como morrem os pobres

A entrevista com D. Neguinha nasceu quando eu e Vambeto fomos nos apresentar na faculdade São Luís a respeito de seu livro Realidade Nordestina, um romance autobiográfico que desenha a trajetória de milhares de nordestinos até São Paulo em busca de melhores condições de vida. Lá estava Elaine, aluna de pedagogia do 5° semestre. Ela se reconheceu na história de Vambeto e quando lançamos o assunto de nosso novo trabalho, um documentário sobre os 30 anos da greve de Guariba, comentou sobre o caso de seu pai e pediu para conhecermos sua mãe para ratificar a história ali contada por ela, e lógico,acrescentar mais ingredientes.

Fomos conhecer D. Neguinha e ela se mostrou muito prestativa e aberta para um bate-papo muito bacana. Além da agradável recepção, ela estava preparada; como nos contou, não era a primeira vez que jornalistas, filmakers e outras pessoas a procuravam para registrar, além disso, ela afirma que muitas de suas entrevistas contribuíram para melhorar algo ou, ao menos, acirrar o debate.

Optamos por uma câmera diferente e o resultado ficou íntimo. Uma agradável surpresa, aprende-se muito fazendo e conferindo o resultado, recomendo. Dirigir filmes é caminhar nas nuvens e, às vezes, no incerto ao lado de um abismo. O tom desta entrevista dentro do filme é outro, acredito. Mas para adiantar um pouco o caminho pelo qual segue nosso doc., esse exemplo fala por si só.

Viva o povo brasileiro

Joao Ubaldo Ribeiro é ao lado de Jorge Amado o grande romancista baiano. Com estilos bem variados, as comparações podem acabar por aqui. Eles eram muito amigos e com Glauber Rocha formavam a tríade dos bons contadores de histórias, da inovação, da crítica e do bom humor da boa terra.

De seus romances li apenas O albatroz azul, mas acompanhava suas crônicas semanalmente há mais de três anos. É uma sensação bem estranha saber que não terei mais seus artigos engraçados e irônicos bem como suas memórias de Itaparica e de seu tempo de início de carreira jornalística.

Uma figura mítica e de bondade transbordante que deixa a vida literária brasileira num momento em que ainda lemos tão pouco. Sua obra fica, sem dúviida, para todos nós, cidadãos, como um consolo e uma necessidade única de lermos cada vez mais.

Em outra ponta, em um mês de Copa do mundo, Karl Ove Kanusgard e documentário, fui sedimentando o caminho para que este último ficasse pronto antes do reinício das aulas. Quase consegui fechar a montagem teste, ainda faltam ajustes para depois passarmos para a finalização do projeto que tem data para a exibição primeira em setembro. Quando setembro chegar…

Se por uma lado, abre-se o tempo para cozinhar mais as idéias acerca do que é o filme, por outro a ansiedade aumenta ao vê-lo repetidas vezes. Ainda assim não existe um filme necessariamente pronto, muito menos uma obra perfeita ” nunca tema a perfeição, você jamais irá alcançá-la,” alerta Salvador Dali. É um conforto presunçoso, mas não posso contestar o amigo de Bunuel.

Além disso, é apenas um filme. Ao assistir à Palestina sendo bombardeada, um avião civil derrubado com tanta gente a bordo, inclusive especialistas em estudo da AIDS que ajudaram a salvar milhões de vida, percebemos o quanto o nosso vasto mundo anda caduco.

A literatura, a amizade, o amor vêm para acalentar nesses tempos frios. Temas estes reunidos num romance sensacional de Karl Ove Knausgard, o segundo volume da série Minha Luta. Ao lê-lo, assistimos ao escritor-narrador discorrer sobre suas derrotas e vitórias, sobre a família, namorada, filhos com uma sensibilidade inacreditável. A experiência bem sucedida da narração está toda ali: num ataque de autoflagelação, na conversa sincera com sua parceira ou na véspera do ano novo, quando em meio aos seus dotes culinários, cada amigo conta uma história fracassada sobre suas famílias.

É incrível, soma-se a isso as belas descrições de Estocolmo, as digressões sobre a arte de escrever, e os bate-papos pelos cafés com seu fiel amigo Geir.
Karl Ove criou uma obra pungente, que deve ser desfrutada e acompanhada de perto.

