ENTREVISTA COM O PROFESSOR

Por esses dias tive o privilégio de receber uma ex-aluna e que agora está para se graduar em Letras pela UNESP De Araraquara, para acompanhar minhas aulas em seu estágio. Muito bom receber você, Isadora.

Lógico que como somos muito bobos, às vezes tememos este tipo de visita, mas tudo que vem para somar deveria não nos amedrontar, mas motivar, é o que penso ao responder a suas questões.

De modo geral, sinto muito a falta das grandes universidades de São Paulo mais próximas da Educação Básica, em vista da catástrofe anunciada há anos já. Lógico que a produção científica é numerosa e nos ajuda muito, mas precisamos do apoio dos professores universitários, sobretudo, em questões básicas e essenciais, que tanto já discuti aqui neste pequeno espaço.

Precisamos, é lógico, nos unir também, coisa difícil de acontecer, principalmente porque não temos um sindicato mais sólido nem professores com postura crítica frente aos problemas; a fragmentação dos professores em categorias: efetivo, O, F etc também contribui para essa falta de união.

A seguir, numa pequena entrevista, a Isadora conseguiu sintetizar o que penso acerca da educação e, é evidente, das minha motivações pessoais.

FORMAÇÃO

1- Em que ano você se formou e há quantos anos leciona?
2002, faz 11 anos.

2- Você tem nível superior? Onde cursou?

Faculdades São Luís de Jaboticabal.

3- Por que você optou pelo Curso de Letras?

Porque poderia trabalhar meio período na EB com um salário até então razoável e no período adverso me dedicar a outros interesses, como o cinema e o jornalismo.

4- Você acha que a fundamentação de conteúdo específico e conteúdo pedagógico que recebeu na faculdade/universidade tem sido suficientes para elaborar suas aulas?

Não, aliás, muito pouco, a formação universitária foca muito pouco no trabalho diário do professor, além disso, o debate sobre a EB é preterido nas universidades, muitas vezes, se faz “ vista grossa” sobre os reais problemas, principalmente políticos e administrativos, nas relações de poder hierárquicas dentro das secretarias e mais ainda, na política, acentuada com a municipalização, que escancarou a política de troca de favores, distribuição de cargos etc…bom mas já fugi da pergunta, na verdade, acredito que a educação é uma experiência, e deve estar ligada ao cotidiano, à capacidade de aprender e de lidar com as diversas situações assim que elas surgem, para isso, estar atento para enxergar e trocar experiências com colegas e outros setores da escola é fundamental. Quanto ao conteúdo específico, aprendi o suficiente na universidade para continuar meus estudos e defender minha posição como educador.

5- Quando você começou a lecionar Português, como era a escola e como você se sentiu em relação à primeira turma que recebeu?

Terrível, foi um choque, comecei a lecionar e no ano seguinte me efetivei na mesma escola que estudei todo o meu EF, no entanto, 7 anos depois de deixar a 8° série daquela escola, tudo estava diferente, não havia disciplina de estudo nem qualquer regra que valesse, exceto a autoritária punição, atitude que nunca aprovei não apenas como aluno, mas também como professor. Consegui muito pouco além de um relacionamento razoável com a maior parte dos alunos, uma vez que acredito que uma boa educação se inicia por aí e através de uma pré-escola de qualidade.

6- Qual a sua carga horária semanal? Além do magistério, você desenvolve ou tem alguma outra atividade?

Trabalho 56 horas-aula por semana, carga pesadíssima por causa do baixo salário. Ainda assim desenvolvo outros trabalhos, fui revisor do romance Realidade Nordestina de Vambeto Gomes de Jesus e continuo a promovê-lo, estou finalizando o documentário Trajetórias, sobre os 30 anos da greve de Guariba e sou autor do blog CINE CABOCLO brunogaravello.wordpress.com onde escrevo sobre meu trabalho.

7- Você gosta do que faz? Sente-se motivado para ensinar? Você acha importante ser professor ou gostaria de mudar de profissão?

Sim, não se pode viver nem trabalhar em qualquer profissão sem motivação, ainda que as condições sejam tão adversas àquilo que você pensa e defende.

METODOLOGIA DE ENSINO

8- Você planeja as aulas?

Sim. Mas deixo espaço para bastante experimentação. Não sigo roteiros simples, pois vou sentindo a reação da turma durante todo o processo. Vamos dizer que sempre tenho um plano B ou C, D, enfim, também bem calculado a partir de outras experiências.

9- Procura informar-se sobre o conhecimento prévio dos alunos ao expor o conteúdo? Você estabelece relações entre o tema abordado e as situações da vida cotidiana dos mesmos?

Sempre. Quase todo o meu trabalho é pautado a partir de quem eles são ou do que querem ser.

10- Você estimula o interesse do aluno pela disciplina? Como? E a participação nas aulas?

Muito. O ensino de Língua Portuguesa hoje é muito amplo, não se pode baseá-lo apenas em regras gramaticais ou no conhecimento sistemático de literatura. Por isso, motivo-os em primeiro lugar a conhecer a biblioteca da escola, a ler em sala de aula grandes autores, que lhes apresento de uma forma muito motivadora e atual. Por outro lado abro sempre as aulas para o debate sobre os diversos assuntos do currículo do Estado e mesmo os garantidos nos PCNs. E assim eles conseguem também ter motivação para escrever não apenas redações, mas no dia a dia da escola. Posso assegurar que as aulas que eles mais gostam são as de leitura e discussão de livros.

