Você não está sozinho

Quando um trabalho está pronto? Nem bem chegamos ao final da montagem do nosso doc Trajetórias – 30 anos da greve de Guariba, outras dezenas de perguntas surgem: como e onde exibi-lo? Qual a nossa responsabilidade sobre ele? Como debatê-lo e fazer ser notado? Fácil, o youtube está aí.

Acontece que nos abandonarmos à procura de virais e etc de nada valem para o debate.

Além disso, as páginas da história de nosso país precisam ser escritas com ideias, registros, assimilações e compêndios, 99% do que se posta na rede é mal administrado em muitos desses sentidos, por isso a preocupação.

Mais, um trabalho só está pronto quando ele chega até as pessoas. Ele precisa chegar e dizer ” Você não está sozinho”.

Compartilhamos dessas histórias. Daí vem o respeito e o reconhecimento do trabalho de grandes descobridores do Brasil, como o documentarista Eduardo Coutinho. Em um de seus títulos mais enigmáticos, provocadores (sei lá eu qualé a palavra!) – O fim e o princípio – uma viagem pelo nordeste nos leva ao encontro do Brasil, de quem somos, dos não migrantes, dos exilados, dos sábios e sofridos. Uma imagem que quase rejeitamos, mas que é a mais pura e essencial raiz do que somos.

Acordei para essa realidade não a partir da minha história apenas, mas principalmente do romance Realidade Nordestina, que Vambeto Gomes de Jesus escreveu com tanta sanha e qualidade. A história da migração nordestina está toda ali, e vem se chocar com a greve de Guariba, outro fato marcante em nossa região.

Um dos nossos projetos futuros é também fazer uma viagem ao nordeste, porém em vez de São João do Rio do Peixe, uma viagem ao acaso, nosso roteiro é Ipirá e os personagens do livro de Vambeto. Vamos tentar produzir com apoio do governo federal ou do crowdfunding .

A seguir mais um trecho de nosso doc.

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a volta ao dia em 80 mundos

O elogio da página em branco de Mallarmè, é o que me vem a cabeça neste momento e muitas vezes antes de escrever um texto deste blog. Também me aparecem as imagens fabulosas do final do autobiográfico 8 e meio de Fellini. Tirei um mês sabático, será o princípio do fim?

Durante este mês todo fiquei percorrendo caminhos para que os jovens de minhas turmas começassem a ler com qualidade. Depois de anos, bibliotecas fechadas das escolas estaduais de sp reabrem e contratam professores para tocar aquele que, sem dúvida, é o melhor projeto iniciado pela pasta desde que iniciei em 2004. Tesouros escondidos resgatados, facilidade no trabalho, literatura brasileira do século XIX em abundância e muitas outras literaturas são redescobertas, para nós professores, é como se encontrássemos a tumba de Tutancamon.

Fiz um experimento com três autores: Feliz ano velho de Marcelo Rubens Paiva, Laços de família de Clarice Lispector e Primeiras Estórias de Guimarães Rosa. Foi um sucesso, principalmente o de Marcelo Rubens. Faltou livro para quem quisesse ler o romance autobiográfico, enquanto que Clarice e Guimarães foram digeridos aos poucos. Feliz aniversário, Os irmãos Dagobé, Famigerado, O crime do professor de matemática, Sorôco, sua mãe, sua filha foram devorados e discutidos de modo que todos começaram a entender o que faz um escritor ser um clássico. E muito mais, temas como culpa, despedidas, intrigas, anticlímax e ignorância rechearam as aulas de bons motivos que nos reforçam a entender a necessidade da leitura na vida dos cidadãos, principalmente quando passam pela escola, do contrário, em que outro momento da vida a leitura é estimulada, salvo acidentalmente?

Tudo correu muito bem. Em outras turmas, lemos A volta ao mundo em 80 dias, texto integral de Júlio Verne, o pai das histórias de aventuras, com uma tradução que remonta pra lá dos anos 60. No início foi difícil e até uma pequena parte dos alunos não foram alfabetizados suficientemente para conseguir ler, no mínimo, os dez primeiros capítulos. Mas no Brasil é assim, os brasileiros são mal alfabetizados, sobretudo em sp. Os outros se encantaram com o universo de Philleas Fogg e, além disso, a construção de significado na mente dos alunos foi valorosa. Ontem mesmo numa sala, um aluno virou para outro que não estava lendo ” Vai, bobão, fica aí e não lê pra ver qual vai ser seu futuro?” Fingi não escutar, mas por dentro exclamava vitorioso.

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Em todas essas primeiras aulas argumentava acerca dos benefícios das leituras, dentre eles, é lógico, decifrar o que acontece em nosso mundo e ensinar a pensar por conta própria, argumentos esses extremamente necessários num mundo de grandes mentiras e de total controle de pensamento. Acredito que eles sejam muito pertinentes, como se vê, espalhado pelo mundo, nunca houve tanta despolarização e mais pensamentos divergentes, e através deles, grandes conquistas, fato que corrobora a máxima de que toda sociedade só evolui, a duras penas, quando questionamos a ordem estabelecida.

Os livros vieram, enfim, ao encontro dos interesses de nossos alunos. Uma pena que ainda seja uma exceção, estamos cada vez mais mergulhados em apostilas conteúdistas, que não chegam próximo do estudante. São pequenos exercícios de preenchimento de gaps. Interessantes, mas dispensáveis. Em vez de formarmos alunos como máquinas, preenchedores de planilhas, ou técnicos, outra vertente fracassada do governo estadual – capítulo à parte – por que não formamos leitores, formadores de opinião em um país onde quase ninguém lê nada nunca?