A gestão participativa e a história da comunidade

A GESTÃO PARTICIPATIVA E A HISTÓRIA DA COMUNIDADE: CAMINHOS PARA A CONSTRUÇÃO DA IDENTIDADE ESCOLAR

FACULDADE DE EDUCAÇÃO SÃO LUÍS
JABOTICABAL
2016
BRUNO GARAVELLO

A GESTÃO PARTICIPATIVA E A HISTÓRIA DA COMUNIDADE: CAMINHOS PARA A CONSTRUÇÃO DA IDENTIDADE ESCOLAR

Trabalho de Conclusão de Curso apresentado à Faculdade de Educação São Luís, como exigência parcial para a conclusão do curso de pós-graduação em Gestão Escolar.

Orientadora: Profa. Dra. Adriana Turqueti

FACULDADE DE EDUCAÇÃO SÃO LUÍS
JABOTICABAL 2016

Dedico
Aos meus familiares, pelos sorrisos e choros, alegrias e tristezas compartilhadas.

AGRADECIMENTOS

Agradeço a Vambeto Gomes de Jesus, José Nilson Santana e José de Fátima Soares pelo apoio e participação neste trabalho.

“Não basta que seja pura e justa a nossa causa. É preciso que a pureza e a justiça existam dentro de nós”
Mia Couto

RESUMO

O trabalho a seguir faz um estudo acerca da importância da história da comunidade para a (re)construção da identidade da escola, na qual está inserida, em outras palavras, é uma forma de afirmar que a escola/comunidade são indissociáveis, perante uma verdadeira gestão democrática e participativa da unidade escolar. O trabalho participativo, assim como o Projeto Político Pedagógico elaborado em sintonia com às necessidades locais, são capazes de transformar a realidade de um bairro e até mesmo de uma cidade. A gestão participativa requer a democracia na tomada de decisões elaboradas em prol da proposta pedagógica e na qualidade da aprendizagem, através de ações coletivas. Nesse sentido, o papel do gestor é fundamental. É possível afirmar que o estudo da história entre a escola e uma dada comunidade abre caminho para analisar vários enfoques, quais sejam, a relação entre a escola e a família, a participação comunitária no Conselho de Escola e na Associação de Pais e Mestres – APM e tantas outras. Todavia o objetivo desse trabalho é abordar os acontecimentos, os fatos relevantes e motivadores que permeiam a história entre a escola e a comunidade. A greve que ocorreu em Guariba é um fato histórico que repercutiu não só na comunidade, mas lança luz sobre a reflexão da questão da qualidade do ensino e o movimento grevista, ávido por melhores condições de trabalho, salarial e participativo na gestão da escola pública. Portanto, o trabalho se divide em duas partes: a primeira parte aborda o referencial teórico acerca da importância da escola em debater o momento histórico local e a Proposta Político-Pedagógica; a segunda faz um resumo sobre a greve de Guariba e as narrativas dos participantes e no jornal Folha de S. Paulo.

Palavras Chave: Escola; Comunidade, Gestão Participativa, Movimentos de classe.

SUMÁRIO

INTRODUÇÃO 08
2. O PAPEL DO GESTOR NA DEMOCRATIZAÇÃO DA GESTÃO ESCOLAR 10
3. O RECONHECIMENTO E A FORMAÇÃO DA IDENTIDADE 12
4. AS NARRATIVAS DE UM GRANDE ACONTECIMENTO ” O CASO DA GREVE DE GUARIBA” 16
4.1– O Encontro com as narrativas populares 20
4.2– A Repercussão dada pela cobertura jornalística do jornal Folha de São Paulo 23
5. CONSIDERAÇÕES FINAIS 26
REFERÊNCIAS 27

