As narrativas da memória – sobre “Minha Luta”

“O tempo está como sempre esteve. É através do tempo que a existência se revela para nós. Da mesma forma, nos revelamos através de nosso estado de espírito, através daquilo que sentimos a cada momento. Não é possível conceber um mundo sem tempo, nem uma identidade sem sentimentos.”

O quarto livro da série Minha Luta de Karl Ove Knausgard segue nos arrastando até os locais mais distantes da memória do narrador: através de uma narrativa de coisas aparentemente banais e cotidianas, como uma visita a casa dos avós, os primeiros porres, o diálogo com a mãe, e outra mais marcante e profunda, como a paixão por Hanne, a vontade de ser escritor, o alcoolismo do pai e o divórcio na família.

É narrativa, acima de tudo, e talvez este seja um dos trunfos deste livro. O retrato é vívido, extremamente bem articulado e medido para “fisgar o leitor” – a todo momento nos deparamos com nossas próprias memórias e com o que fazemos com elas. Trata-se de um exercício penoso e muito interessante, extremamente rico, expormos nós mesmos às vulnerabilidades de nosso ser, e sujeitos a tentar enxergar com toda a luminosidade com a qual Karl Ove realiza neste livro. Lógico que esta parte é muito mais difícil e frustrante – mas, em outras palavras – o que vale é o que cada um consegue tirar de si próprio – um dos pontos mais importantes da arte é tentar aproximar o indivíduo de si mesmo, numa autoaprendizagem contínua, além disso há o catártico, o mergulho no âmago – lugar a que poucas obras nos fazem chegar.

E este é o local ao qual este norueguês nos leva, o fato é que nunca li nenhum livro autobiográfico tão pungente e prolixo como esse, são seis volumes, coincidência ou não, tem-se comparado seu calhamaço a Proust, também autor de seis volumes focados na memória no clássico ” Em busca do tempo perdido”. Antes de Karl Ove li a tetralogia napolitana de Ferrante e me senti tão sugado para dentro da história como este livro – e Ferrante é o antípoda de Karl Ove – pelo menos no que se refere a assumir a identidade pública de escritora. Do contrário, eles são autores contemporâneos que alcançam a façanha de fazer literatura como poucos fazem e numa eloquência e quantidade incríveis.

Outra viagem que Uma temporada no escuro ou como o título em inglês sugere com uma melhor metáfora – Dancing in the dark – é a musical. Karl Ove é apaixonado por música e deixa isso em cada página bem claro, sua chegada a Häfjord começa com The queen is dead, o tempo todo parece ouvir Remain in light dos Talking Heads e Echo and the bunnyman e não raro acrescenta comentários oscilantes sobre o Simple Minds e outras bandas que são cativantes. Em certo momento ele reflete ” porque na música não existe um significado, não existe um sentido, não existem pessoas, mas apenas atmosferas, cada uma delas com uma caracterítica própria, como se elas fossem caracterizadas simplesmente por ser aquilo que são, cultivadas sem corpo nem personalidade, ou melhor, como uma espécie de personalidade desprovida de pessoa, e em cada disco existe um número interminável dessas impressões de um outro mundo, que ressurgem cada vez que o disco é tocado. Eu nunca descobri o que me preenchia quando eu ouvia música, apenas que eu queria sempre mais daquilo.”

Tudo é muito rico e vibrante neste livro. Karl Ove nos dá a sensação de que escrever é fácil, coloca-nos a par do segredo da vida – aquele de que não há segredo nenhum. Ele desmistifica sem esvaziar de significado. Emociona sem ser piegas. Nos coloca face a face com o que há de mais enigmático em nós mesmos.

O conto de Hemingway ao qual ele se inspira para escrever seu primeiro conto é belíssimo. Aparece logo no início do volume 1 de contos do autor de Adeus às armas, chama Acampamento Índio e narra sob a perspectiva de um garoto “Nick”, alter-ego do autor, o parto que o pai vai fazer em uma índia. Vale muito a pena ler, Hemingway e sua escrita límpida e vívida é uma inspiração para esta obra do norueguês.

karl ove and yngve

Karl Ove à direita com o irmão Yngve em Bergen, 1990