Nick Cave e o início do fim da democracia no Brasil

Com um show vibrante de um dos músicos mais admirados do mundo e com um inequívoco #elenão o Brasil se despede do breve período democrático. Parece contraditório, mas aquele público do Espaço das Américas, representa apenas parte do país. Jovens adultos e adultos saudáveis, bem vestidos e da alta cultura são a minoria que o candidato do PSL e sua base não alcançam e pretendem combater. Talvez seja uma vingança, talvez apenas ressentimento, o fato é que naquele espaço em que o Nick Cave e os bad seeds fizeram um espetáculo musical excepcional, não cabe toda a margem de brasileiros.

Na fila da entrada, ouvindo as conversas de grupos próximos parecia estar em outro país. Discursos de tolerância, outro ridicularizando a campanha difamatória de Bolsonaro sobre os projetos de educação de Haddad quando ministro, revelam um grau de intelectualidade não visto em qualquer outro cerco. No entanto, quando se volta para as áreas populares os discursos que mais se ouvem é de brasileiros ressentidos, sem estudo e conhecimento, galvanizado pelo ódio, sedimentado pelas redes sociais e pelas fake News, que sem condições de interpretar o que se diz, traduz no apoio às ideias mais retrógradas e fascistas.

Na guerra pela informação rápida e instantânea, ganha não aquele que tem o compromisso ético e moral, mas aquele que quer a vitória a qualquer preço, que reinventa as regras do jogo, ou melhor, subverte-as a seu favor. A tecnologia chegou a quase todos os brasileiros, a educação de qualidade não. Se o período democrático brasileiro apontou uma falha gravíssima para consolidar seus ideais, esta falha foi na área da educação. Embora tenha havido avanços na universalidade da educação básica, os índices baixíssimos nas avaliações institucionais mais a formação precária de professores, muitos apoiando um candidato que endossa a tortura e a violência como cura dos males, são sinais do abismo a que chegamos. O Brasil tem uma das taxas mais baixas de leitura do mundo ocidental, adultos quase não leem nem livros nem jornais, jovens vivem pendurados em vídeos de youtubers que se tornam sucessos instantâneos sem o filtro da ética e da qualidade, e eles influenciam demais as pessoas.

Quando se coloca um jovem na escola em frente a um computador, ele não sabe fazer outra coisa a não ser acessar site de jogos e redes sociais, como o facebook e o Instagram. Isto ocorre porque enquanto a escola priorizou vencer conteúdos, passar informação de modo tradicional, se esqueceu de que a informação está em toda a parte ao alcance das mãos, e por isso, deveria centrar seu método em ensinar a interpretar os fatos, reconhecer pontos de vista, praticar o senso crítico, não achar que problemas complexos sociais sejam resolvidos com sandices e propostas vazias ou autoritárias. Não deixar que, em decorrência disso, a imprensa independente morra e se crie em seu lugar redes de informação monopolizadas, canais alternativos comandados por pessoas que tentam persuadir de forma suja a opinião pública.

A democracia por esse motivo foi entregue ao populismo ou ao messianismo, a moderação perdeu a batalha ao descomedimento, este inimigo íntimo dos democratas, e o show do Nick e sua manifestação explícita contrária ao autoritarismo vai ficar reservado àquele seleto grupo de homens e mulheres educadas de São Paulo. Eles cavaram esse fosso entre a pobreza e riqueza, entre o conhecimento e a falta dele, e essa arrogância, ainda que despropositada, será paga com o ressentimento das urnas, endossado por artistas pífios e marginalizados pela alta cultura, como Zezé di Camargo e Regina Duarte.

É uma pena que a educação no Brasil não tenha chegado a todos, assistir ao show do músico australiano e sua banda formidável foi um dos maiores prazeres que um país democrático poderia conferir a mim e deveria conferir a tantas outras pessoas este mesmo prazer ou outros similares a todos os gostos.

Na saída, extasiado, fui comer um lanche dentre os inúmeros food trucks que ficam na avenida adjacente ao espaço. Ao meu lado, um casal argentino feliz pela oportunidade única de assistir ao espetáculo vê no celular o vídeo em que a plateia entoa o #elenão e come um hot dog, atrás da gente, beirando o muro da UNINOVE em meio ao lixo jogado na calçada, um morador de rua tenta dormir com um pano branco enrolado na cabeça, ele não tinha colchão nem travesseriro, à minha frente se levanta o Memorial da América Latina; por onde se olha a realidade salta aos olhos e o país pulsa sem saber para onde se vai ao certo. Até agora o que se escolhe é uma estrada escura e vazia de sentimentos. ( foto de fabrício Vianna)

15396142585bc4a63254262_1539614258_3x2_md

Anúncios