INTRODUÇÃO

O objetivo deste trabalho é lançar luz à questão escola-comunidade. Para tanto, é imprescindível, analisar a questão da Gestão Democrática através da participação da comunidade na construção do Projeto Político Pedagógico, no Conselho Escolar e na Associação de Pais e Mestres – APM.
De acordo com Oliveira (2010) “as mudanças esboçadas no campo educacional face à reestruturação produtiva e, sobretudo, as mudanças no mundo do trabalho impuseram à escola um novo desafio: a escola enquanto núcleo de gestão”. Nessa direção, ela passa a ser entendida como espaço de deliberação coletiva em diferentes áreas: financeira, pedagógica e administrativa.
Outra reflexão importante é entender como se estabelece a relação de forças entre o currículo e a construção da proposta pedagógica, preservando as características históricas da comunidade.
Através do cruzamento dessas questões, procurou-se considerar a importância da Gestão Democrática sobre a comunidade, resgatando os fatos históricos e, como consequência, o fortalecimento desse laço. Além disso, esse trabalho contempla um olhar especial sobre um acontecimento histórico especial “A Greve de Guariba”, reportada através de vários interlocutores da comunidade e a repercussão gerada pela imprensa escrita, especialmente pela importante contribuição da Folha de São Paulo (1984), a qual repercutiu a greve, suas reinvindicações e as consequências históricas para a comunidade.
Nesse sentido, buscou-se conciliar o levantamento bibliográfico em material escrito, destacando as obras “As Dimensões do projeto político-pedagógico: novos desafios para a escola” das autoras Ilma Passos, Alencastro Veiga e Marília Fonseca e “Gestão e Organização Escolar” de Naura Syria Carapeto Ferreira e alguns depoimentos de pessoas da comunidade com alguma expressão de liderança, como o professor de capoeira e presidente da Comunidade Negra José Nilson Santana, para ajudar a encontrar algumas pessoas que participaram do movimento em 1984.
Por fim, para abordar a greve de Guariba, foram consultados os filmes: “A classe que Sobra” de Peter Overbeck, “Califórnia à Brasileira” e A memória em Nossas Mãos” de Beto Novaes e Francisco Alves, além do artigo sobre a greve de guariba publicada pelo Jornal Folha de S. Paulo, entre os dias 16 e 20 de maio de 1984, especialmente, a reportagem da capa do dia 16 de maio de 1984.

1. O PAPEL DO GESTOR NA DEMOCRATIZAÇÃO DA GESTÃO ESCOLAR

Esse capítulo aborda a importância da gestão democrática dentro e fora da instituição escolar. Nesse sentido, foram analisadas as dimensões da gestão escolar e a comunidade, uma união imperativa, quando ocorre de fato a gestão democrática ou participativa.
Vamos considerar como eixos participativos a família, as instituições e as organizações constituídas pela comunidade. No primeiro eixo a escola e a família, as quais devem agir como parceiras.
Vale destacar que é necessário criar situações para a família participar da vida escolar de seus filhos. Nesse sentido as reuniões bimestrais de pais e mestres, palestras sobre temas abrangentes e locais, formação para a educação de seus filhos, campanhas de solidariedade e outros eventos além de confraternizar, criam situações importantes para a escola democrática.
Sobre a importância dessa participação, Menezes (2016) destaca que:

No início de cada bimestre ou trimestre, as crianças e seus responsáveis – mães, pais, irmãos, tias ou avós – devem ser informados sobre quais atividades serão realizadas em classe e em casa, de que recursos elas farão uso, que aprendizagem se espera em cada disciplina e que novas habilidades desenvolverão. Esse é o momento, ainda, para que todos apresentem demandas e sugestões. Ao promover esse encontro, os professores, em conjunto com a direção e a coordenação, precisam ter clareza das expectativas de aprendizagem e das atividades previstas na proposta curricular, realizadas num projeto pedagógico efetivo. Isso já é um bom começo (MENEZES, 2000, p. XX).

É importante destacar que as reuniões não devem ficar restritas à de pais e mestres uma cada bimestre, como foi apontado. A escola democrática oxigena a comunidade, através da participação em palestras e eventos culturais previstos na proposta pedagógica construída com a participação da comunidade.
No PCN fica evidente esta necessidade:

Esse projeto deve ser entendido como um processo que inclui a formulação de metas e meios, segundo a particularidade de cada escola, por meio da criação e da valorização de rotinas de trabalho pedagógico em grupo e da corresponsabilidade de todos os membros da comunidade escolar, para além do planejamento de início de ano ou dos períodos de “reciclagem”. ( p. 35 – introdução).

