Uma mirada perscrutadora

Quando vi Veríssimo na Feira do Livro de 2017 ele acabara de completar 80 anos. É, até hoje, uma das mentes mais brilhantes de sua geração. Era a primeira vez que assistia ao vivo a uma mesa com o autor como protagonista, da outra vez o vi na Flip em uma entrevista com o dramaturgo Tom Stoppard. Porém parecia que já o conhecia há tempos, faz mais de 5 anos que leio semanalmente suas crônicas e para um professor de português é impossível não se lembrar das caricaturas, dos desenhos, ou não topar em qualquer livro didático de qualquer série, do 6° ao Pré-vestibular, com um texto do simpático autor.

A surpresa pra mim ficou por conta de sua mirada perscrutadora, para um fotógrafo amador foi petrificante como um olhar de medusa, não conseguia acertar enquadramento, ajustar o foco, combinar velocidade do obturador e abertura do diafragma a fim de capturar cada vez que ele me mirava, Veríssimo tem aquele olhar plácido que apenas as pessoas no alto de sua sapiência possuem. Certa hora, quando tive a sensação de ser o único fotógrafo no Pedro II e o tempo pareceu “congelar”, consegui “captar” sua mirada firme e sábia. De modo geral, depois de travar uma batalha com minha inapetência e com a figura do cronista a minha volta, consegui alguns cliques razoáveis e resolvi sentar para prestar atenção ao que dizia o grande mestre.

A mesa começou com a eterna pergunta a respeito da definição de crônica, que ele pontuou da seguinte maneira “a crônica é este meio termo entre o jornalismo e a literatura”. Ainda no início quando o mediador comparou a obra literária do pai do autor – o romancista Érico Veríssimo – à dele, ele imediatamente rebateu que, embora escritores, suas atividades em termos de gênero literário são extremamente diferentes “o romance é um transatlântico e a crônica é um barco à vela”, ponderou.

Ainda sobre literatura, ele disse àqueles ávidos por receitas para se tornar escritor que “Escrever é 90% transpiração e 10% desodorante “, ou ainda, num momento menos descontraído revelou “Não há outra maneira de aprender a escrever a não ser lendo”.

Durante a manhã, Veríssimo havia participado do sensacional projeto da Fundação Feira do Livro “Combinando palavras “que promove leituras para mais de mil crianças da rede municipal e depois um encontro com os autores na feira do livro: LFV, Zuenir Ventura, Loyola Brandão foram alguns dos privilegiados (e vice-versa) de ter seus textos lidos e comentados em salas de aulas durante todo um ano letivo. Parabéns a todos os envolvidos. São raros os projetos de leitura no Brasil e quando estes são bem-sucedidos, isto é maravilhoso. Zuenir disse um dia antes em uma mesa que aquele havia sido um dos momentos mais emocionantes de sua vida de escritor. Veríssimo disse “Há esperança”, “Nem tudo está perdido. Através do livro se descobre o mundo, se emociona…”

Logo depois sobre o mercado editorial ele destacou que “Não se formou ainda um mercado para a literatura no Brasil”. E, por isso, “são poucos escritores que vivem de literatura”. Ele disse que esta questão é econômica e reflete na cultura como um tudo. E ao fim sibilou “Há um descaso com a cultura em todo o país”.

Sobre o protagonismo das tecnologias ele brincou “só devemos nos preocupar quando os computadores escreverem textos sozinhos, serem autores”. E para os anunciadores do fim da literatura foi categórico “o texto sempre vai existir, o veículo é que pode mudar. Mesmo que o livro acabe, o texto e o escritor vão continuar”

Quando o debate enveredou pela política e foi questionado sobre o estado das coisas, respondeu à moda de Sócrates “Até que ponto um governo que foca o social vai encontrar resistência?” depois sobre as injustiças sociais seculares brasileiras ratificou o que disse anteriormente “Sempre vai haver resistência contra um governo que destaca a desigualdade”. E a respeito da crueldade do mundo contemporâneo, desmistificou e postulou que “a maldade vem desde Caim, não é uma novidade, é uma realidade humana”.

Depois de quase uma hora de bate-papo com uma plateia entusiasmada que lotou mais uma vez o Pedro II, o grande fã de Louis Armstrong, que aprendeu a tocar sax e criou uma banda de jazz – encerrou destacando “me criei numa casa em que havia livros, isso foi uma das melhores coisas que aconteceram comigo”.

Verissimo o ano passado durante a Feira do Livro no Teatro Pedro II em Ribeirão Preto

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