Sociedade Infraleve

Estudei toda a educação básica em Guariba e nunca – que me lembre ao menos – tinha ouvido falar da greve dos cortadores de cana de 1984 ou sequer reconhecido que vivemos na região da cana de açúcar. Em meados dos anos 90 a educação era outra, admito, no entanto é bastante intrigante o fato de na época de ouro do governo FHC a história local estivesse tão distante dos currículos escolares, e ainda esteja. Um dos fundamentos de nosso documentário 30 x 20 é exatamente batalhar pelo contrário disso tudo, não é, portanto, mero oportunismo. Nem pode ser haja vista o tanto de alunos que durante quase dez anos de magistério tenho encontrado, ensinado e com os quais tenho aprendido.

Nosso projeto, sem sombra de dúvida, tem valor histórico e educacional.

Por todos esses motivos, houve muito trabalho para encontrar material disponível para estudo. Livros exemplares, como o do atualmente professor da Unesp de Franca, Alexandre Marques Mendes, simplesmente inexistem na combalida e parca e única biblioteca municipal, ou em qualquer outro acervo que exista precariamente nas bibliotecas das escolas municipais; um regozijo, Guariba não é exceção em nosso país.

O conflito social de Guariba, tese de mestrado de Alexandre foi-me emprestado por um dos depoentes para o livro, Moacir Caporusso Jr, que à altura da greve era um jovem ligado ao movimento de abertura democrática e, segundo me disse em uma entrevista,” participei de um dos fatos que marcaram para sempre minha vida” . Como todo momento inigualável, este o levou a outros rumos, como o político do qual faz parte hoje como coordenador da macro petista na região de Ribeirão Preto, aliás, Moacirzinho, como conhecido, não foi o único tocado pelo movimento grevista, a ele se juntam várias figuras célebres, Antônio Palocci, o senador Eduardo Suplicy e tantos outros com particpação chave na época.

Além de Moacir, também aparecem no livro outros entrevistados: o ex-sindicalista José de Fátima, o então comerciante Jaci Pimenta, o ex-empregado rural seu Afonso, o dono do mercado saqueado Santo Antonio Claret, o falecido Cláudio Amorim, o presidente da FERAESP Élio Neves e outros. Por tudo isso, o livro de Alexandre deveria ser mais lido e bem recebido pelos guaribenses e fazer parte da educação local. É uma coletânea de textos e entrevistas muito esclarecedores e que lança luz num episódio macro mas com relevância internacional.

À época, ferviam vários movimentos grevistas em diversos locais, só para citar de memória, a reprimenda furiosa da dama de ferro aos mineiros em greve na Inglaterra e o governo indiano que combateu com igual ( ou maior) força qualquer greve da industria têxtil.

Por isso e muito mais a greve foi assunto de várias teses de mestrado, doutorado e livros e nos tempos atuais, mais do que nunca, continua sendo estudada, para lançar luz ao que somos apesar do já sabido “Quem controla o passado, controla o futuro. Quem controla o presente, controla o passado”. Nosso trabalho, nessa convulsão toda, adquire ar de resistência, embora continue no projeto de Vilnius da Sociedade Infraleve e acompanhe de perto seu Arquivo Geral do Fracasso.

Entre tantos outros livros e filmes, consegui o livro de José Graziano “De boias-frias a empregados rurais” e dois de Maria Conceição d`Incão, autoridade máxima do assunto, “Qual é a questão do boia-fria”, em que já no prefácio expõe suas angústias de trabalhar sobre o tema e “Boia-fria: acumulação e miséria”, além do ótimo livro de Ana Luiza Martins sobre os cem anos de Guariba, embora limitado sobre o assunto da migração e da greve, história recente de Guariba, mas como já disse, riquíssimo sobre a história não apenas da cidade mas de todo interior agrário paulista.

Faltou, uma pena, encontrar a tese interessantíssima do Demétrio Magnoli, “Agroindústria e urbanização: o caso de Guariba”, revelando os bastidores da migração e da construção na cidade.

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História local difícil de ser encontrada. Quando vamos acordar para nossa realidade?

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