Paris é uma festa

Como admirador da literatura mundial, há muito leio por entre essas páginas esparsas do cotidiano literário a citação de Ernest Hemingway como um dos grandes nomes do século XX. Na Flip quando acompanhei de perto o bate-papo entre Veríssimo e o dramaturgo Tom Stopard, não pude esquecer a resposta deste, de uma classe inatingível, acerca da pergunta ” qual seu livro preferido?”

– Qualquer coisa de Ernest Hemingway, o tipo de linhas literárias que qualquer um se sentiria feliz em ter escrito.

Anos depois, me deparei com o autor norte-americano pra valer, ao ler O velho e o mar. Vamos dizer que não senti toda a coisa a princípio e é nesse ponto que a história começa. Já disse que no bimestre passado ao reler a obra com meus alunos meu primeiro assombro surgiu ” alguns livros se tornam melhores a cada releitura”, pude sentir toda a força narrativa daquela história e perceber como aprendemos dando aulas.

Mas este bimestre a surpresa foi ainda maior. Paris é uma festa é, sem dúvida, um deleite para a alma e uma viagem pelos recônditos artísticos mais excêntricos e apaixonantes sobre os quais alguém já tenha escrito sob o céu de Paris. Os alunos que embarcaram nesta aventura estão se deliciando e entendendo não apenas como é a vida de um escritor até então desconhecido do grande público, mas também a de um ser humano com uma ânsia de viver tudo que a vida lhe proporciona. Tudo isso com tanta classe ao escrever, que apenas uma obra autobiográfica, um estudioso da arte e escritor-feliz podem proporcionar.

Porque Hemingway antes de tudo estava muito feliz em Paris. E muito bem acompanhado, além de uma esposa compreensiva e, às vezes, complacente ( cúmplice ) desse amor. Além dela, amigos não lhe faltavam: Gertrude Stein, Ezra Pound, Scott Fitzgerald, dentre tantos outros, ajudaram a cunhar a expressão do mecânico de Miss Stein “geração perdida” e servem, indefinidamente no tempo, de inspiração para qualquer jovem escritor.

O recado para a sala está dado. Muitos compreenderam a emoção de viver e descrever com paixão o vivido. No capítulo “Com Pascin no Dôme” ele nos brinda com o seguinte comentário sobre o amigo:

“- Então vá – disse Pascin. – E não se apaixone pela máquina de escrever.
– Se isso acontecer, escreverei a lápis.
– Pois é, amanhã vai ser na base da aquarela – disse Pascin. Voltou-se para as meninas e prometeu:
– Tomarei mais um e depois levarei vocês para jantar onde quiserem.
– Chez Viking! – sugeriu a morena.
– Topo! – disse a loura.
– Muito bem – disse Pascin. – Boa noite, jeune homme. Durma bem.
– Desejo-lhe o mesmo.
– Elas não me deixam descansar – disse ele. – Não durmo nunca.
– Durma hoje.
– Depois de Chez Les Vikings?

Fez uma careta, com o chapéu escorregando para trás.
Parecia mais um tipo da Broadway no fim do século do que o excelente pintor que era. Tempo depois, quando se enforcou, não me saía dos olhos essa imagem de Pascin, quando estivemos juntos no Dôme. Dizem que as sementes do que seremos um dia nascem conosco, mas sempre me pareceu que aqueles que não levam a vida totalmente a sério têm as sementes cobertas por um solo generoso e bem adubado.”

Para meu ceticismo frente a algumas questões do autor, tudo se desmanchou no ar, e mesmo ao ler sobre a grandeza inquestionável de Scottie, esta minha contestação sobre o valor de Hemingway só serviu para mostrar que a literatura é um prazer idiossincrático e que, desde que você esteja lendo os melhores, esse lance de classificação ” qual é o melhor” é tão seguro quanto apostar em cavalos dopados numa primavera sem fim em Paris.

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