Ele ainda vai além quando inclui a formulação de metas e meios, a primeira a fim de que no final de cada processo se faça uma avaliação mais qualitativa de resultados quantitativos, a segunda imprime a ideia da metodologia uma vez que o conhecimento escolar é intencional, sistematizado e embasa-se no teórico.
Para tanto este eixo de participação da comunidade é um dos pilares para a consolidação da gestão democrática garantindo assim a não alienação da família nem da escola nos problemas que envolvem estas duas esferas e assegurando a formação e informação ao educando como ferramentas para atuar no próprio meio social e ir além dele.
Outro eixo são as instituições e organizações que funcionam na comunidade. São representações constantes as de cunho religioso, pois faz parte da rotina de muitos educandos. Embora vivemos em um país laico e a escola também seja laica este assunto é bastante delicado, mas essencial pois se debatem as ideias não apenas na esfera escolar. Neste sentido a gestão democrática deve considerar a religião como manifestação individual e não interferir nesta característica, e também deve considerar a igreja como parte constitutiva da comunidade em que está inserida assegurando assim a participação sem fins doutrinários nas decisões escolares que lhe cabem este direito, tais como festas tradicionais ou campanhas desde que o conselho escolar assim o permita. Outra manifestação cultural, a capoeira, por exemplo, deve ter seu lugar garantido quando for representativo dentro da comunidade, ou incentivado quando não.
As ONGs também devem ser parceiras em projetos e atuar nos momentos propícios pois quanto mais fortes forem estas interações mais a gestão se aproxima de uma educação libertadora e do exercício completo da cidadania.
Além desses, outro aspecto a ser abordado é a criação e o funcionamento dos colegiados, pois apenas a partir deles as decisões serão descentralizadas da esfera da gestão e poderão se firmarem como democráticas e, como consequência, se bem avaliadas pela equipe gestora, transformadoras da vida escolar do educando.
Pata tudo isso acontecer, é necessário que a gestão trabalhe amparada na lei e desta forma garanta a democratização da escola, ao fazer estas parcerias com elementos da comunidade, a escola se torna reflexo e aparelho desencadeador da mudança ajustando os hábitos culturais da comunidade, propondo soluções baseadas na compreensão para diversos assuntos dentro do meio social.

2. O RECONHECIMENTO E A FORMAÇÃO DA IDENTIDADE

Uma vez em prática a gestão democrática e posto em discussão a elaboração e discussão do Projeto Político-Pedagógico, a escola está pronta para discutir e reformular sua identidade a partir da identidade de seus sujeitos, a qual é construída por várias influências, como as do meio social, familiar e dentro da própria escola.
A partir do pressuposto da construção da identidade como uma ação individual e coletiva pode-se destacar que, no primeiro caso, o sujeito não aceita uma identidade apenas herdada, mas construída a partir de uma racionalização e compreensão de si mesmo e de seu papel no mundo. Esta é uma das prioridades da escola, dar abertura para a liberdade de expressão, a discussão de ideias e o enriquecimento pessoal a partir dos saberes ensinados e aprendidos no cotidiano escolar. No segundo caso, é evidente que a construção coletiva vai formar uma escola mais plural, destacando as diferenças e atando-as aos pontos comuns da comunidade e da própria escola. Desse modo, com a participação de todos os envolvidos no projeto, a escola ganha um novo rosto.
Nesta perspectiva ” ao serem originadas pelos próprios sujeitos e ao constituírem fonte de significado para eles, as identidades são construídas por meio de um processo de individuação que o sujeito empreende em suas relações com os outros indivíduos e as instituições ” (ALENCASTRO, 2012, p.220).
Neste ponto há também o questionamento das relações de poder uma vez que está construção confronta-se com o pensamento dominante. Portanto a construção não é passiva e deve gerar conflitos para a gestão escolar abordar e mediar de forma que não se formule apenas uma identidade de resistência ou seu contrário, uma de aceitação; ao contrário esta nova identidade adquire contornos de ação transformadora do indivíduo que ao internalizar as injustiças pelas quais passam, esses sujeitos tenham o pressuposto de pensar um mundo mais justo em que o conhecimento a o acesso aos mais básicos direitos humanos estejam em pauta e sejam cada vez mais garantidos e lançando assim uma sensação de pertencimento que é parte essencial da constituição de qualquer ser.
Sendo assim o indivíduo está apto para começar a exercer a cidadania pois ela envolve um processo de consciência pessoal e social e segundo Naura Syria Carapeto Ferreira (p 34 e 35).

A realização se faz por meio das lutas contra as discriminações, da abolição de barreiras segregativas entre indivíduos e contra as opressões e os tratamentos desiguais, isto é, pela extensão das mesmas condições de acesso às políticas públicas e pela participação de todos na tomada de decisão.

