“Antes as pessoas brigavam contra a ditadura. Agora brigam entre si.” Zuenir Ventura e Florestan Fernandes Jr debatem o Brasil em Ribeirão Preto

O teatro Pedro II esteve quase cheio para receber dois grandes nomes do jornalismo brasileiro em um momento crucial para o país e para o jornalismo. Florestan Fernandes Jr. começou com uma homenagem ao citar o amigo Alberto Dines (com quem realizou o projeto Histórias do poder) que morrera durante a tarde “É preciso reformular e pensar o poder no Brasil, ele dizia”. Depois logo quando enveredou pela política, disse “a política invadiu minha casa nos anos 60 a partir do golpe militar”. Ele também relembrou Antonio Candido, o melhor amigo de seu pai, o sociólogo Florestan Fernandes.

Ao comentar Histórias do poder pôde afirmar que durante anos de pesquisa conseguiu chegar, ao menos, a duas constatações acerca da história política do Brasil: sempre houve uma presença forte dos militares e as oligarquias mantêm o controle do país.

Assim que chegou de fato ao tema da mesa “1968 – o ano que não terminou”, resumiu “aquele foi um momento de ebulição. Contaminou o país e a utopia moveu a minha geração”. Ele relembrou o AI – 5, o fechamento do Congresso e, ao mesmo tempo, surgiu a lembrança do Festival de Música quando Sabiá venceu e foi vaiado, “os jovens queriam a música do Vandré”. Concluiu este primeiro momento dizendo que 1968 “foi um sonho interrompido “e que tem semelhanças com 2013.

Zuenir começou brincando “Eu vou terminar antes deste livro”. Depois continuou “1968 não é um ano, é um personagem que não quer sair de cena. Houve talvez outros anos mais importantes, mas não tão lembrado, festejado…”

Quem conhece a obra sabe que Zuenir tem várias ressalvas com relação a idealização daquele momento. Para isso o ilustra logo de início ao citar a epígrafe do livro em que cita Mário de Andrade – que se referia a geração dele e dos modernistas contemporâneos, Manuel Bandeira, Oswald e outros personagens brilhantes da semana de 22 – da seguinte forma “Não devemos servir de exemplo a ninguém. Mas podemos servir de lição.”
Ao mesmo tempo que havia a onipotência e a confusão das coisas e regras, a “geração que não tinha limite” deixou ao menos quatro legados positivos: os movimentos negro, de gênero, ambiental e feminista. Deste último Zuenir ressaltou as várias conquistas.

50 anos depois quando lhe perguntam como viver um novo 68, ele cita Caetano “Pra ser igual tem que ser diferente” E finaliza esta primeira parte aludindo a 2103 “Foi empolgante, mas aquele movimento se perdeu com a participação dos vândalos. Não se derruba o capitalismo quebrando caixa de banco e vidraça.”

Quando a conversa voltou a 68 e ao Regime Militar com Florestan Fernandes Jr, ele referiu-se ao período de Geisel da seguinte maneira “Com ele a truculência aumentou. Ele tinha o controle da repressão. Durante anos de ditadura mais de 30 bombas foram detonadas em bancas. Uma na OAB e outra no rio Centro”.

Produtor do Voz Ativa, programa de cobertura jornalística e debate, destacou alguns dados alarmantes veiculados sobre Fake News: “A mentira tem 70% de chance de ser espalhada. Atinge das redes sociais ao Whats app da família” e Zuenir completou “Fake news é o problema maior das eleições deste ano. Fake News não é notícia, é fake!” e finalizou dizendo que vivemos um período de excesso “informação demais é ruído”.

Florestan Fernandes e Zuenir discordaram sobre a liberdade da imprensa e a democracia. Quando Zuenir afirmou que não se pode tirar o crédito da cobertura jornalística “a imprensa é fundamental para a democracia”, Florestan tomou a palavra e escandiu “A grande imprensa faz política o tempo todo. O papel da imprensa é muito complicado no Brasil. Destrói as pessoas sem provas…”
Enfim o debate esquentou e Zuenir destacou “vivemos uma democracia incompleta, cheia de imperfeições. Sou como Churchill. Democracia tem que ser aperfeiçoada”. Elogiou” Graças a Lula e FHC a transição para a democracia foi possível”

Zuenir Ventura tentou ponderar todo tempo “Me incomoda a polarização e a intolerância mútua”. E afirmou “Antes as pessoas brigavam contra a ditadura. Agora brigam entre si.”