Foi com este clima que acompanhei a copa do mundo no Brasil, esperando que houvesse algum tipo de manifestação que acabasse com esta letargia do povo brasileiro, que acordasse os fortes, e pior, fui pego mais uma vez, a despeito das corruptas CBF e FIFA, como um torcedor apaixonado, mas o 7×1 parece nos ter embasbacado e jogados de volta à atmosfera de pesadelo. Será isso possível?

Fim de festa, com uma Alemanha vitoriosa desde Santa Cruz Cabrália, por essas e outras que acredito um pouquinho no que diz Domenico De Masi, ou melhor, no povo baiano. Viva Vambeto e seu livro Realidade Nordestina.
Que venham o escore das eleições, porém antes, é evidente, a campanha eleitoral de cada candidato e, assim, veremos o que eles têm para nos oferecer.

Não posso deixar de dizer que a educação deveria vir em primeiro lugar. Não podemos afundar mais no compadrio, nos cargos comissionados e na desonestidade nas relações financeiras e no desafio-cotidiano. Quanta gente vendendo ingresso falso, quanta empresa oferecendo serviços de péssima qualidade, quantos ainda morremos todos os dias em filas de hospitais ou vítimas da violência gratuita.

Nosso documentário continua, pois a vida não para. E junto com ele, uma análise de como o Brasil mudou de cá prá lá, quem somos hoje e, doravante, arrisca a dizer, como será o amanhã?

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Da Bahia para o mundo: Uma das mentes mais lúcidas, engraçadas e sinceras de sua geração.

ENTREVISTA COM O PROFESSOR

Por esses dias tive o privilégio de receber uma ex-aluna e que agora está para se graduar em Letras pela UNESP De Araraquara, para acompanhar minhas aulas em seu estágio. Muito bom receber você, Isadora.

Lógico que como somos muito bobos, às vezes tememos este tipo de visita, mas tudo que vem para somar deveria não nos amedrontar, mas motivar, é o que penso ao responder a suas questões.

De modo geral, sinto muito a falta das grandes universidades de São Paulo mais próximas da Educação Básica, em vista da catástrofe anunciada há anos já. Lógico que a produção científica é numerosa e nos ajuda muito, mas precisamos do apoio dos professores universitários, sobretudo, em questões básicas e essenciais, que tanto já discuti aqui neste pequeno espaço.

Precisamos, é lógico, nos unir também, coisa difícil de acontecer, principalmente porque não temos um sindicato mais sólido nem professores com postura crítica frente aos problemas; a fragmentação dos professores em categorias: efetivo, O, F etc também contribui para essa falta de união.

A seguir, numa pequena entrevista, a Isadora conseguiu sintetizar o que penso acerca da educação e, é evidente, das minha motivações pessoais.

FORMAÇÃO

1- Em que ano você se formou e há quantos anos leciona?
2002, faz 11 anos.

2- Você tem nível superior? Onde cursou?

Faculdades São Luís de Jaboticabal.

3- Por que você optou pelo Curso de Letras?

Porque poderia trabalhar meio período na EB com um salário até então razoável e no período adverso me dedicar a outros interesses, como o cinema e o jornalismo.

4- Você acha que a fundamentação de conteúdo específico e conteúdo pedagógico que recebeu na faculdade/universidade tem sido suficientes para elaborar suas aulas?

Não, aliás, muito pouco, a formação universitária foca muito pouco no trabalho diário do professor, além disso, o debate sobre a EB é preterido nas universidades, muitas vezes, se faz “ vista grossa” sobre os reais problemas, principalmente políticos e administrativos, nas relações de poder hierárquicas dentro das secretarias e mais ainda, na política, acentuada com a municipalização, que escancarou a política de troca de favores, distribuição de cargos etc…bom mas já fugi da pergunta, na verdade, acredito que a educação é uma experiência, e deve estar ligada ao cotidiano, à capacidade de aprender e de lidar com as diversas situações assim que elas surgem, para isso, estar atento para enxergar e trocar experiências com colegas e outros setores da escola é fundamental. Quanto ao conteúdo específico, aprendi o suficiente na universidade para continuar meus estudos e defender minha posição como educador.

