A outra face

Já dizia o grande mestre Guimarães Rosa ” O sertão é dentro da gente”. Olhando para o ensaio fotográfico que o Sérgio Galvão vem produzindo percebemos também a “outra” face da nossa região, milhares de nordestinos e descendentes pintam com outras cores a nossa paisagem humana. Não apenas em Guariba, mas em todo o estado de São Paulo, inclusive na capital, é maçiça a presença nordestina, mestiços, afro-descendentes e tantos outros dão vida aos tratados sociológicos da plêiade de professores que debruçaram-se no tema, como Darcy Ribeiro e Gilberto Freire.

Num mínimo de 30 anos de ocupação, nos perguntamos que espaço, na verdade, eles preenchem. Simples trabalhadores rurais que doaram seus esforços para a reconstrução de uma das regiões mais ricas do país, ou outros profissionais? Rompeu-se o ciclo?

Quando vou a shopping centers e outros locais privilegiados, onde os vejo? Caminhando ao meu lado ou me servindo? Na política contemporânea, nos hospitais, em departamentos públicos, vamos dizer, mais sofisticados, onde eles estão?

Estive conversando com alguns amigos professores e outros conterrâneos e concordamos que essa presença ainda é pouca. Porém fico feliz porque vejo alguns colegas novos professores descendentes desse filão nordestino ou do norte de Minas ensinando outros alunos. É hora da transformação.

Acredito que apenas um povo consegue falar mais diretamente sobre si próprio. Quando Vambeto fala sobre seu livro isso fica escandalosamente explícito. Daí a necessidade das universidades prepararem muito bem política e socialmente esses indivíduos e considerarem a demasiada polêmica das políticas de cotas. A substituição do professorado e da educação buguesa-elitista se faz premente. A educação vem de dentro para fora. Há uma “nova” maneira de enxergar a história pelo viés dos menos favorecidos ou daqueles que lutaram por um sistema educacional verdadeiramente democrático que deve ser priorizada – dentro das escolas, por favor.

O olhar hierárquico e aristocrático, tão arraigados em nossa cultura, precisa desaparecer e a visão da luta pelas diretas já necessita ser menos romântica e mais fundamentada naquilo que ela realmente nos trouxe até hoje. Além disso, há o debate ambiental tão bem escrutinado acerca dos riscos imensos que corremos (http://www.theguardian.com/environment/2013/dec/31/planet-will-warm-4c-2100-climate ) que deve ser verbalizado e discutido a fundo com nossas crianças, jovens e adultos que ocupam as cadeiras escolares. Quanto mais próximo do debate estivermos, tanto melhor.

Precisamos não apenas colocar no centro da educação essas novas faces, mas também debater o particular no universal e perceber que o fenômeno da globalização afeta diretamente todos nós, no que compete ao mundo do consumo, do trabalho e da cultura. Nessa direção nosso documentário caminha, como o falado amor intelectual deriva do fato de ouvir as outras pessoas. Quando conversava com Maria Rezadeira no assentamento Bela Vista, frente a sua indecisão de conversar com a gente abertamente, é muito compreensível, cadê a lealdade no mundo de hoje? – não resisti e lhe disse claramente, em frente à maravilhosa Enedina, representante do MST no local que nos acompanhou, ” O que importa para a gente são as pessoas, D. Maria, as pessoas…” De pronto ela nos deu uma entrevista de verve insuperável e que decerto cabe como uma luva para nosso projeto.”.

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A arte de sujar os sapatos, no Bela Vista, Sérgio tem uma visão privilegiada de um casarão do Brasil escravocrata. Do meu lado, à esquerda, a famigerada Enedina.

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2 comentários sobre “A outra face

  1. Essa outra face está escondida, poucos entende que os Nordestinos como também os que vieram do vale são pessoas humanas do mesmo sangue. Hoje eles se esparramam e se integram as classe sociais de nível superior graças a garra de cada um. Todos estão guerreando contra o preconceito e a qualquer ataque que venha desfazer de sua capacidade. O documentário mostra muito isso que as pessoas de 1984 evoluíram e não são ais os mesmo.

    1. Legal, Vambeto.

      Eu também acho que houve muitas vitórias e elas precisam ser celebradas – foco do nosso filme.

      Mas como você disse: A estrada foi percorrida em apenas uma parte. Isso aê !

      Põe esse post no seu face !

      Abç

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