Toda esta ressignificação do indivíduo como ser social e ” ser-sendo ” é essencial, pois não apenas é um mecanismo eficiente de transformação, mas também aborda o discente como protagonista do processo de ensino-aprendizagem. È apenas com essa sensação de pertencimento que se age sobre o objeto de estudo não só como objeto estático, mas elemento desencadeador de uma nova forma de entender e conhecer.
Outro ponto a destacar é que a comunidade cria uma expectativa em relação a escola que serve a ela e é servida por ela também. Esta relação bilateral tem na comunidade sua fonte histórica de acontecimentos, exemplos de relações familiares e presença de instituições que moldam o caráter da população em geral.
A função da escola é considerar os aspectos construtivos da comunidade e procurar relacioná-lo com o saber aprendido a partir da base curricular nacional e apontar seus pontos de incongruências e interação de modo a preservar a história da comunidade e, ao mesmo tempo, abordá-la sob um outro ponto de vista a fim de resinificar a própria história do bairro e comunidade. Esta é uma forma muito eficiente de se discutir os valores até então absolutos e, muitas vezes, autoritários para que se vençam as fragilidades dos que estão distantes do poder, causando um empoderamento do indivíduo em sua rede social.
A identidade é um organismo vivo, por isso em constante mutação. A legitimidade desta flexibilidade é o que estabelece o ideal democrático de qualquer sociedade e deve ser tema constante no dia a dia da escola. O papel do gestor é equilibrar esta força e torná-la fator motivador para a aprendizagem dos educandos, dos discentes, da equipe gestora e de todo quadro técnico da escola.
Em sintonia com a comunidade o raio de alcance desta identidade se torna maior, criando indivíduos menos intolerantes e que compreendem as dificuldades de se encaixar em modelos sociais cada vez mais impostos por uma cultura global massificante. Ora é a partir do local que se chega ao universal e não o contrário ” se queres ser universal, conhece melhor a tua aldeia ” afirma Tolstói e na raiz deste pensamento também está a preservação do que vem diretamente da comunidade ou que se formou com ela ao longo do tema, sejam esses aspectos linguísticos, religiosos e culturais.
Por isso também a discussão do local na pauta escolar valoriza não apenas a cultura e os ensinamentos e a forma de ensinar, mas também combate a cultura imposta pela mídia e faz crescer a sensação de legitimidade e o caráter único que toda identidade tem.

3. AS HISTÓRIAS DA COMUNIDADE

“É rico de lições perceber que, no momento mesmo em que atingiam sua maturidade, as Ciências Humanas buscassem a alternativa interdisciplinar como solução para seus impasses. Desse enriquecimento, surgiram abordagens diversas e inovadoras, em antropohistória, geohistória, sociolingüística, história e geografia econômicas etc. ”

PCN – Ensino Médio Ciências Humanas p. 07

Depois de um período no limbo as Ciências Humanas ressurgiram timidamente ao término da ditadura para se reestabelecerem e, pós – LDB, comporem parte significativa da matriz curricular e se firmar como um pilar fundamental para o crescimento em vários aspectos, como os cognitivos, os afetivos, os culturais, os sociais etc.

A combinação destes componentes curriculares alinhados às Linguagens e Códigos compõe vasto repertório para a aprendizagem – esta possa abordar uma perspectiva mais ampla e global, sem perder de vista o microcosmo ou mesmo tornando-o “âncora” para as interpretações dos mais variados fenômenos, como os econômicos, nas relações de trabalho, no campo da ciência e tecnologia.
O fundamental é a Proposta Político-Pedagógica apertar o laço com as Ciências Humanas e tornar esta discussão fundamental, principalmente no que tange à história local, pode-se entender que a compreensão do ambiente social passa pelo conhecimento da história local.
Como escreve NORONHA (2007), “a história local dá ao aluno um referencial analítico para compreender a dinâmica social.”

