o canto do pássaro preto

O cinema é deus e o diabo na terra do sol. Este final de semana fomos fazer umas tomadas externas do nosso documentário Trajetórias sobre os 30 anos da greve de Guariba. Há poucos km de nossas casas ficam as instalações desativadas de uma das usinas mais antigas de nossa região. O complexo da usina São Carlos, fundado na década de 40, aparece depois de uma estrada ladeada por fila imensa de árvores com troncos enormes e muitos galhos e folhas de tamanhos regulares por toda a extensão deles.

Há certamente uma sensação de abandono no lugar. Difícil de acreditar que ali se produziu desde muito tempo as maiores safras do país.

Duas semanas antes, pudemos conhecer Juvêncio Sousa Oliveira, ou como Vambeto o conhecia lá de Ipirá, Caboquinho, que vive no assentamento em Prádopolis desde 2006. Ele aparece no filme O bóia-fria (1986) de Carlos Caxassa. Vambeto ficou sabendo de seu paradeiro por acaso, quando um outro ipiraense que mora em Guariba foi lhe vender mangas e lhe contou de quem as havia comprado. Encontramos Caboquinho a caminho de seu lote, ele, de moto, no início foi parado ( coincidência) para nos dar informação. Vambeto o conheceu de pronto e depois de uma pequena pista ” Lembra do campo de futebol em Ipirá?” , “Você é o Beto de Coló?” ambos riram muito e prometemos encontrá-lo em seu lote dali a pouco:

” Pega a rua F e vai até uma placa branca escrita São Gabriel”

A direção seria certeira, porém quem nos levou mesmo até lá foi um menino de mais ou menos 7 anos que estava em um sítio vizinho e levantou poeira em sua pequena crosszinha a nossa frente.

Em tempos de mercado livre e compras pela internet, Caboco nos deu uma demonstração que no campo a negociação continua feita como nos velhos tempos, conferindo a mercadoria. Ele negociava gado com um dos vizinhos. Ali também cria porcos, planta eucaliptos e havia plantado recentemente uma tarefa de mandioca. Ele se diz homem da terra e se sente como estivesse em Ipirá, exceto pelos tempos de seca. Na volta conversando com Vambeto, o autor de Realidade Nordestina sempre me surpreende ao dizer que no sertão não raro passa-se quase um ano sem chuvas.

Seu conterrâneo de Ipirá ficou intrigado com sua presença no filme e não se lembrava da pequena entrevista que dera. No final, pediu uma cópia do curta, o que prometi fazer, e nos convidou para mostrar um pouco de seu dia a dia para o nosso filme.

Eu e Sérgio quando voltamos da usina, fizemos mais algumas tomadas de Guariba, mas a trajetória do sol encontrou um denso conjunto de nuvens e foi impossível continuar, ” Sem luz tudo perde a graça, não tem cor” .

Sem dúvida, no entanto, filmar sempre é muito bom. Por esses tempos, me lembro muito do personagem com pretensões cinematográficas em Beleza Americana registrando o vôo do saco plástico. Uma cena incomum e clássica, a beleza do banal, do cotidiano. Nesses nossos takes longos de paisagem está o inominável, o imprevísivel, o oculto, como o canto do pássaro preto na entrada da usina desativada.

Vaga e Lume

Um conto de dois vaga-lumes

No inverno de 2009, na faculdade, depois de experimentarmos pelo caminho da ficção dos curta-metragens, achávamos que deveríamos arriscar mais (nem tanto, Jessé já era grande animador) e produzir um curta de animação. O resultado foi Vaga e Lume, um pequeno filme do qual tenho bastante orgulho.

De qualquer modo, essa história singela e verdadeira custou muito a acontecer, desde o argumento até seu desenvolvimento, com um final que nos custou tanto a decidir, no total, dá mostra de que realmente um trabalho não tem fim e os caminhos para produzi-lo são tortuosos e, ao mesmo tempo, edificantes.

É um ensaio sobre aquele tempo e sobre parte que também somos.

Sem mais, a animação fala por si própria. Grande abraço a todos que participaram. Cinema é arte coletiva.