Reinaldo Moraes e a epopéia literária de nosso tempo

Reinaldo Moraes pode não estar no panteão dos best-sellers nas livrarias brasileiras. Mas seu romance Pornopopeia está muito além de qualquer sucesso passageiro na atual literatura das megastores.

Engraçado, envolvente, sexualmente bukowskiano, são incontáveis as qualidades do livro, às vezes, confundimos Reinaldo e Zeca. A quem é quase iniciante da literatura do mestre, minhas referencias são alguns textos muito engraçados na Piauí – sua porno-homenagem a Wolinski, seu último telefonema a Cortàzar e algumas traduções – é bastante difícil e tolo fazer tais afirmações, porém o que é legal neste livro é o quanto é realístico-filosófica esta idéia do artista fracassado e metido a intelectual – e a muita liberdade sexual – que parece fazer parte do mítico da figura de autor.

Com Pornopopeia, Reinaldo, no entanto, concretiza o desejo de alguns aspirantes a artista, escreve um clássico de nossa literatura contemporânea, abusa de uma linguagem riquíssima, não só da galera paulistana descolada em todos os aspectos. Ele cria neologismos interessantíssimos, como o próprio título sugere, faz associações e hibridismo de palavras, emprega estrangeirismos com grafias audaciosas e inteligentes, imaio para email, long-neck, sexygenária, catso, por supuesto, e tantas outras técnicas que muito enriquecem o romance e a relação com o leitor, pra mim o vocabulário foi muito familiar (!), moro no interior de SP. Mas imagino os leitores das várias regiões do Brasil. Sem dúvida, Pornopopeia rompe todas estas fronteiras.

Mas voltando ao enredo vale perguntar: Quem nunca embarcaria numa surubrâmane com a Sossô, amiga da filha de 18 anos do melhor amigo, e o amigo maluco tocador de cítara?

Em uma maluca viagem noite adentro, regada a muita cerveja, old eight falsificado, droga e sexo, o leitor vai se encontrando com os devaneios de Zeca em busca de idéias para seu vídeo institucional de uma fábrica de embutidos de frango.

Logo nas primeiras páginas o título audaz começa a fazer todo o sentido. Pornopopeia é imperdível: um dos romances mais originais dos últimos anos ( décadas ) da literatura brasileira, um tratado engraçadíssimo e revelador sobre essa coisa enfadonha e politicamente correta que é a interpretação do sexo, como pecaminoso – pelo menos aos olhos mais caretas e vigilantes – dessa nossa sociedade.

Em Pornopopeia tudo é grandioso, a começar pelo romance de bolso de 660 páginas que arremessado de forma certeira em algum desses vigilantes da hipocrisia, causaria um nocaute bem merecido. Mestre em Cortázar e nos beatniks, Reinaldo se vale de técnicas narrativas bem construídas ao mesmo tempo que dialoga com o hipotético leitor a respeito do que escreve, Pornopopeia se tornaria um roteiro de cinema da vida do narrador, um recurso metalinguístico que, às vezes soa estranho, às vezes compreensível dada a ânsia megalomaníaca de transformar em arte tudo que faz o protagonista Zeca.

Os personagens também são delirantes, não perca o deleite da velha estalajadeira, ou a gracinha da caiçara dentucinha, ou ainda a cena em que a torta de Portnoy se transforma numa lula, tudo muito escatalógico, de rolar de rir.

Uma delícia de leitura, não se ri tanto com a literatura brasileira há tempos. As barbas da seriedade ficam de molho enquanto estamos próximo de Reinaldo, cronista engraçadíssimo, que retorna à arte do romance com muita lucidez ao apresentar uma obra holisticofrênica, como o maior sucesso cinematográfico de Zeca. Um produto de nosso tempo, sem dúvida, como se prega na contracapa do livro.

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