A partir disto o gestor deve acompanhar com os professores ações que não sejam “estanques” nas disciplinas, mas que transitassem por todas as disciplinas e espaços escolares a ponto de transpor os muros da escola e estender-se para o bairro e toda a comunidade. Que a comunidade seja um espaço de conhecimento e, assim, abra possibilidade para transformação no indivíduo e na própria comunidade. E que estes laços sejam cada vez mais fortes, é um caminho que se abre para o desenvolvimento de outros conhecimentos e para que a visão de mundo do educando seja cada vez maior, ampla e ele possa compreender os fenômenos em nível mundial que também o afetam.
Muitas vezes histórias simples da comunidade, da memória coletiva do povo, da migração e tantas outras passam despercebido ou são desimportantes frente aos “grandes acontecimentos do mundo” que nos fisgam a todo instante nos noticiários de jornal ou internet. No entanto, é válido destacar que a construção do saber começa pela compreensão do “quem somos” e “onde vivemos”. A ambas as perguntas a resposta começa pelo conhecimento daquilo que nos cerca e para o ambiente sob o qual fomos moldados, “construídos” e criados. A própria história pessoal ou a da família pode ser o capítulo inicial desta busca. Esta recuperação da memória e construção da identidade compõe capítulo essencial para toda escola que se deseja democrática e transformadora, não refém de modelos impositivos ou alienadores.
Tudo isto para formar as histórias da comunidade. A partir deste momento impõe-se a necessidade do registro e adequado arquivamento do material, seja ele visual, sonoro, através da escrita; e da compilação de livros, artigos acadêmicos e outros que já existam mas precisam ser reunidos e disponibilizados para a comunidade escolar.
De acordo com Noronha (2007), “as publicações locais, escritas por moradores da cidade, devem ser utilizadas dentro do espaço escolar como forma de oportunizar o aprendizado da história local. Estas publicações, por serem de autoria de munícipes, trazem, além da história, a experiência do autor na sua cidade, e torna-se um objeto de investigação mais interessante para ao aluno”.
Apenas desta forma alcança-se a cidadania plena, com atores protagonistas no processo de construção da própria história. A escola que adota tal projeto tende a alcançar o sucesso porque ela pensa além de seus muros e começa a refletir e atuar dentro da própria realidade (ROCHA, 2001, p. 45).
Não basta falarmos em datas e personagens e sim explicitar o contexto do fato, como era a sociedade nesta época, como pensavam e o como isso interfere ou não na realidade vivenciada atualmente por eles. Mostrar que fazem parte dessa história e que podem e devem se posicionar ativamente nas transformações da sociedade. Para Rocha (2001), “É preciso que os professores tenham bem claro o papel da história no currículo escolar, para que ocorra uma renovação na prática educativa”.
Além desses benefícios o Ensino da história local esclarece dois conceitos difusos na sociedade, o primeiro afirma que se precisa valorizar a história do homem comum assim não se cai no risco de que seus membros não a considerem importante ou valorizada; o segundo defende que ao presenciar a diversidade, esta pesquisa resulta na ruptura de preconceitos e, por conseguinte, no respeito às diferenças.

4. AS NARRATIVAS DE UM GRANDE ACONTECIMENTO ” O CASO DA GREVE DE GUARIBA”

A greve de Guariba é um exemplo de fato histórico ignorado ou desconhecido por quase todas as camadas sociais e, como consequência, não é objeto de estudo nas escolas ou quaisquer outros meios, salvo exceções muito raras, como citação em livros de moradores da cidade, como o de Dinho Grieco cujo capítulo se inicia com um “é uma página negra na história de Guariba” ou no livro de cem anos, com direito a publicação da réplica do Acordo de Guariba, ou ainda no romance autobiográfico de Vambeto Gomes de Jesus – Realidade Nordestina – em que fica evidente a figura do migrante como participante da greve e do processo sócio histórico de formação de identidade da cidade naquela época.
Também há quatro documentários em curta-metragem Califórnia à brasileira e A memória em nossas mãos de Francisco Alves e Beto Novaes, O boia-fria de Carlos Caxassa e A classe que sobra de Peter Overbeck. Enfim neste caso há referências sólidas para o desenvolvimento do tema nas escolas, ainda assim, percebe-se o silêncio nas propostas pedagógicas do município ou mesmo em escolas estaduais, quase sempre amarradas a um currículo imposto pela secretaria e presas à gestão que ignora praticamente não apenas fatos históricos relevantes, mas também fatos mais “corriqueiros” tornando a escola um objeto estranho na sociedade e ficando distante das histórias dos alunos e da formação da sociedade.
Que esteja bem claro não haver necessidade de fatos históricos proporcionais ao da greve para se fazer este trabalho de aproximação entre a Proposta Político-Pedagógica e a comunidade, uma vez que a construção da identidade se faz nos acontecimentos ordinários do cotidiano quase se dá uma dimensão mais profunda a eles.
4.1– O Encontro com as narrativas populares

