O benefício da dúvida numa época de certezas inabaláveis

Tudo de que não precisamos é nos distanciar um pouco mais da civilização do século XXI no que ela tem de melhor: seu ativismo em defesa do planeta, da paz, do bom uso dos nossos recursos, de uma melhor distribuição da riqueza, de um diálogo constante entre as nações: o sonho a que todos os grandes aspiraram: Martin Luther King, Nelson Mandela e Gandhi para citar só alguns – e nos afastar de repente dos raios democráticos do dia, para dar espaço ao crepúsculo melancólico e estranho que instantaneamente se transforma num fim de tarde frio e nebuloso.

Mas deve existir uma maneira, se não de convencer este povo, pelo menos, pô-los para pensar: plantar a semente da dúvida e afastar o ovo da serpente. Pois estamos a ponto de caminhar para um desses dois caminhos: ou despertamos a riqueza da dúvida, incitamos eles – os menos convictos, meio perdidos no vendaval de fakes – a lerem livros de economia: o Valsa brasileira da Laura Carvalho, ou de história: Sobre a tirania, 20 lições do século XX para o presente de Thimoty Snyder, ou ainda de literatura: a tetralogia de Elena Ferrante que resgata quatro décadas da história napolitana – do contrário o ovo da serpente vai chocar e o que virá a partir daí é um mal irrefreável.
Em dado momento no quarto livro da série A amiga genial de Ferrante, a narradora Elena Greco explica assim o fim e a consequência social e política da operação Mãos Limpas (na qual a Lava Jato se inspirou)

“Eram anos complicados. A ordem do mundo em que tínhamos crescido estava se dissolvendo. As velhas competências devidas ao longo estudo e à ciência do bom caminho político pareciam de repente um modo insensato de empregar o tempo. Anarquista, marxista, gramsciano, comunista, leninista, trotskista, maoísta, proletarista estavam se tornando etiquetas retrógradas ou pior, uma marca de ferocidade. A exploração do homem pelo homem e a lógica da otimização dos lucros, que antes eram consideradas uma abominação, agora tinham voltado a ser em toda parte os pilares da liberdade e da democracia.” (p.425)
(…)
Esta é uma das tarefas mais difíceis da vida: demover alguém de seus “princípios” (ainda que sob argumentos de grandes autores) ou convencer alguém a mudar de opinião (quem assistiu a 12 homens e uma sentença sabe bem do que digo); mas se nada disso for possível, ao menos deixe clara sua posição, na medida que o melhor é não se render nem mentir para si mesmo afirmando: vou anular meu voto.
O homem é movido pela esperança. Mas também é chamado à ação. Justamente quando momentos como esses se aproximam, é hora da persuasão, de desmascarar os fakes, de orientar os perdidos a ter empatia pelo próximo e menos ódio, fazê-los aceitar cada um da forma que se é, isto é, fazer valer toda caminhada que nossos ancestrais engendraram para nos trazer até aqui. Ou outra mais incisiva que vale para todos nós de Ortega y Gasset, importante filósofo espanhol do século xx, “o vigor intelectual de uma pessoa é medido por sua capacidade de suportar dúvidas.”

Quando tudo parece ser uma imensa confusão, ler pode tentar ordenar o caos.

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