Paisagem com leitor

Uma paisagem só de livros não tem graça. Ela precisa de leitores e outros leitores para que assim a manhã seja tecida: luz-balão. Caminhava pela feira do livro de Ribeirão e ouvia nos fones de ouvido Beirut – culpa do Palermo Shooting do Win Wenders – pela música e pela mania de fotografar que se concretizava ali pelo espaço da praça do leitor. Há muito tempo namorei nas vitrines de lojas e na tela do celular uma câmera profissional e o tiro certeiro foi dado por um dos filmes mais malhados do alemão. Que bom que há tempo desconsidero muita crítica e sigo meu próprio caminho. Caminho este só possível por meio da leitura.

Susto maior foi ter conseguido algumas fotos legais, o ambiente estava propício, a praça em 2017, com a fonte, a concepção não apenas decorativa mas de reaproveitamento de objetos e espaços, como pneus, paletes, geladeiras e contêineres, davam o tom da paisagem. Ainda o domingo ensolarado e a presença de um público variado levaram tudo a uma atmosfera extremamente agradável.

Depois de assistir a uma fala espetacular de Chico César na Tenda Sesc, que falou sobre Estado de Poesia, seu mais recente disco, que entre as pérolas estão Atravessa-me e Reis do agronegócio, esta última estabelece relação surpreendentemente irônica com o patrocínio do evento em si, mas delineia perfeitamente o proverbial dístico “o homem e suas contradições”. Tivesse Chico mais presente nas escolas e nas periferias a discussão certamente seria mais profunda.

Um momento marcante foi quando a conversa sucumbiu ao flerte autoritário de nosso tempo, ele disse “o autoritarismo é a ausência de poesia”. Depois de muitos cliques, Chico deve ter notado a minha pouca discrição, saí dali satisfeito. Encontrei um coletivo de atores encenando trechos de textos literários, vestidos à romanesca e com livros às mãos, eram performáticos, usavam gestos largos e modulavam a voz como encantadores.

Mas a foto que mais me chamou a atenção foi uma que fiz sem querer, enquanto fotografava ambientes com livros em vista de registro e soma de ideias para uma possível feira na cidade em que vivo, eis que surge uma menina na minha tela, depois da foto batida, durou segundo, pois não a vi quando cliquei, vi apenas um vulto e ela brotou na tela perfeita. Deu vida a tudo.

Comecei a pensar, como a paisagem sem leitor perde tanto a graça. O que dá vida aos livros são os leitores, de que valem bibliotecas borgianas, infinitas se não existe a aventura do leitor. O segredo do sucesso do Brasil passa pela sedução de leitores, como se fossem flautistas encantadores, as escolas precisam de professores e educadores que executem esta tarefa.

Durante três anos e um bimestre fiz este trabalho com muito zelo numa escola estadual de ensino médio e pude perceber como a relação leitor-livro foi crescendo e as personagens viraram figuras de proa em minhas aulas por meio de grandes autores que dispunha o acervo da escola, ali eles conheceram o drama pessoal e familiar de Marcelo Rubens Paiva em Feliz ano velho e se encantavam com sua pungência de viver narrada tão belamente, a história do pai assassinado durante a ditadura militar foi outro ponto de destaque dessas aulas – alguns alunos tinham pela primeira vez conhecido por meio deste livro a noção de um governo autoritário e compartilhavam do sentimento da perda de um pai.

Mas a lista seguiu com Gabriel Garcia Marques e Relato de um náufrago e O velho e o mar de Hemingway, os quais foram um dos primeiros experimentos certeiros – geralmente esta era a primeira caixa do ano. Em seguida vinham os contos de Laços de família de Clarice Lispector e Antes do baile verde de Lygia Fagundes Telles e tantos outros, com um repertório bastante vasto do professor e do acervo pudemos variar, teve Herman Hesse, Sidarta e Demian, Admirável Mundo Novo de Aldous Huxley e Menino de Engenho do José Lins. Esperava chegar em breve a Machado e até usei alguns, como o belíssimo conto Pai contra mãe e cheguei a Guimarães Rosa, com o Primeiras Estórias e funcionou.

Em suma, recobro que a escola é um campo aberto a ser explorado, os alunos mais soltos, não apenas presos a aulas absurdamente teóricas, pode ser uma fórmula para combater a ojeriza ou o desprezo à leitura tão evidentes por onde quer que se anda.

Esta falta abre caminho aos pulhas, aos verdugos que assassinam o futuro do país. Deixa na mão de gente sem caráter, gananciosa, incompetente e maldosa, um país inteiro, que só precisa ler mais, levar a sério a escola e os livros para que deixemos de ser apenas uma paisagem no mapa a ser explorada. Para que sejamos protagonistas e comecemos por explorar nossos próprios potenciais.

Anúncios