A facilidade com que se dá, ainda, de encontrar testemunhas, grevistas e ex-cortadores de cana é muito evidente. Basta comentar o assunto e quase todas as pessoas possuem alguma narrativa para ser contada, principalmente acerca do dia 15 de maio de 1984, dia em que ocorreu a paralisação e as consequentes ações dos boias-frias ao depredar dois prédios da cidade e a reação da polícia que, depois de dispersar a multidão com gás lacrimogêneo e tiros ( de fato, muitos trabalhadores ficaram feridos e uma testemunha foi morta nas escadarias do campo onde dias depois se realizariam as assembleias), subiu o morro e espancou várias pessoas.
Escolhi três dos vinte entrevistados para abordar por razões de relevância à greve e à proposta deste trabalho.
O primeiro personagem do qual se ouve o nome é José de Fátima, figura proeminente após a greve, pois seria o líder sindical e o escolhido pela CUT e pelo partido de esquerda da época como representante do movimento. Por trás desta lenda, 30 anos depois, há muito mistério e divergências. Quando entrevistei Zé em um primeiro momento, em 2012, ele vivia de pequenos serviços na cidade, longe da força sindical que o havia catapultado e sarcástico frente aos acontecimentos políticos nacionais, a saber, o caso do mensalão que derrubou José Dirceu e Antônio Palocci, desafetos dele desde a época em que Zé optou pelo malufismo em meados dos anos 80.
Ele me abriu as portas para investigar a história de várias pessoas, e ao lado do material digitalizado da Folha de S. Paulo, me serviu como referência para a interpretação dos fatos.
José de Fátima conta que a greve de Guariba teve toda essa manifestação contra a Sabesp e o mercado de Cláudio Amorim por razões políticas locais. Dois anos antes quando houve as eleições municipais, o grupo vencedor, representado por vereadores locais, prometiam não entregar a água do município para a Sabesp do governo Montoro, que havia começado um grande plano de saneamento básico no estado, no entanto, quando eles venceram as eleições, A Sabesp começou na cidade, com um dos vereadores acumulando função na diretoria da estação, revoltando os boias-frias. A este fato se somou um plano tarifário relacionado ao gasto de cada residência, que versava em linhas gerais que quem gastasse menos, pagaria menos. Os boias-frias, por que moravam em grupos ou com grandes famílias, e por estarem expostos a sujeiras e fuligens, gastavam muita água para higienização, banho e lavagem das roupas, deste modo o plano, em vez de ajudar, lançou a conta de água deles a valores astronômicos. Quanto a Cláudio Amorim, ele disse que além de uma peleja política – ele havia sido derrotado para prefeito por um torneiro – ele era um dos mais bem-sucedidos empresários no ramo e os boias-frias compravam no mercado dele. Todos os prédios ficavam a menos de cem metros de distância e próximos à entrada do estádio Domingos Baldam, palco das assembleias que chegariam ao acordo coletivo de trabalho.
Ele também conta dos dias que se seguiram e da formação do Sindicato do Trabalhador Rural de Guariba (STR) um dos desdobramentos que fortaleceram a greve. Ele foi presidente e durante os dois anos seguintes, uma das principais lutas dos sindicalistas era garantir que o acordo fosse cumprido. Foi uma luta muito grande ele dizia, pois além de muitos participantes configurarem numa lista negra que os impedia de trabalhar como assalariados, gerando um movimento nunca visto de criação de assentamentos na região de Ribeirão Preto, também houve uma luta muito grande para que os usineiros cumprissem com o Acordo.
Como o movimento se espalhou por todo o estado, com a abertura democrática e o fortalecimento e a legalização de grupos sindicais, José de Fátima se configuraria como grande líder na região e chegaria a ser vice-presidente regional da CUT regional de Ribeirão Preto, tendo acima dele apenas Antônio Palocci.
Outra narrativa interessante cabe ao senhor Geraldo Amorim, citado por José de Fátima, estive em sua casa para conversar, ele e sua esposa eram cortadores de cana como muitas outras famílias à época, ele se lembra das dificuldades de viver em apenas um cômodo com filhos e também dos dias anteriores quando acendeu a centelha da greve. Havia muita conversa no eito sobre a dificuldade que o novo regime de sete ruas apresentava aos trabalhadores, primeiro porque ficava muito difícil formar a partir de sete ruas, três montes de cana, havia perda de tempo e esforço extra de trabalho para carregar a cana até os montes. Vale observar que para o usineiro havia um plano de redução de gastos com combustíveis através do número menor de montes e também mais economia ao transportar menos terra.
Também o dia 15 de maio marca um episódio para eles, ele disse que sua casa foi invadida por policiais que pisoteavam o prato de comida das crianças, agrediam e deixavam marcas de violência e medo por onde passavam, em sua casa ou na casa de vizinhos. Várias pessoas foram agredidas e as imagens estão presentes na memória e nos filmes Califórnia à brasileira, que foi um dos primeiros documentários a veicular mais uma vez a truculência da polícia militar brasileira durante a greve.
Um dos registros interessantes se concedermos a memória marcante dele, é quando ele me conta que segurou o filho pequeno nos braços e correu quando um piquete formado por ele e amigos tiveram que se desvencilhar de uma saraivada de balas da polícia. Ele se lembra claramente de correr protegendo o filho e chegar em casa desesperado e atônito por conseguir escapar. A imagem que fica na memória deste senhor de 58 anos é muito rica, pois é quase uma atitude de herói e por ser parte do nosso imaginário coletivo – deixa a pergunta no ar sobre verdade e invenção, memória e imaginação, heroísmo e sorte.
Por fim existe a narrativa de Tio Bica, que hoje vive assentado. O grupo de pessoas de Guariba que iniciou a reforma em Córrego Rico em 1998 invadiu as terras improdutivas entre Guariba e Jaboticabal – até então do estado – depois de muito refletir e tiveram a ocupação reconhecida pelo governo do estado. Eles estão até hoje lutando para que seus ideais e suas vontades sejam ouvidas e cumpridas.
Tio Bica foi um dos líderes da greve de Guariba, participou dos piquetes e dos primeiros movimentos na segunda quinzena de maio de 84. Na época, disse que era um velocista e venceu na corrida a pancadaria dos policiais durante a repressão violenta. Partiu para a reforma pois seu nome circulava nas listas negras das usinas da região como agitador e rebelde. Além disso é o homem do campo por excelência, gosta dessa vida e acha que se muitos fizessem como ele desde aquela época, não sofreríamos tanto um período de dominação como esse que temos atualmente.
Enrolou um pequeno fumo e aos goles de um café preto tragava e contava grandes histórias de como a luta vale a pena embora os riscos sejam grandes. Também chegou a reforma em 98, tem dois filhos, um deles ainda sofre pelo passado revolucionário do pai e uma das indignações é o fechamento da usina são Carlos no final de 2012.
Ele conta sobre as dificuldades de mercado enfrentadas e continua à espera de uma verdadeira Reforma Agrária que não contemple apenas a agricultura familiar, mas que discuta o agronegócio e o coronelismo no país.
Estas pequenas narrativas mostram a importância de se investigar as histórias particulares dos moradores da comunidade escolar. É tarefa de sumo importância, pois, incluir num Projeto Político-Pedagógico as narrativas dos arredores escolares, não apenas como forma de recuperar a história, mas também como valorização dos cidadãos que compõem a comunidade.

