivem de literatura”. Ele disse que esta questão é econômica e reflete na cultura como um tudo. E ao fim sibilou “Há um descaso com a cultura em todo o país”.

Sobre o protagonismo das tecnologias ele brincou “só devemos nos preocupar quando os computadores escreverem textos sozinhos, serem autores”. E para os anunciadores do fim da literatura foi categórico “o texto sempre vai existir, o veículo é que pode mudar. Mesmo que o livro acabe, o texto e o escritor vão continuar”

Quando o debate enveredou pela política e foi questionado sobre o estado das coisas, respondeu à moda de Sócrates “Até que ponto um governo que foca o social vai encontrar resistência?” depois sobre as injustiças sociais seculares brasileiras ratificou o que disse anteriormente “Sempre vai haver resistência contra um governo que destaca a desigualdade”. E a respeito da crueldade do mundo contemporâneo, desmistificou e postulou que “a maldade vem desde Caim, não é uma novidade, é uma realidade humana”.

Depois de quase uma hora de bate-papo com uma plateia entusiasmada que lotou mais uma vez o Pedro II, o grande fã de Louis Armstrong, que aprendeu a tocar sax e criou uma banda de jazz – encerrou destacando “me criei numa casa em que havia livros, isso foi uma das melhores coisas que aconteceram comigo”.

Verissimo o ano passado durante a Feira do Livro no Teatro Pedro II em Ribeirão Preto