A alegria é ver os pássaros voarem

Quando acordei mais ou menos às 7h30 da matina, busquei no google a canção The air that I breathe do The hollies. É uma bela música para começar o dia. Fiz planos, mentalizei tarefas, previ leituras, todas depois da pedalada matutina. No entanto muitas vezes somos surpreendidos por eventos banais ou generalidades que merecem registro, que nos tiram dos trilhos automáticos cotidianos e lançam um desafio, sobretudo, do ponto de vista ético.

O que você faz quando encontra um animal numa armadilha? Quando alguém lhe pede ajuda? O sentido de viver trafega na resposta a essas perguntas.

Resumo da ópera: um bem-te-vi aterrissou numa armadilha de rato, uma cola resistente que eu havia armado, sem saber muito o que fazer, mas com esperança de poder ajudá-lo, retirei-o da enrascada e pedi ajuda, pois com aquela cola espalhada pela penugem ele dificilmente voaria. Minha amiga Priscila, bióloga recém- casada, logo me veio à mente e passei-lhe uma mensagem. Ela rapidamente veio ao meu pedido e, com seu marido, aplicaram óleo de soja para remover a substância, um trabalho bem cuidadoso – pena a pena – e o bem-te-vi, por sorte, não se machucara muito, mas seu coração batia acelerado. É uma ave bonita, há anos não ficava tão perto de uma, o contato com a natureza sempre nos emociona, parece nos oferecer um encontro impagável, aliás, dois: um com o acaso, outro com a responsabilidade. Depois do óleo, esquentamos duas bacias de água, para dar um banho no bicho, a primeira com pingos de detergente dissolvido, a segunda numa temperatura morna para mais um banho e retirar o detergente. No fim o soltamos, e ele voou, para nossa alegria.

Um dos meus autores preferidos é ornitólogo, observador de pássaros, Jonathan Franzen escreveu vários ensaios sobre aves, a caça ilegal, o sofrimento impingido pelo homem a esses bichos tão bonitos, sensíveis, que mostra a diversidade de vida no planeta e a maldade humana. Em O fim do fim do mundo https://www.newyorker.com/magazine/2016/05/23/jonathan-franzen-goes-to-antarctica, texto de memória em que ele conta sua viagem para a Antártida, ele relata que se um ser de outro planeta topasse com um pinguim imperial e um homem, certamente ele acharia o pinguim mais belo e evoluído que o hominídeo. Durante esse trabalho de mais de três horas, quando a esperança enchia nossos corações, sentimos tanto pelos animais que sofrem vítimas da ação do homem, me veio à cabeça a imagem de um pelicano coberto de petróleo quando um vazamento no golfo do México liquidou com a vida marinha de uma área gigantesca. Pensei em como devem sentir os ambientalistas e biólogos que correm para tentar salvar a vida das espécies local. Um misto de  tristeza e obstinação. Por isso e também pela queima do combustível fóssil que lança CO2 para a atmosfera e altera o clima do planeta, deveríamos exigir que se mudasse o paradigma da economia do petróleo. Ainda que as dificuldades sejam grandes, a decisão não se resume a fatores econômicos – e ainda se fossem, as perspectivas não são boas – mas ao futuro do planeta e da espécie.

Outra ideia que nos passou pela cabeça foi a respeito deste mundo maluco em que vivemos quando muitas vezes não assumimos a responsabilidade de fazermos algo de bom pelo outro. Eu disse a Priscila que poderia muito bem me livrar rapidamente do problema – afinal tinha um dia cheio pela frente e não queria quebrar minha rotina e ser incomodado. Porém, a felicidade é ver os pássaros voarem, e a chance de ver um pássaro voar novamente a partir de sua ajuda pode ser única, as duas combinadas, então, podem resultar numa sensação de dever cumprido.

Hoje com câmeras nas mãos pudemos inclusive mostrar isso aos colegas, amigos e divulgar as boas notícias. Num tempo em que notícias trágicas abundam e se fazem multiplicar pelas redes, espalhar as boas novas pode arrancar este pássaro triste de dentro de nós e enxergar os pássaros voando novamente. Alem disso, há quase sempre um dilema ético em questão. E depois de tudo, vale a pena agir com ética, perseverar, não desistir. Encontrar os amigos que compartilham dessa responsabilidade. Conhecer, informar-se e investir na ação. Eram mais de quatro horas da tarde e não havíamos almoçado. Entretanto ouvi de minha amiga bióloga “estou feliz”. Eu também estava. Falta a todos nós muito isso, cultivar os bons hábitos, assumir a responsabilidade, pensar no outros, evitar o ódio. Compreender a situação e fazer o melhor por ela.

Como diz a música ” às vezes só o que preciso é o ar que respiro e amar você”.
Este texto muito provavelmente de forma malfadada refere-se à crônica publicada no El País Brasil “A tristeza é um pássaro morto” do jornalista espanhol Juan Árias. O autor recebeu o prêmio de melhor correspondente internacional há alguns dias. Parabéns e muito obrigado.

Operação por mais vida e menos ódio

Billy Pilgrim, nosso bem-te-vi, espantou-se com a sorte que teve. Coisas da vida.

 

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