Mais Florestan Fernandes menos Olavo de Carvalho

De que servem os dogmas? E o discurso doutrinário ou demagogo? Já disse em aulas a meus alunos e, cada vez mais, em tempos em que virou moeda corrente falsos líderes subirem ao salto e decretar o que ou como fazer, que a melhor pessoa para decidir sobre o que é melhor pra você, só pode ser você mesmo. E este é, antes de tudo, o príncipio da liberdade de que mais gosto, aquele do autoquestionamento, das respostas não fáceis, aliás, de mais perguntas de que respostas.

O documentário Trajetórias vem seguindo seu curso de despertar mais do que doutrinar, de questionar mais do que responder. Ele foi exibido pela primeira vez na Unesp – Araraquara, no mês de abril, sala 37 do departamento de Letras e Filosofia, com a presença de alunos de graduação, a professora de Farmácia Raquel Regina, Enedina e Seu João do assentamento Bela Vista, e a professora Silvia Beatriz Adoue, organizadora do evento JURA – Jornada Universitária em Defesa da Reforma Agrária. Ela também dá aulas na Escola Nacional Florestan Fernandes – uma honra conhecer um pouco deste projeto criado para atender jovens, adultos e crianças provenientes de Movimentos Socias com a função de discutir temas tão “mascarados” no país e formar cidadãos na acepção mais clara da palavra. Dentre tantas discrimações que existem no Brasil, aquela de considerar o MST um movimento de aproveitadores, invasores e, em última instância, por que não, bandidos – faz com que conhecer esta escola, nos deixe cada vez mais longe desta falácia e deste grande ímpeto destrutivo, que mistura intolerância com insensatez, reinante, infelizmente, nestes tempos obscuros no país.

Precisamos mais do que nunca deste tipo de evento, para nosso filme, por exemplo, ele caiu como uma luva, no entanto parece que o cinema de autor percorre uma linha diferente do cinema dito comercial. Essa separação que se acentuou nos últimos anos devido a vários fatores só é prejudicial, como se houvesse uma divisão entre entretenimento e arte, distração e reflexão, fato que tornaria as pessoas cada vez mais superficiais, vazias e em busca de uma satisfação rala que nada mais é do que uma forma de alienação e “imbecilização” humana. Ou então há pouco espaço ao cinema independente, se vale assim chamar, e muito ao comercial, produzido em escala industrial que não propõe muita coisa, além de repetição de fórmulas e pouco ou nada de conteúdo sob o pretexto de criar mais maniqueísmos e lutas, tiros e efeitos especiais animados intermináveis como o balde de pipoca e o refrigerante do super combo.

Eventos como o Jura são raros também no Brasil. Financiamento para fazer cinema e a exibição dele também não surgem aos montes. Acontece que o cineasta brasileiro precisa antes de tudo ser um forte, embora a plataforma Youtube e outras estejam aí para ditar o contrário, quando se fala em cinema e em forma de exibição, estamos falando de algo exibido para o coletivo e para o debate coletivo. A própria cerimônia de ir a uma sessão de cinema sempre propôs algo novo, como a cinefilia da nouvelle vague francesa e os cine clubes espalhados pelo mundo todo; daí sai o grande cinema mundial, pois ele, sobretudo, propõe a discussão, o debate, a formação, o encontro com o outro, com o conhecimento e com a realidade ao nosso redor. (Re)inventar o óbvio deve ser a regra; fugir do lugar-comum, do individualismo e partilhar devem pautar nossas experiências e nosso dia a dia.

Daí é preciso acabar com essa separação e iniciar um debate mais sério sobre o cinema, a cultura, a reforma agrária, a discriminação e tantos outros temas recorrentes na sociedade. Como a própria Enedina e outros alunos de pedagogia disseram, uma escola melhor, com proposta político pedagógica, livre da centralidade de governos e mais pautada na independência de sua gestão pode acender pequenas centelhas para espalhar essa ideia.

Por fim, foi um prazer enorme participar deste evento e saber que o documentário cabe bem também nesta realidade, pois o anacronismo – ainda que vivamos em um tempo em que se é mais citado Olavo de Carvalho que Florestan Fernandes – é o pavor de qualquer pessoa que pretenda lançar um debate e fugir do dogmatismo.

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Professora Silvia (no centro) – o melhor de se fazer filmes ou assistir a eles são os encontros que a partir deles acontecem

( foto Sérgio Galvão )

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