11- Você demonstra preocupação de que os alunos aprendam? Como você avalia esse aprendizado?

No dia a dia, a própria postura participativa é uma forma de avaliar, a maneira como eles se colocam sobre as diversas questões das aulas, ou então acompanhando de perto os textos que eles escrevem ou questões que respondem na apostila em sala de aula. Dou, no mínimo, uma prova no modelo tradicional de 5 a 10 questões para ter uma ideia de como aquele conteúdo se fixou na memória.

12- Acha que os alunos são esforçados? Se não são, por quê?

A maioria se esforça quase sempre. Aos que não são ou que são raramente esforçados, precisamos entender que o aluno é um ser humano biopsicossocial e que nem sempre está disposto a seguir a rotina estafante de uma escola despreparada em boa parte do tempo para lidar com todas essas particularidades, principalmente pelo fato do número de alunos por sala.

13- Quais instrumentos de avaliação você utiliza?

Todo dia a todo tempo faço uso de anotações, provas escritas, vistos nas tarefas, observação e memória, pesquisas etc.

14- A questão da progressão continuada tem alguma influência na sua prática pedagógica?

A progressão continuada é um tema muito polêmico, porque ela é usada, não raro, como desculpa para aprovar qualquer aluno. Na verdade, ela exige um sistema de ensino diferente, mais íntimo acerca do aluno, exige-se que o professor e os demais agentes da educação acompanhem de perto o desenvolvimento dele na idade certa, coisa que não acontece, vemos pré-escolas muito mal organizadas e despreparadas para receber este aluno e explorar todos os seus talentos, isto vale também para a totalidade da EB. Não apenas falta estrutura, mas também políticas capazes de promover o que o educando precisa.

15- O que você acha do desempenho dos seus alunos em sala de aula até o momento?

Como estou numa escola e modalidade de ensino diferentes dos meus anos anteriores, posso dizer que neste primeiro semestre estou satisfeito com o desenvolvimento da capacidade leitora e, sobretudo, com a atitude de boa parte deles em relação à importância da educação na vida de cada um.

16- Fale sobre alguma atividade que você desenvolve ou desenvolveu com seus alunos na qual obteve bons resultados.

Tem uma atividade que faço já há mais de 5 anos que é a leitura em sala de aula. Então, durante a semana, temos 1 ou até 2 aulas para a leitura de romances que eu pré-seleciono para cada bimestre. Esta atividade é simples e uma das mais bem-sucedidas que já fiz. O fato de cada um escolher seu romance, segurar e cuidar do objeto livro, conhecer todas as características dele, além disso, começar a ler a história e construí-la é algo impressionante. Tenho 100% de participação nestas aulas. Se quiser saber mais acesse no blog https://brunogaravello.wordpress.com/2014/06/05/repensando-a-literatura-no-ensino-medio-ii/ ou https://brunogaravello.wordpress.com/2014/05/06/a-volta-ao-dia-em-80-mundos/ e outros.

FORMAÇÃO CONTINUADA

17- Costuma ler trabalhos a respeito do ensino de Língua Portuguesa?

Sim, de educação de modo geral, acompanho ideias através de jornais e colunistas, como Nicholas Kristoff, Fernando Reinach, Roberto da Matta, tenho uma abordagem inicial um pouco periférica, mas tento contextualizar. Também gosto bastante dos trabalhos de Edgar Morin e Paulo Freire.

18- De modo geral, você participa de encontros de professores, palestras, seminários; enfim, procura se especializar de alguma forma? Considera isso importante?

Sim, costumo acompanhar o que há de melhor na literatura contemporânea e os debates políticos. Falta bastante, exceto nas grandes universidades, abertura maior para esses debates e, acima de tudo, uma aproximação maior da Universidade com a Educação Básica para nos oferecer também.

CARACTERÍSTICAS DA DISCIPLINA

19- Qual a sua opinião sobre o ensino de Língua Portuguesa nas escolas hoje? É importante ensiná-la? Por quê?

Lógico, mas não apenas como um conteúdo que se encerra em si mesmo, ao contrário,como algo que se abra para as possibilidades da vida, a missão do professor de português é fazer com que o aluno amplie sua capacidade leitora e escritora e estas precedem uma melhor visão de mundo, longe dos preconceitos, da intolerância e do senso comum, e mais próxima do que eles querem realmente ser.

20- Como os outros professores da escola vêem o ensino de Português e o trabalho que você desenvolve?

Tenho um bom relacionamento, porém superficial com cada um deles, com os mais jovens, consigo dialogar mais, no entanto ainda há uma resistência em trocar ideias, não apenas deles, mas talvez minha também, mas isso é geral na minha escola e arrisco a dizer que por outras pelas quais passei, isso ocorre também, ainda não aprendemos a trabalhar em grupo ou a somar nas relações da escola, muitas vezes ficamos atolados em discussões fúteis ou serviços burocráticos. O excesso de horas de trabalho, consequência de um salário ruim e as classes lotadas também atrapalham.

21- Qual sua opinião sobre a escola de um modo geral?

Acho que esta questão já está prevista nas minhas respostas anteriores. Ainda assim, destaco que todos os setores da sociedade deveriam participar mais da educação de modo geral.

o leitor na árvore

O leitor na árvore: alunos escolhem o romance a ser lido no bimestre e remetem a grandes obras da literatura universal.

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