a volta ao dia em 80 mundos

O elogio da página em branco de Mallarmè, é o que me vem a cabeça neste momento e muitas vezes antes de escrever um texto deste blog. Também me aparecem as imagens fabulosas do final do autobiográfico 8 e meio de Fellini. Tirei um mês sabático, será o princípio do fim?

Durante este mês todo fiquei percorrendo caminhos para que os jovens de minhas turmas começassem a ler com qualidade. Depois de anos, bibliotecas fechadas das escolas estaduais de sp reabrem e contratam professores para tocar aquele que, sem dúvida, é o melhor projeto iniciado pela pasta desde que iniciei em 2004. Tesouros escondidos resgatados, facilidade no trabalho, literatura brasileira do século XIX em abundância e muitas outras literaturas são redescobertas, para nós professores, é como se encontrássemos a tumba de Tutancamon.

Fiz um experimento com três autores: Feliz ano velho de Marcelo Rubens Paiva, Laços de família de Clarice Lispector e Primeiras Estórias de Guimarães Rosa. Foi um sucesso, principalmente o de Marcelo Rubens. Faltou livro para quem quisesse ler o romance autobiográfico, enquanto que Clarice e Guimarães foram digeridos aos poucos. Feliz aniversário, Os irmãos Dagobé, Famigerado, O crime do professor de matemática, Sorôco, sua mãe, sua filha foram devorados e discutidos de modo que todos começaram a entender o que faz um escritor ser um clássico. E muito mais, temas como culpa, despedidas, intrigas, anticlímax e ignorância rechearam as aulas de bons motivos que nos reforçam a entender a necessidade da leitura na vida dos cidadãos, principalmente quando passam pela escola, do contrário, em que outro momento da vida a leitura é estimulada, salvo acidentalmente?

Tudo correu muito bem. Em outras turmas, lemos A volta ao mundo em 80 dias, texto integral de Júlio Verne, o pai das histórias de aventuras, com uma tradução que remonta pra lá dos anos 60. No início foi difícil e até uma pequena parte dos alunos não foram alfabetizados suficientemente para conseguir ler, no mínimo, os dez primeiros capítulos. Mas no Brasil é assim, os brasileiros são mal alfabetizados, sobretudo em sp. Os outros se encantaram com o universo de Philleas Fogg e, além disso, a construção de significado na mente dos alunos foi valorosa. Ontem mesmo numa sala, um aluno virou para outro que não estava lendo ” Vai, bobão, fica aí e não lê pra ver qual vai ser seu futuro?” Fingi não escutar, mas por dentro exclamava vitorioso.

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Em todas essas primeiras aulas argumentava acerca dos benefícios das leituras, dentre eles, é lógico, decifrar o que acontece em nosso mundo e ensinar a pensar por conta própria, argumentos esses extremamente necessários num mundo de grandes mentiras e de total controle de pensamento. Acredito que eles sejam muito pertinentes, como se vê, espalhado pelo mundo, nunca houve tanta despolarização e mais pensamentos divergentes, e através deles, grandes conquistas, fato que corrobora a máxima de que toda sociedade só evolui, a duras penas, quando questionamos a ordem estabelecida.

Os livros vieram, enfim, ao encontro dos interesses de nossos alunos. Uma pena que ainda seja uma exceção, estamos cada vez mais mergulhados em apostilas conteúdistas, que não chegam próximo do estudante. São pequenos exercícios de preenchimento de gaps. Interessantes, mas dispensáveis. Em vez de formarmos alunos como máquinas, preenchedores de planilhas, ou técnicos, outra vertente fracassada do governo estadual – capítulo à parte – por que não formamos leitores, formadores de opinião em um país onde quase ninguém lê nada nunca?

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