A presença da Consciência Negra em Guariba

No dia 20 de novembro de 1695 finalmente o quilombola chefiado pelo mais proeminente de seus líderes caía. Zumbi dos Palmares foi morto pelas mãos bandeirantes para entrar na História. Ou pelo menos deveria ser assim. O fato é que Zumbi ainda permanece oculto para muitos cidadãos brasileiros; no entanto, semelhante a uma sombra que paira sobre o mundo contemporâneo, depois de mais de 300 anos seu nome ainda é invocado frente a tantas injustiças sociais que a população vivencia diariamente.

O professor de capoeira José Nilson Santana é mais uma prova da presença de Zumbi. Há mais de 20 anos ensina capoeira em Guariba, vários jovens da cidade já treinaram ou dezenas deles ainda jogam capoeira três vezes por semana no espaço dedicado a esse fim em um salão na antiga estação ferroviária do município. Esta sexta-feira da consciência negra, ele preparou um momento especial e, antes do jogo, tive o privilégio de conversar com toda a turma a respeito da data. Como professor de Língua Portuguesa não pude deixar de reverenciar nosso maior escritor de todos os tempos, Machado de Assis, neto de escravos e mulato, que com ironia e perspicácia fugiu de qualquer estereótipo de cor para se firmar no panteão dos escritores mais originais de todos os tempos. Machado não fugiu do tema da escravidão em suas obras, muito pelo contrário, escreveu entre outros o conto Pai contra mãe,(http://www3.universia.com.br/conteudo/literatura/Pai_contra_mae_de_machado_de_assis.pdf)obra inaugural da seleção de Ítalo Moriconi para a seleta ” Os cem melhores contos brasileiros do século” . Li o trecho inicial do conto em que brilham a ironia e a crítica social machadianas. Todos ficaram de ouvidos atentos aos métodos de castigos aos quais os escravos fujões eram submetidos – chamou especial atenção a máscara de Flandres “Tinha só três buracos, dous para ver, um para respirar, e era fechada atrás da cabeça por um cadeado…Era grotesca tal máscara, mas a ordem social e humana nem sempre se alcança sem o grotesco, e alguma vez o cruel. Os funileiros as tinham penduradas, à venda, na porta das lojas. Mas não cuidemos de máscaras.”

E realmente o conto vai muito além das máscaras, como o próprio título sugere , a história se desenrola num misto de tensão e expectativa para o leitor, enfim mais um conto magistral e imperdível de Machado.

Depois foi a vez do Contramestre Pixe soltar a voz, tocar o berimbau e a roda mais democrática e significativa iniciar o jogo de capoeira. Aí a atmosfera entra em ebulição e parece que somos transportados à época em que aprender capoeira era não apenas questão de vida ou morte para os escravos, mas sobretudo um símbolo da resistência e da luta. Ela é o marco sócio-cultural genuinamente brasileiro. Embora o movimento Capoeira Angola seja fortíssimo, foi no Brasil que esta arte adquiriu contornos essenciais e por isso foi classificada pela Unesco como Patrimônio Imaterial da Humanidade.

São pessoas como José Nilson que mantêm este patrimônio e história vivos e é uma lástima saber que durante todos esses anos pouco no nosso município se tenha feito para ajudá-lo nesta empreitada. Embora saibamos que ainda existe o preconceito contra a capoeira e os capoeiristas, não se pode admitir que uma visão medieval, isto é, confundir capoeira com bruxaria, ainda impere na mente de alguns educadores e sufoque o trabalho que Nilson tem para oferecer nas escolas. Há alguns anos conversamos com varias autoridades municipais, como prefeito, vereadores, secretários de gabinete e tudo que recebemos foram promessas não cumpridas. O que revolta é que enquanto projetos sociais como esse são abafados, nossa sociedade, principalmente negros de periferia sofrem, vítimas da violência, da droga, da falta de cultura que uma escola mais aberta para a comunidade deveria oferecer. Hoje em dia, os currículos fechados dopam a mente de muito educador ordinário, que por sua vez, poda o diálogo mais franco com a sociedade.

Uma pena, mas mantenhamos a esperança, há muitos alunos jovens.Há dois meninos, por exemplo, o filho de Zé Nilson, Matheus, não perde nenhuma aula de capoeira do pai, carrega no DNA o prazer do jogo e o Ruan, tão adolescente como Matheus, foi meu aluno no Ensino Fundamental durante um ano e também pude comprovar sua evolução com um adendo: neste dia ele me confessou que adora escrever e, aproveitando a ocasião, pedi para que ele escrevesse sobre este dia tão especial:

Dia da Consciência Negra

“Hoje, meu dia foi bem cheio… Bom o meu e de mais um monte de gente. Nós do grupo “Chipaia De Ouro” resolvemos passar esse dia tão histórico em ritmo de alegria e paz. Um dia de muita importância, mas que infelizmente muitos sequer sabem o porquê dessa data virar feriado, mas hoje reservamos nosso tempo para discutir sobre esse assunto. Começamos com um bate-papo sobre Zumbi Dos Palmares e o racismo, que infelizmente é a nossa realidade social. Também abordamos o assunto “literatura” quando se falou de Machado De Assis, afinal um dos maiores escritores do mundo e que escreve bastante em suas obras sobre a escravidão . Depois dessa conversa ,começamos a capoeiragem e fizemos a típica roda. Que energia boa ! Não troco por nada, capoeira é fonte de paz e harmonia e por isso deveria ser mais reconhecida no nosso país.”