4.2– A Repercussão dada pela cobertura jornalística do jornal Folha de São Paulo

Aqui se propõe fazer um pequeno resumo e comentário da abordagem de um jornal de grande circulação da época a fim de discutir como a imprensa narrou o fato e como os articulistas o interpretaram.
Os fatos do dia 15 de maio de 1984 tiveram uma repercussão tão forte na mídia televisiva da época e foram incrivelmente registrados por fotógrafos e jornalistas que em Guariba aportaram, que não é de se surpreender que Guariba estreava na capa de um jornal de grande circulação. Com o título de Conflito em Guariba e o lead tendencioso, “Boias-frias demolem prédios, incendeiam veículos e saqueiam supermercados” percebe-se a tônica do jornal em acusar os trabalhadores rurais de distúrbio e provocadores da violência que tiveram que enfrentar. Melhor seria um lead em que se afirmasse a truculência da polícia que no mesmo dia, quando abafara a depredação, atirou em cidadãos desarmados e depois subiu o morro para “acabar o serviço” e invadir as casas, espancar e intimidar trabalhadores que buscavam fugir das condições de miséria a que se submetiam.
Este tipo de notícia, quase sempre em débito com a verdade dos fatos e omissa, é prática recorrente no Brasil, embora vivia-se um período de transição para a abertura democrática, a mídia brasileira, de modo geral, quase sempre se curvou aos grandes poderes e evitou a polêmica e a perda, talvez, de patrocinadores, pois não se faz notícia para um país em que mais da metade da população era analfabeta e os leitores, classe média, de pequenos empresários ou profissionais liberais que leem estes jornais em sua grande maioria, é claro.
No entanto, em clima de diretas já e engajamento político por parte de intelectuais, além de um clima marxista que extravasa como poucas vezes os nichos universitários, vários colunistas saíram em defesa dos trabalhadores rurais e denunciaram o crime silencioso à integridade das pessoas que ocorriam. Ainda que fosse na página 2 ou no espaço dedicado à opinião, a qual muitas pessoas abdicam da leitura, o tema pegou fogo.
Galeno de Freitas num artigo do dia 18 de maio de 1984 destaca ” este país formado à sombra das sesmarias e crismado pelo latifúndio, em nível das classes dominantes, acostumou-se a auto explicar a partir de preceitos que inculpam sempre os de baixo. O nobre, o senhor e o dono do latifúndio nunca tem culpa pelas disfunções dos sistemas econômicos”. Por fim ele comenta a necessidade de pôr em discussão o Estatuto da terra de 1967, que entre outras definições, “objetivava a criação de uma classe média rural – pequenos e médios proprietários – que seria a base política do regime futuro”
A importância de não apenas se informar, mas debater as opiniões dos jornais se faz evidente em qualquer contexto, ela amplia a visão do projeto escolar, traz à tona novas formas de interpretação de um mesmo fato e aprofunda o conhecimento acerca do fato noticiado. Se está em consonância com a realidade local escolar, e o caso de Guariba é extremamente rico neste ponto, só há ganhos.
Ainda no jornal do dia 18 de maio de 1984 em uma seção especial intitulada A revolta dos boias-frias (sic), noticia-se o resultado da assembleia de Guariba, outro fato marcante, e do qual saiu o primeiro Acordo Coletivo de Trabalho entre usineiros e trabalhadores rurais, conhecido como Acordo de Guariba (ver anexo 1) que se estendeu para todo o estado e país.
Na capa do dia 19 de maio de 1984 uma manchete no canto esquerdo do jornal anunciava que o Acordo valeria para o estado. O anúncio saíra da Cooperativa dos cortadores de cana de Sertãozinho, uma espécie de representante patronal, e do qual participaram os secretários do Governo e do Trabalho, Roberto Gusmão e Almir Pazzianotto, respectivamente. Porém no editorial do mesmo dia, o jornal já alertava que ” a ausência de sindicatos bem organizados” põe a greve em Guariba em situação de temeridade em relação ao futuro das conquistas.
Por fim, outro assunto destacado pelos colunistas foi a violência – perpetrada pelos policiais – e outras formas de ela se manifestar “não-violência é não à violência(…)a proposta ética de resistir às multiformes de opressão econômica, social e ideológica que se resumem na conhecida palavra ´ injustiça`” foi uma afirmação de Alfredo Bosi na seção Tendências/Debates do jornal do dia 19 de maio.
Enfim, toda a cobertura de um fato histórico ou de fatos cotidianos da comunidade é uma forma de apresentar o assunto de forma viva, atraente e colocar os educando e educadores como sujeitos da ação, prontos para interpretar os fatos e recriar sua própria realidade a partir da compreensão do que somos. É imprescindível adicionar esse conceito à Proposta Político-Pedagógica, de modo que ela se torne mais rica, um instrumento de reflexão e por que não, de política ou de tomada de consciência de que somo sujeitos de nossa própria história.