5- Quando você começou a lecionar Português, como era a escola e como você se sentiu em relação à primeira turma que recebeu?

Terrível, foi um choque, comecei a lecionar e no ano seguinte me efetivei na mesma escola que estudei todo o meu EF, no entanto, 7 anos depois de deixar a 8° série daquela escola, tudo estava diferente, não havia disciplina de estudo nem qualquer regra que valesse, exceto a autoritária punição, atitude que nunca aprovei não apenas como aluno, mas também como professor. Consegui muito pouco além de um relacionamento razoável com a maior parte dos alunos, uma vez que acredito que uma boa educação se inicia por aí e através de uma pré-escola de qualidade.

6- Qual a sua carga horária semanal? Além do magistério, você desenvolve ou tem alguma outra atividade?

Trabalho 56 horas-aula por semana, carga pesadíssima por causa do baixo salário. Ainda assim desenvolvo outros trabalhos, fui revisor do romance Realidade Nordestina de Vambeto Gomes de Jesus e continuo a promovê-lo, estou finalizando o documentário Trajetórias, sobre os 30 anos da greve de Guariba e sou autor do blog CINE CABOCLO brunogaravello.wordpress.com onde escrevo sobre meu trabalho.

7- Você gosta do que faz? Sente-se motivado para ensinar? Você acha importante ser professor ou gostaria de mudar de profissão?

Sim, não se pode viver nem trabalhar em qualquer profissão sem motivação, ainda que as condições sejam tão adversas àquilo que você pensa e defende.

METODOLOGIA DE ENSINO

8- Você planeja as aulas?

Sim. Mas deixo espaço para bastante experimentação. Não sigo roteiros simples, pois vou sentindo a reação da turma durante todo o processo. Vamos dizer que sempre tenho um plano B ou C, D, enfim, também bem calculado a partir de outras experiências.

9- Procura informar-se sobre o conhecimento prévio dos alunos ao expor o conteúdo? Você estabelece relações entre o tema abordado e as situações da vida cotidiana dos mesmos?

Sempre. Quase todo o meu trabalho é pautado a partir de quem eles são ou do que querem ser.

10- Você estimula o interesse do aluno pela disciplina? Como? E a participação nas aulas?

Muito. O ensino de Língua Portuguesa hoje é muito amplo, não se pode baseá-lo apenas em regras gramaticais ou no conhecimento sistemático de literatura. Por isso, motivo-os em primeiro lugar a conhecer a biblioteca da escola, a ler em sala de aula grandes autores, que lhes apresento de uma forma muito motivadora e atual. Por outro lado abro sempre as aulas para o debate sobre os diversos assuntos do currículo do Estado e mesmo os garantidos nos PCNs. E assim eles conseguem também ter motivação para escrever não apenas redações, mas no dia a dia da escola. Posso assegurar que as aulas que eles mais gostam são as de leitura e discussão de livros.

11- Você demonstra preocupação de que os alunos aprendam? Como você avalia esse aprendizado?

No dia a dia, a própria postura participativa é uma forma de avaliar, a maneira como eles se colocam sobre as diversas questões das aulas, ou então acompanhando de perto os textos que eles escrevem ou questões que respondem na apostila em sala de aula. Dou, no mínimo, uma prova no modelo tradicional de 5 a 10 questões para ter uma ideia de como aquele conteúdo se fixou na memória.

12- Acha que os alunos são esforçados? Se não são, por quê?

A maioria se esforça quase sempre. Aos que não são ou que são raramente esforçados, precisamos entender que o aluno é um ser humano biopsicossocial e que nem sempre está disposto a seguir a rotina estafante de uma escola despreparada em boa parte do tempo para lidar com todas essas particularidades, principalmente pelo fato do número de alunos por sala.

13- Quais instrumentos de avaliação você utiliza?

Todo dia a todo tempo faço uso de anotações, provas escritas, vistos nas tarefas, observação e memória, pesquisas etc.

14- A questão da progressão continuada tem alguma influência na sua prática pedagógica?