Valeu Ruan, Matheus, Nilson e todos os participantes,

o recado está dado.

Axé !

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Um espaço para todos: capoeira é fonte de paz e harmonia

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Dos filmes dentro do filme ( e a presença de Maria Moraes )

Conseguimos encontrar por acaso alguns participantes do filme Califórnia à brasileira, produzido por Beto Novaes e Chiquinho – até então a bíblia da greve de Guariba –  para nós, iniciantes do trabalho. Foi um dos nossos pontos de partida, me lembro de ter gelado ao perceber a pertinência do curta. Ele toca em vários assuntos e aponta no final para a mecanização e o enfraquecimento dos sindicatos rurais, nele aparecem Cidinho Barros em entrevista ao longo dos anos 90 e José de Fátima em uma gravação próxima à época da greve de 84 apenas. Numa das entrevistas com Zé ele me confirmou seu desconforto ” não vieram atrás de mim, por quê? O filme é do sindicato do Hélio” ( em várias conversas, sobram alfinetadas ao presidente da FERAESP e cabeça do movimento sindical pós-greve de Guariba).

Depois deste filme encontramos outro curta da dupla sobre os 20 anos da greve, cujo objetivo foi não apenas alertar sobre a pertinência da memória, mas também a obra culmina com a inauguração do salão do Sindicato Rural da cidade. O título é ” A memória em nossas mãos” deste conseguimos entrevistar o grevista hoje assentado Tio Bica e seu Geraldinho, que entrevistamos primeiro para depois reconhecê-lo neste filme. Vambeto quem participou da coincidência, os dois freqüentam a mesma igreja. Deste filme também usamos as cenas do dia 15/05. Desde às do início da manhã até o quebra-pau no final da tarde no bairro do João de Barro -são cenas revoltantes de violência.

Antes de iniciar as filmagens, falei com o Fê Sousa, para pedir ajuda. E ele no ato também me disse que já havia feito um filme com o pessoal do Cine Cauim de Ribeirão Preto, a direção é de CArlos Caxassa e a fotografia do Fê. Até então não atinava para as coincidências. O fato é que descobri no meio do caminho que a Greve de Guariba era muito mais complexa e importante, não apenas em termos de sacudir o país num momento bem diferente do agora, mas também no que se refere ao nascimento de um espírito de mudança, guiado pelas idéias marxistas, e fundado na idéia de esquerda que havia na época: exemplos claros são as greves sindicais no ABC paulista, que entre outras coisas, alavancou o nome de Lula a patamares inesperados, esses movimentos se opunham a grandes poderes da classe conservadora e impulsionaram o desenlace da ditadura militar, também a partir deles ou concomitante floresceram os partidos democráticos e mais à esquerda, o partido dos trabalhadores. Encontrei Fê em um momento diferente da história, no entanto, o curta O bóia-fria já sinalizava para a exploração do trabalhador e para a violência policial.

Um dos curtas mais enigmáticos é o que revela imagens que sempre me chamaram atenção antes de elas existirem, senão em minha imaginação e graças a poucos frames dos filmes de Chiquinho e ao desconhecido e excelente trabalho fotográfico de Carlos Fenerich. As cenas das assembléias estão presente em A classe que sobra, citado na obra O conflito social de Guariba do professor Alexandre Marques Mendes. A direção é de Peter Overbeck, alemão radicado no Brasil, fotógrafo de alguns longas dos anos 60 e 70, fato que paira como uma aura de mistério. Até hoje não consegui descobrir muito sobre a obra além de assistir a ela. De viés praticamente Marxista, ele revela o pensamento de um tempo em que o Brasil reescreve sua história com indignação, luta sindical e política. Há uma trilha original maravilhosa, a exibimos em nosso documentário e embora cite Guariba, a maior parte das cenas se passam na região de Piracicaba, outro centro canavieiro de grande relevância no cenário nacional.

Por fim, mas não menos importante, num desses encontros da vida e entre as andanças que Vambeto e eu fizemos a fim de divulgar o romance Realidade Nordestina, conhecemos a professora Paula Scanuela, muito engajada em projetos similares, que nos apresentou o doc O facão de ouro, que  apresentou-me pela primeira vez ( pelo menos audiovisualmente) a Maria Aparecida Moraes, professora da Ufscar, estudiosa das questões que envolvem o bóia -fria e, portanto, conhecedora da realidade político-econômica de nossa região. Ela vem somar aos estudos da outra Maria, a D’ Incao, uma pioneira, e para quem acompanha este blog, presente em um post de algum tempo.