5. CONSIDERAÇÕES FINAIS

A pauta do cotidiano, o olhar para a comunidade e a percepção das injustiças nos leva sempre a uma reflexão mais profunda. Ainda que possa ser doloroso, a viagem de descoberta põe em evidência aquilo que somos e acende as centelhas da transformação. Uma escola não pode encarar o currículo como algo distante de sua realidade. Ao contrário, ela precisa a todo momento colocá-lo em evidência e despertar os educando e educadores em busca da história perdida e, sobretudo, daquela que acontece todos os dias de modo que possamos levá-la a nosso favor através da atuação sobre ela.
Também a gestão participativa é uma das dimensões mais importantes na gestão escolar, ela é uma forma de “desinstitucionalizar” a educação, tornar a escola mais independente de, não raro, propostas de trabalho descontextualizadas e geridas por governos, muitas vezes, despreocupados com a formação cidadã e com reconhecimento da história como fator precípuo da formação do indivíduo.
Essa combinação, como muitos educadores citados apontam, é salutar e já foi considerada uma conquista de, infelizmente, poucas escolas de nosso país.

REFERÊNCIAS

RIOS, T. A Identidade da escola. Disponível em: http://gestaoescolar.abril.com.br/comunidade/identidade-escola-autonomia-etica-valores-gestao-participativa-democratica-trabalho-equipe-escolar-515765.shtml. Acessado em 15 de mai de 2016.

MENEZES, L.C. A escola e família como parceiras. Disponível em: http://revistaescola.abril.com.br/formacao/escola-familia-como-parceiras-423328.shtml. Acessado em 15 de mai de 2016.

VEIGA, I.P.A.; FONSECA, M. As dimensões do projeto político-pedagógico: novos desafios para a escola. São Paulo: Papirus, 2002.

FERREIRA, N.S.C. Gestão e organização escolar. Revista Retratos da Escola, Brasília, v. 3, n. 4, p. 273-275, jan./jun. 2009.

Acervo do Jornal Folha de S. Paulo (1984). Disponível em: http://acervo.folha.com.br/resultados?q=greve++Guariba&Site. Acessado em 15 de mai de 2016.

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