A gente vai levando

Você tem medo de quê? Compromissos com quem? Nesta jornada fantástica de produzir um documentário nos deparamos com situações a partir das quais nunca mais seremos os mesmos. Nenhum homem se banha duas vezes no mesmo rio. Essa é a máxima verdadeira.

Durante quase dois anos de pesquisa e chegando quase à metade das gravações são incontáveis e mais variadas as experiências pelas quais passamos. Descobertas, assimilações, comparações, medo, desespero, coragem, força e união dentre tantas outras coisas.

A coragem foi uma das que mais me tocou. E é ela, como já se citou à exaustão, a responsável por garantir as demais virtudes dos homens, pois tudo se começa por ela.

Ainda assim seguimos neste nosso país tão cheio de problemas, o principal deles é a situção de insegurança e de falta de poder experimentado pela população. Uma das mais intrigantes questões levantadas pelo nosso filme é a esse respeito. Falamos de um período específco – 1984 – mas a partir do hoje, afinal Pessoa escreveu tão verdadeiramente “ tudo é a partir do ponto em que estamos”, e essa questão nos leva a pensar sobre o nosso momento no país. Mais de um participante já comparou o período aos tempos de hoje e a tudo que acontece.

Ontem mesmo em um diálogo com alguns alunos, quando exibimos o curta O boia-fria, muitos deles se mostraram preocupados com os rumos tomados pelo Brasil. A situação na região se agrava com a crise de desemprego do profissional da lavoura e o fim da profissão do corte de cana, tudo isso aliado à crescente mecanização e a onda de migrantes que continuam à espera de uma reforma agrária que os apoie na terra deles. Uma aluna me disse que foi dispensada junto com um punhado de trabalhadores da roça “ infelizmente é só isso que fizemos a vida inteira e agora estamos ficando desempregados”.

Outro cortador de cana muito jovem não quis se identificar na multidão, tem 41 anos, mas está afastado por motivo de doença provocada por aspirar a fuligem dos canaviais. “Tenho asma, ganhei minha vida cortando cana, até 17 toneladas por dia. Primeiro tive reumatismo e fiquei quase três meses duro em uma cama. Ganhei muito dinheiro, mas ( ele faz uma cara incompreensível, num misto de dor e descontentamento) veja a situação em que estou, afastado e com medo de que cortem o meu benefício. Além disso, estou proibido de realizar qualquer atividade física”

São muitas histórias, quase todas marcadas por acidentes e sofrimento.

No fim, quando olho para Guariba, vejo o Brasil e seus milhares de migrantes, a maior parte deles nordetinos, lutando para sobreviver, buscando seu espaço numa luta árdua contra os mais diversos problemas. Sem receber tratamento digno no sistema de saúde, sem educação de qualidade – o mecanismo maior de sobrevivência à bárbarie – e, portanto, convivendo com uma política despreocupada com as situações mais urgentes da nossa sociedade.

Ainda em 1984, quando uma luz de esperança passeava pela fresta de porta que se abria da ditadura, hoje parece que ela ainda não aqueceu suficientemente o coração das pessoas e, combinada a um sistema econômico devastador, torna mais real e viva a frase de Darcy Ribeiro “o Brasil é um moedor de carne….Humana”.

Em uma excelente entrevista de Maria Conceição D´Incao para o provocador curta O boia-fria de meu amigo Fê Sousa e do Centro Experimental de Cinema Cauim, ela sintetiza a necessidade da reforma e ecoa não tão distante em 1986.

Afinal de que forma estamos sustentando toda essa riqueza? Apenas usufruindo do conforto da tecnologia e do poder do cosumo e fechando os olhos para todos os nossos problemas sociais?

********

Uma lágrima para Lou Reed, “viver é colecionar ruínas”

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s