A arte do romance nas escolas

Já não estranho mais a confusão que meus alunos, muitos do terceiro ano do Ensino Médio, fazem com o significado da palavra romance quando empunho alguns em mãos para apresentar a eles no início do nosso projeto literário, “A leitura das grandes narrativas”. Explico romance como gênero literário narrativo; diferente da acepção: uma história de amor, mais usual nas caras e bocas dos adolescentes ( ainda bem !)nesses intermináveis tempos do cólera.

É incrível ( e triste )como uma arte tão apreciada e importante para nossa sociedade continue tão longe das escolas, e muito possivelmente, da vida das pessoas que já não estão mais nelas. Se o Brasil quiser reverter este deficit escolar gigantesco, terá que incentivar, sobretudo, a leitura desta arte narrativa que nos brindou com o que há de melhor na combinação história-filosofia-invenção.

Além disso, os romances devem ser lidos também porque geram a concentração em estado máximo, a capacidade de construir uma seqüência narrativa, o convite à reflexão, a abordagem íntima com as personagens e consigo mesmo, a compreensão do período histórico, e a lista seguem além…

Há uma certa tendência a desmerecer este trabalho em sala de aula (eu também escolheria ler num amplo parque ou à sombra de frondosas árvores, ou mesmo em casa), mas a única opção que tenho é a leitura na sala de aula em silêncio ( uma das poucas formas ainda de o fazer sem ameaças e impropérios). Da mesma forma, posso garantir a leitura de todos os alunos a um só tempo.

No primeiro bimestre deste ano, a caixa conteve romances de Fernando Sabino, Marcelo Rubens Paiva, Ernest Hemingway e Daniel Defoe, além dos contos de Clarice Lispector do livro Laços de família. Deu certo o trabalho pelo segundo ano consecutivo, alguns alunos ficaram um pouco perdidos, mas no geral todos aprenderam bem. Eu finalizei-o pedindo uma pesquisa sobre os autores para avaliação. Percebi que ensinar a pesquisar é ensinar a não fazer cópia, em primeiro lugar. Ou se a fizer, pelo menos ler e organizá-la de modo diferente na sua ” pesquisa”.

No mais, os romances perduram desde o século XIX; é uma arte nobre e um dos ofícios mais difíceis de se concretizar: primeiro porque é um trabalho intelectual ao alcance de poucos, segundo porque há de se ter o talento desperto e, terceiro, há cada vez menos leitores dispostos a “perder” seu precioso tempo de prazer imediato numa reflexão mais profunda.

Vambeto Gomes de Jesus, o autor de Realidade Nordestina, vem pelo menos abrir uma brecha nesta terceira regra se pensarmos no leitor brasileiro não como aquele que freqüenta megastores em busca de bestsellers, romances comumente tão vazios quanto insípidos, mas no leitor mais humilde, aquele brasileiro esquecido para o mundo editorial não freqüentador de shopping center: aquele que trabalha como um louco e tem que estudar na educação de jovens e adultos a fim de recuperar aquilo que o governo brasileiro não oferecia e, para as crianças de agora oferece tão parcamente. Para este leitor o livro de Vambeto é um deleite, isto já provamos em tantas escolas por que passamos.

Será que há mais público?

Em vista de meu trabalho nas escolas públicas de São Paulo, acredito que sim. Há um mar de leitores nas escolas à espera de programas mais efetivos de leitura que consigam conquistá-los. A maior parte de meus alunos fica encantada com os romances de Fernando Sabino, Marcelo Rubens Paiva e Vambeto Gomes de Jesus.

Por isso A arte do romance nunca irá morrer. Pode ser que tenhamos menos leitores em vista da falta de incentivo ou desses arroubos de megastores, no entanto, enquanto houver romancistas, haverá leitores.

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O desatino da rapaziada : Fernado Sabino, não deixe o romance morrer.