Chiquinho na Associação – uma tarde rara e incomum

Eu estava indo de carro com o Sérgio Galvão para mais uma reunião sobre o nosso documentário Trajetórias, sobre a vida dos ex-cortadores de cana da greve de 84, quando meu telefone tocou, uma voz quase que gutural e de sotaque meio carioquês, meio sao-carlês, me esperava do outro lado da linha:

Bruno, estou aqui na esquina da pastoral ! Como chego aí na associação?”

Era o professor Francisco Alves, conhecido como Chiquinho, que daria o tom da conversa daquela tarde para nós da Associação Dr Afonso Arinos, que tenta recomeçar sob o comando do capoeirista José Nilson Santana, migrante de Ipirá (BA) e grande batalhador pelas causas da sociedade guaribense, afinal não é todo dia que se encontra um professor voluntário há mais de 20 anos salvando a vida de muitos jovens e ensinando a tantos outros a sabedoria, a história e a técnica de um dos esportes-símbolos do Brasil.

A história de Chiquinho é boa com Guariba, a sua tese de mestrado se pautou na Greve de 1984 ( pelo fim das sete ruas) e nos seus desdobramentos. Ele também acompanhou, participou e ,talvez, idealizou toda a formação do novo sindicalismo ” Pela base, pela base era o modelo sindical que se propunha naquela época ” me disse. E, de fato, aconteceu, o movimento sindical foi mais participativo, o próprio acordo de Guariba foi cumprido e seguido de modelo por anos a fio. Esse movimento todo culminou com a criação da Feraesp, “um marco na vida do trabalhador rural” , falou Cidinho Barros do sindicato de Barrinha, liderança da época, na entrevista que nos concedeu.

Estavam lá também Seu Danilo, viajante de todo Brasil e há tanto tempo morador de Guariba. Escreve e lê muito, seus escritos nunca foram publicados, mas o pouco que li sugere uma coletânea de textos provocadores e, às vezes, delirantes, como nunca vi. Vambeto Gomes de Jesus, também escritor, e para quem acompanha este blog, já sabe, autor do romance autobiográfico Realidade Nordestina,” uma” história emocionante sobre a trajetória de muitos migrantes nordestinos que vem para cá ganhar a vida. D. Maria, mulher de seu Danilo, e Leo, estudante de doutorado, acompanhava o Chiquinho.

Minha intenção era mostrar a eles um trecho de nosso filme – sem edição ainda – para saber a opinião de todos, principalmente Chiquinho, pois ele é autor de um conjunto de curta-metragens muito interessantes sobre o cortador de cana, a migração e a situação e organização sócio-política da região canavieira. Ao lado de Beto Novaes, maior autor-diretor de filmes desta temática da região, eles produziram Califórnia à brasileira, Guariba 1984 e A memória em nossas mãos, projeto muito parecido com o nosso por ser um filme de efeméride e de memória, como o título sugere. Todos esses com o foco sobre Guariba. O mais recente é Migrantes, sobre o quadro da nova migração de maranhenses e piauienses por essas bandas.

O Beto atualmente está na pós-produção de novo filme Linha de corte sobre o trabalho do cortador de cana e suas condições deploráveis.

Mas a conversa foi muito além, no início, uma pergunta bem sugestiva e provocadora de seu Danilo :

-Quais são as consequências, para a península Ibérica e para a atual América Latina, da derrota dos Mouros pelos cristãos em 1400 e poucos? ( o enciclopédico Seu Danilo nos falou sobre todas as datas e reinados, esse que vos escreve é o responsável pela imprecisão anterior)

Seguiu-se uma discussão muito interessante sobre a barbárie da época, a expulsão dos muçulmanos da península e a formação dos Estados português e espanhol, fato que abriu caminho para a era das grandes navegações e por aí a discussão seguiu…

Enfim não seria uma tarde com perguntas fáceis. Chiquinho brincava ” faz perguntas fáceis, faz perguntas fáceis”. Mas o debate ia nessa direção. Não havia temas fáceis, assim como não havia respostas tolas e levianas. Foi um diálogo muito frutífero, inclusive para o filme, como em momentos em que Chiquinho explica sobre a formação sindical na segunda metade dos anos 80. Enfim o que predominou foram as discussões sobre a situação da região, em várias esferas, como a político-sindical e a sócio-cultural.

Nos despedimos com uma sensação muito boa e diferente estampada no rosto. Tínhamos protagonizados uma tarde rara e incomum. Em meio a tanta correria, tiramos uma tarde de nossas vidas para conversar, discutir, aprender e celebrar a nossa existência. Em um mundo cada vez mais de compromissos financeiros, de construção da individualidade excessiva, realizamos uma reunião singela, mas repleta de significado.
Foto de Sérgio Galvão

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Seu Danilo, Chiquinho e José Nilson à vontade na sede da Comunidade Negra – cinema e sociedade

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4 comentários sobre “Chiquinho na Associação – uma tarde rara e incomum

  1. Foi uma tarde gratificante para nós, aprender com esses mestres é coisa que não perdemos mais, levamos a sabença para onde irmos isso é coisa simples e boa da vida.

  2. Valeu Professor Bruno ficou excelente a matéria, não tenho duvida estamos no caminho certo a lentidão faz parte do processo de responsabilidade caminhamos lentos mais importante é sabermos que estamos no caminho certo. abraço ótimo fim de semana f c DEUS.

    1. Isso aí, caminhando juntos somos mais fortes.

      Nilson, quando podemos ir falar com o Manezinho? Estou livre sábado, domingo e seg, Terça e quinta à noite. vamos tentar marcar esta semana.

      Abraço

      Tudo de bom !

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