A progressão continuada é um tema muito polêmico, porque ela é usada, não raro, como desculpa para aprovar qualquer aluno. Na verdade, ela exige um sistema de ensino diferente, mais íntimo acerca do aluno, exige-se que o professor e os demais agentes da educação acompanhem de perto o desenvolvimento dele na idade certa, coisa que não acontece, vemos pré-escolas muito mal organizadas e despreparadas para receber este aluno e explorar todos os seus talentos, isto vale também para a totalidade da EB. Não apenas falta estrutura, mas também políticas capazes de promover o que o educando precisa.

15- O que você acha do desempenho dos seus alunos em sala de aula até o momento?

Como estou numa escola e modalidade de ensino diferentes dos meus anos anteriores, posso dizer que neste primeiro semestre estou satisfeito com o desenvolvimento da capacidade leitora e, sobretudo, com a atitude de boa parte deles em relação à importância da educação na vida de cada um.

16- Fale sobre alguma atividade que você desenvolve ou desenvolveu com seus alunos na qual obteve bons resultados.

Tem uma atividade que faço já há mais de 5 anos que é a leitura em sala de aula. Então, durante a semana, temos 1 ou até 2 aulas para a leitura de romances que eu pré-seleciono para cada bimestre. Esta atividade é simples e uma das mais bem-sucedidas que já fiz. O fato de cada um escolher seu romance, segurar e cuidar do objeto livro, conhecer todas as características dele, além disso, começar a ler a história e construí-la é algo impressionante. Tenho 100% de participação nestas aulas. Se quiser saber mais acesse no blog https://brunogaravello.wordpress.com/2014/06/05/repensando-a-literatura-no-ensino-medio-ii/ ou https://brunogaravello.wordpress.com/2014/05/06/a-volta-ao-dia-em-80-mundos/ e outros.

FORMAÇÃO CONTINUADA

17- Costuma ler trabalhos a respeito do ensino de Língua Portuguesa?

Sim, de educação de modo geral, acompanho ideias através de jornais e colunistas, como Nicholas Kristoff, Fernando Reinach, Roberto da Matta, tenho uma abordagem inicial um pouco periférica, mas tento contextualizar. Também gosto bastante dos trabalhos de Edgar Morin e Paulo Freire.

18- De modo geral, você participa de encontros de professores, palestras, seminários; enfim, procura se especializar de alguma forma? Considera isso importante?

Sim, costumo acompanhar o que há de melhor na literatura contemporânea e os debates políticos. Falta bastante, exceto nas grandes universidades, abertura maior para esses debates e, acima de tudo, uma aproximação maior da Universidade com a Educação Básica para nos oferecer também.

CARACTERÍSTICAS DA DISCIPLINA

19- Qual a sua opinião sobre o ensino de Língua Portuguesa nas escolas hoje? É importante ensiná-la? Por quê?

Lógico, mas não apenas como um conteúdo que se encerra em si mesmo, ao contrário,como algo que se abra para as possibilidades da vida, a missão do professor de português é fazer com que o aluno amplie sua capacidade leitora e escritora e estas precedem uma melhor visão de mundo, longe dos preconceitos, da intolerância e do senso comum, e mais próxima do que eles querem realmente ser.

20- Como os outros professores da escola vêem o ensino de Português e o trabalho que você desenvolve?

Tenho um bom relacionamento, porém superficial com cada um deles, com os mais jovens, consigo dialogar mais, no entanto ainda há uma resistência em trocar ideias, não apenas deles, mas talvez minha também, mas isso é geral na minha escola e arrisco a dizer que por outras pelas quais passei, isso ocorre também, ainda não aprendemos a trabalhar em grupo ou a somar nas relações da escola, muitas vezes ficamos atolados em discussões fúteis ou serviços burocráticos. O excesso de horas de trabalho, consequência de um salário ruim e as classes lotadas também atrapalham.

21- Qual sua opinião sobre a escola de um modo geral?

Acho que esta questão já está prevista nas minhas respostas anteriores. Ainda assim, destaco que todos os setores da sociedade deveriam participar mais da educação de modo geral.

o leitor na árvore

O leitor na árvore: alunos escolhem o romance a ser lido no bimestre e remetem a grandes obras da literatura universal.