Repensando a literatura no Ensino Médio II

O que mais vale a pena aprender quando se estuda no Ensino Médio? A ler e estar estimulado a fazê-lo? Ou analisar obras através de conceitos teóricos que desaparecem num instante? Quando aquilo que se aprende realmente fica pra sempre com a gente? Estes são questionamentos feitos a todo momento pelos educadores.

Já avisei meus alunos que estudos apontam como a leitura proporciona vantagens na concentração e na aprendizagem, que o professor apenas virar uma metralhadora giratória de palavras na frente da lousa não contribui em quase nada, principalmente num tempo de imediatismo e de falta de atenção imensa, consequência de um mundo tecnológico e imagético incapaz de gerar um sentimento de plena satisfação, a não ser pequenas doses de prazer superficial que não acrescenta coisa alguma ao que desejamos ser e aos nossos sentimentos mais íntimos.

Baseando-se nestes preceitos e indagações, tive uma grande descoberta. Achava que quase 40% de meus alunos fossem analfabetos funcionais, levando em conta, é evidente, os dados do Saresp deste ano. Não o são, ainda assim percebo que há grande dificuldade de interpretação e outras dificuldades maiores em outras áreas, como a matemática e a lógica, mas a descoberta foi que nossos alunos apenas não estão lendo ou se concentrando o suficiente, uma vez que, na maior parte do tempo, em sala de aula, os exercícios da apostila do currículo do governo estadual não permitem esta evasão, eles são bastante técnicos, desvirtuados da realidade, principalmente do EM, e sequência de um Ensino Fundamental em que o aluno não atingiu seus requisitos mínimos para a aprendizagem da próxima etapa de ensino. Muitos querem apenas copiar a resposta para ficar com um visto e ter uma nota.

Falando isso em língua portuguesa. O que mais os professores de matemática me dizem é que falta interpretação. Concordo, mas não podemos deixar de falar que a dificuldade em cálculo básico também se dá em falhas imensas em anos anteriores e, sobretudo, nas séries iniciais. Outro dia numa sala de 1° ano de EM apenas uma aluno sabia quanto eram 3/4 de uma hora, um absurdo.

Enfim, este bimestre, tivemos o prazer de estudar três grandes autores do século XX: Gabriel Garcia Marquez em Relato de um náufrago, Ernest Hemingway em O velho e o mar e o mais audacioso da caixa Aldous Huxley em Admirável mundo novo. Foi um sucesso, em todas as salas o tempo de leitura foi estendido, de 20 minutos até 40 por vontade dos discentes. A maioria dos alunos adoraram os livros, cada um pôde escolher o título que mais gostasse e compreender os significados de cada história. Eu mesmo havia dito que não sabia o porquê da grandeza de O velho e o mar, meu primeiro Hemingway, talvez pelo fato de já ter lido tantos outros romances ou talvez pelo fato de desconhecer o estilo do autor quase que completamente, porém a reação dos alunos e inclusive a minha, numa segunda leitura, foi a contrária. Belíssimo livro, com a poesia da narração, o grande feito de alcançar a simplicidade em contar uma história de perseverança e amizade entre um velho e um garoto, o sucesso foi tanto que mesmo aqueles que não conseguiram chegar até o fim, vão até a biblioteca da escola e retirarão o livro para acabar de ler em casa. Com Relato de um náufrago não foi diferente e a supresa maior ficou, sem dúvida, com o romance de ficção científica de Aldous Huxley. No início, não sabia se daria certo, dada a dificuldade do início da narrativa. Mas pudemos debater muitos temas, como o de uma sociedade fabricada e sem emoção, onde os valores do progresso estão acima da família e das realizações pessoais e tantos outros.

Foi muito bom, recomendo aos meus colegas professores este trabalho.

Muito tem se debatido a relevância de um material apostilado que dentre todos os revezes já mencionados, ainda tem a questão de ser pouco atrativo visualmente e fraco em quantidade de textos para a fruição e a leitura. O único conto do volume 1 do EM, material válido para um semestre, é Cantiga de esponsais de Machado de Assis, e mesmo depois destas leituras, foi difícil a compreensão do conto, e contei para eles que, em primeiro lugar, a literatura deve ser sentida, absorvida como um prazer igual a poucos. E entender e responder às questões não significa exatamente isso e não é essencial neste primeiro momento, por isso também a necessidade de completar a apostila e as aulas com mais leituras, fato que se tornou possível graças à reabertura das bibliotecas das escolas.

Ao finalizar este bimestre, em meio ao enorme cansaço pelo qual o educador vem passando este últimos anos, desvalorização de salário, acúmulo de trabalho, descaso das autoridades quanto às nossas mais urgentes exigências, um alento: tenho formado leitores e se nossa sociedade quiser se transformar, essa transformação começa absolutamente pelo conhecimento e deleite proporcionados pela fruição de um bom livro.

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a esfinge sem segredo: o maior prazer da leitura em sala de aula com meus alunos é trocar ideias sobre o que lemos.

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