O Nordeste é aqui

Nosso documentário Trajetórias, 30 anos depois da greve de Guariba já vem cantando a bola há muito tempo do preconceito velado que existe não apenas sobre a greve de 1984, mas, sobretudo, sobre a figura do nordestino. Meus maiores amigos, hoje, são nordestinos, já citei aqui o escritor, dentre tantas atribuições , Vambeto Gomes de Jesus e o capoeirista José Nilson Santana. Além disso muita gente sabe que é nas diferenças que nos completamos, que nos tornamos melhores e maiores e esse papo de andar só com gente que tem as mesmas idéias que você é sinônimo de insegurança e, no mínimo, falta de criatividade.

Na minha adolescência até existia uma brincadeira sobre o adjetivo de que quem nasce em Guariba, é Guaribaiano, não fosse piada de criança, soaria ofensivo e para quem tem bom humor, nos tempos atuais vale até como uma justiça a esse povo que trabalhou tanto e colaborou para a evolução não apenas de minha cidade mas de todo o estado paulista.

Nos debates na TV quando via alguns candidatos dizendo ao outro ” você precisa estudar” , na verdade o que pensava era ” vocês precisam oferecer uma educação melhor aos seus cidadãos, crianças e jovens, principalmente. Sei que vocês já estudaram bastante e estão apenas participando de um joguinho sobre o que posso ou não dizer”

Ao mesmo tempo, o que se proclamou nas redes sociais em alto e bom som, além de mostrar a estupidez e a intransigência, em seu maior requinte e asco, também provou que o projeto educacional brasileiro precisa de uma reviravolta e fugir de estereótipos e desse modelo malfadado e fracassado de anos, do contrário, continuaremos ofendendo uns aos outros com mensagens preconceituosas e até agressões, como tem ocorrido recentemente.

Apenas a educação ou projetos que recuperem a história de nosso país, principalmente dos últimos 35 anos, não num viés nacionalista e retrógrado, mas de forma a debater, primeiro, as perdas e ganhos, pode nos devolver o essencial.

Em segundo lugar recuperar a história sob um novo conceito, a da luta trabalhista no final dos anos 70 , seria uma boa pedida, ou ao menso mais justa. Hoje em dia, muitos alunos saem da escola sem saber nem ao menos o que foi a Ditadura Militar no Brasil, quanto mais questões sindicais ou constitucionais no decorrer dos anos 80 e 90.

Somado a isso, nosso projeto de recuperar a história local é essencial para entendermos quem somos, o que nos domina e como tornar essa relação mais justa oferecendo oportunidade para todos.

Nossos empreendimentos estão lançados: o debate do romance Realidade Nordestina de Vambeto, o documentário, a exposição e foto-livro: Trajetórias, 30 anos depois da greve de Guariba são apenas o início da luta em um contexto de preconceito tão arraigado, e dissimulado na falta de educação que nos preocupa e que ao mesmo tempo nos oferece o combustível necessário, e limpo – espero – de qualquer simplismo e visões extremistas , o qual nos permita encher nosso tanque e oferecer um caminho e um grande espaço ao nosso lado para quem quiser vir junto.

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O mapa das eleições presidenciais, mais eu e Vambeto na faculdade São Luís no início de 2013. Já estamos tocando o livro Realidade Nordestina há muito tempo e continuaremos…a propósito, esqueçamos as fronteiras: somos vários e uma nação única que percorre toda a América Latina.

Citar é citar-se

A frase acima é do grande escritor argentino Júlio Cortazar, autor do romance O jogo da amarelinha e de vários livros de contos. O cronópio completaria 100 anos em 2014 se estivesse vivo, em seu lugar, no entanto, legiões de fãs celebram no mundo todo a obra imortal daquele escritor que celebrou tão bem os grandes autores citando ou reinventado-os incansavelmente. Pois o mestre literário tinha razão. Somos aquilo que citamos, que conhecemos e aprendemos durante toda a vida e nada melhor do que ter em nossa companhia grandes pensadores, poetas, filósofos, enfim, toda gente do bem, inclusive os velhos tios e avós sábios que repetem tantos provérbios e ditos populares, os quais se multiplicam indefinidamente pelo tempo.

Além disso, Cortazar também sabia que na natureza “nada se perde tudo se transforma” e ele, o exemplo de leitor voraz ainda sem título acadêmico, fora convidado em início de carreira a dar aulas em uma Universidade devido ao conhecimento indevassável. Saía na frente de outros mais graduados por seu vasto repertório intelectual adquirido por meio de muita leitura, estudo e prazer.

Porque colecionar frases ou tê-las na memória assim como ler livros são prazeres indissociáveis ao homem desde que esse “se pensou” na Antigüidade Grega, Aristóteles afirmava ” todo homem por natureza deseja conhecimento”.

Nosso filme é o filme das citações, decerto desde o início do trabalho, há mais de dois anos, o primeiro passo foram as pesquisas, arquivos de jornais hoje digitalizados, livros acadêmicos etc foram as primeiras referências, porém o que é legal numa obra aberta como a nossa é a possibilidade da divagação, e muito já se divagou sobre o tema. Uma das primeiras fontes artísticas foram as músicas de Zé Ramalho, as clássicas Admirável gado novo ( quem não se lembra da novela com a Patricia Pillar) e A terceira lâmina, extraordinária; referências literárias também foram de freqüência diária, desde alusões bem próximas, como as de algumas colunas de José de Sousa Martins no jornal O Estado de São Paulo até outras mais periféricas lendo Salman Rushdie e O último suspiro do mouro, Shakespeare, Fernando Pessoa, Ferreira Gullar, Tolstói, Vambeto Gomes de Jesus e tantos outros. Logo, todo trabalho é fruto de outros, pois tudo se transforma.

O cinema é um amálgama de várias formas de arte e uma forma única também de expressão subjetiva, pode oferecer a uma platéia inteligente o momento poético, sublime.

Difícil dizer a que mais nos inspira, porém, sem dúvida, ficam guardadas em nossos corações muitas. Eis uma:

Brutus:
There is a tide in the affairs of men.
Which, taken at the flood, leads on to fortune;
Omitted, all the voyage of their life
Is bound in shallows and in miseries.
On such a full sea are we now afloat,
And we must take the current when it serves,
Or lose our ventures.

Julius Caesar Act 4, scene 3, 218–224

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Cortázar: que venham mais cem anos