Ao aparecer o nome de Bolsonaro numa pergunta da plateia, houve uma longa e uníssona vaia. Zuenir disse nem citar o nome dele “para não apoiar este tipo de coisa”. Florestan Fernandes Jr. Citou o texto do pai em O fascismo na América Latina “Hitler e Mussolini perderam a guerra, mas o fascismo continua”.

O debate se encerrou com o educadíssimo Zuenir Ventura “Vamos manter este clima aqui, de tolerância e respeito, principalmente por quem pensa diferente”. “É muito fácil respeitar quem pensa com a gente. E o contrário?”

Ribeirão Preto lança debate que chacoalha o Brasil

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Fernanda Takai – música e literatura

Com dois passos bem decididos, a compositora, autora de livros infantis e líder da banda Pato Fu, subia para o palco do Sesc montado num tablado de madeira leve e clara para conversar sobre literatura, música e outras histórias da vida.

Embora de ascendência japonesa ela confessou tardiamente atentar-se a raiz de seus avós. Despertou-lhe a curiosidade quando leu Corações Sujos de Fernando Morais, livro que relata “a revolta da colônia japonesa”.

Falou muito sobre música entrelaçada à literatura. Em dado momento “a música nos traz emoção, nos faz lembrar de nossa história” em outro “Uso a música como forma de me concentrar. “Já escrevi esperando em aeroporto, ouvindo música no fone”.

“Quando as coisas ficam muito tempo na minha cabeça, ou viram música, ou alguma outra coisa”. Sobre a inspiração para o livro O cabelo da menina, ela conta que partiu de uma situação banal, a filha depois de uma noite de festa junina, acordou com o cabelo marcado pelas xuxinhas da personagem caipira e quis ir pra escola assim. Ela não deixou, mas a ideia circulou pela sua cabeça e daí nasceu o livro. Um sucesso da coleção Itaú. “O artista escreve a partir de suas experiências”, resume. “Gosto de fotografia, anoto o que me chama a atenção”. Suas influências na carreira de cronista (Não deixem de ler o texto Procura-se uma professora de violão) vão de Fernando Sabino a Rubem Braga, e ainda, “Drummond cronista além de poeta”. A carreira de Fernanda é perpassada pela literatura, ela cita a música A hora da estrela inspirada no livro homônimo de Clarice Lispector que virou trilha do filme Olhando para as estrelas,

No começo disse “Dê livro de presente para as crianças” e continuou “Devemos dar mais credibilidade à escola e à família”. No final, quando o evento esteve aberto a perguntas, a respeito do ódio nos dias atuais disseminado tão selvagemente pelas redes, ela respondeu o ódio é “a falta de jeito de entender e olhar “, depois comentou que se precisa aprender a olhar para os outros, com menos julgamentos, esquecendo um pouco de nós mesmos.

Fernanda Takai ainda respondeu a mais algumas perguntas e encerrou: posou para mais algumas fotos e autografou livros. Mais à noite ela iria apresentar com o Pato Fu o show Música de brinquedo 2.

Eu dei uma passada na feira em frente ao Pedro II, as atividades do Sesc estão mais uma vez muito bem boladas, um lance ecológico, bonito de se ver. Parece que a praça do leitor assim como as atrações da Feira deu uma minguada. Porém o trabalho, principalmente o Projeto Combinando palavras são as sementes que germinaram da história de 18 anos. Para o leitor que ainda não exige muito, a maior parte dos stands estão cheios de literatura infantil desenterrada e pechinchas a módicos dez reais que vão desde O pequeno príncipe – em quase todas as editoras – até o livro sobre Sérgio Moro. Os clássicos desapareceram mais um pouco. Também a parceria com as livrarias e os autores que participam das mesas devia ser mais evidente. Parece que ainda existe um longo caminho a percorrer. De um lado e de outro. O bom é que tem um monte de gente envolvida.

Fernanda e o enigma do olhar…mais pousado sobre a feira se vê uma instalação: homens de papelão com mensagem nas costas em meio a bancos de paletes reaproveitados reforçam a ideia de cidadania difundida pela Feira deste ano.