Nelson Rodrigues inventou o óbvio

Meus alunos do 7. Ano já estão cobrando as três músicas que prometi dar em aula este bimestre, sob a perspectiva de que eles não conhecem tantas e variadas canções como eu. Não que quisesse subestimar o conhecimento da alunada, alguns me olharam desconfiados, mas nem ousaram contestar o mestre neste quesito.

Uma pena.

Ainda não decidi o que levar, tem tanta coisa e sempre desconfiamos de como vão aceitar e reagir. As músicas do livro didático são muito boas, no entanto fora de ritmo para uma plateia de adolescentes em ebulição, além disso, pouco estão no meu dia a dia, dizer que ouço com freqüência o cio da terra e asa branca é mentira, porém ambas tem tudo a ver se as transportarmos para a nossa realidade social, principalmente se levarmos em conta o livro Realidade Nordestina de Vambeto Gomes de Jesus e o trabalho sobre os 30 anos 30 histórias da greve de Guariba que estamos produzindo.

Vou dar essas também, claro.

No entanto vou “trazer as aulas” para mais próximo do meu cotidiano e aproveitar o que a música tem de bom na atualidade, em vista de tanta tranqueirada que ” vocês vêm ouvindo ultimamente todo o tempo”, amaldiçoei.

Pensei em Tevê e boi do dono do Zeca Baleiro e A cidade do Nação Zumbi, embora nada ainda esteja definido. Deixemos para depois.

Mais tarde, na outra sala, continuamos a falar do jornalismo investigativo, porque o texto para estudar era o de um repórter que fazia uma denúncia sobre a exploração dos bolivianos ilegais no Brasil , aproveitei para frisar o perigo e a importância desse gênero jornalístico, citei o filme Gomorra baseado no livro de Roberto Saviano, jornalista que até hoje, segundo o wikipedia consultado em aula, continua sob a escolta de cinco policiais e não freqüenta locais públicos, além de mudar constantemente de endereço.

Ainda sob essas tragédias pessoais reveladoras do mundo pacífico em que vivemos, completei sobre a importância desse trabalho, pois ele nos mantém atentos a verdades ocultas pela imprensa comercial e pelos outros sistemas de poder. E ainda que soubesse que poucos ali arriscariam suas vidas para morrer de fome como jornalistas, em meio ao debate, destaquei a necessidade de ler as informações com olhos críticos e inteligentes e, porque eles são privilegiados, têm a obrigação de transmitir conhecimento. “Vamos ter que criar uma sociedade melhor do que esta que herdamos de nossos pais” .

No último momento do dia, o mais óbvio. Salve, Nelson. Com as imagens de destruição transmitidas à exaustão pela tv ainda no subconsciente e desejando que toda essa política educacional dos últimos anos seja implodida com seus criadores dentro, na ATPC de hoje uma boa notícia, por causa do concurso do Estado do fim do ano estávamos discutindo Paulo Freire. Depois de uma bela introdução do coordenador com o texto gelado daquelas apostilas de concurso, perguntei ” será que temos Paulo Freire na educação do estado de SP ? ”

Dentre alguns murmúrios, outros olhares estarrecidos e mais outros com ar cansado, uma resposta:

– na teoria, temos.

Uma pena.

Pedi licença ao coordenador Pedro, ” Paulo Freire é o meu educador favorito”.

Seguiu-se uma discussão muito frutífera sobre a necessidade de ensinar com total dedicação e para a transformação, uma professora comentou ” Paulo Freire afirma que apenas a educação pode transformar a sociedade e diminuir as injustiças e a desigualdade ”

Pensei comigo, “uma pena que esteja realmente tão distante de nossa vida e de nossas escolas. Há muito tempo que não ouvia falar o nome de Paulo Freire nas escolas, e tenho estado dentro delas em regime integral há pelo menos dez anos.”

Será que ainda há esperança ? Eu acho que sim.

Para esclarecer a dúvida de alguns, confirmei a data de sua morte em 1997.

No entanto Paulo Freire parece ver com bons olhos, onde quer que esteja, os movimentos pela educação e pela carreira do magistério nos últimos meses e, é claro, continua vivíssimo e, mais do que nunca, vital.

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A pedagogia dos oprimidos. Teoria e ação social se fundem em Paulo Freire.

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