Dos filmes dentro do filme ( e a presença de Maria Moraes )

Conseguimos encontrar por acaso alguns participantes do filme Califórnia à brasileira, produzido por Beto Novaes e Chiquinho – até então a bíblia da greve de Guariba –  para nós, iniciantes do trabalho. Foi um dos nossos pontos de partida, me lembro de ter gelado ao perceber a pertinência do curta. Ele toca em vários assuntos e aponta no final para a mecanização e o enfraquecimento dos sindicatos rurais, nele aparecem Cidinho Barros em entrevista ao longo dos anos 90 e José de Fátima em uma gravação próxima à época da greve de 84 apenas. Numa das entrevistas com Zé ele me confirmou seu desconforto ” não vieram atrás de mim, por quê? O filme é do sindicato do Hélio” ( em várias conversas, sobram alfinetadas ao presidente da FERAESP e cabeça do movimento sindical pós-greve de Guariba).

Depois deste filme encontramos outro curta da dupla sobre os 20 anos da greve, cujo objetivo foi não apenas alertar sobre a pertinência da memória, mas também a obra culmina com a inauguração do salão do Sindicato Rural da cidade. O título é ” A memória em nossas mãos” deste conseguimos entrevistar o grevista hoje assentado Tio Bica e seu Geraldinho, que entrevistamos primeiro para depois reconhecê-lo neste filme. Vambeto quem participou da coincidência, os dois freqüentam a mesma igreja. Deste filme também usamos as cenas do dia 15/05. Desde às do início da manhã até o quebra-pau no final da tarde no bairro do João de Barro -são cenas revoltantes de violência.

Antes de iniciar as filmagens, falei com o Fê Sousa, para pedir ajuda. E ele no ato também me disse que já havia feito um filme com o pessoal do Cine Cauim de Ribeirão Preto, a direção é de CArlos Caxassa e a fotografia do Fê. Até então não atinava para as coincidências. O fato é que descobri no meio do caminho que a Greve de Guariba era muito mais complexa e importante, não apenas em termos de sacudir o país num momento bem diferente do agora, mas também no que se refere ao nascimento de um espírito de mudança, guiado pelas idéias marxistas, e fundado na idéia de esquerda que havia na época: exemplos claros são as greves sindicais no ABC paulista, que entre outras coisas, alavancou o nome de Lula a patamares inesperados, esses movimentos se opunham a grandes poderes da classe conservadora e impulsionaram o desenlace da ditadura militar, também a partir deles ou concomitante floresceram os partidos democráticos e mais à esquerda, o partido dos trabalhadores. Encontrei Fê em um momento diferente da história, no entanto, o curta O bóia-fria já sinalizava para a exploração do trabalhador e para a violência policial.

Um dos curtas mais enigmáticos é o que revela imagens que sempre me chamaram atenção antes de elas existirem, senão em minha imaginação e graças a poucos frames dos filmes de Chiquinho e ao desconhecido e excelente trabalho fotográfico de Carlos Fenerich. As cenas das assembléias estão presente em A classe que sobra, citado na obra O conflito social de Guariba do professor Alexandre Marques Mendes. A direção é de Peter Overbeck, alemão radicado no Brasil, fotógrafo de alguns longas dos anos 60 e 70, fato que paira como uma aura de mistério. Até hoje não consegui descobrir muito sobre a obra além de assistir a ela. De viés praticamente Marxista, ele revela o pensamento de um tempo em que o Brasil reescreve sua história com indignação, luta sindical e política. Há uma trilha original maravilhosa, a exibimos em nosso documentário e embora cite Guariba, a maior parte das cenas se passam na região de Piracicaba, outro centro canavieiro de grande relevância no cenário nacional.

Por fim, mas não menos importante, num desses encontros da vida e entre as andanças que Vambeto e eu fizemos a fim de divulgar o romance Realidade Nordestina, conhecemos a professora Paula Scanuela, muito engajada em projetos similares, que nos apresentou o doc O facão de ouro, que  apresentou-me pela primeira vez ( pelo menos audiovisualmente) a Maria Aparecida Moraes, professora da Ufscar, estudiosa das questões que envolvem o bóia -fria e, portanto, conhecedora da realidade político-econômica de nossa região. Ela vem somar aos estudos da outra Maria, a D’ Incao, uma pioneira, e para quem acompanha este blog, presente em um post de algum tempo.

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Um comentário sobre “Dos filmes dentro do filme ( e a presença de Maria Moraes )

  1. Professora?! Professores…eu e você! Colegas, companheiros nessa caminhada pela educação, né?! 😉 Abraço grande!

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