A viagem de Che e A cidade dos gatos

Qualquer que seja sempre deixamos uma história. Quando se realiza um trabalho há sempre também um produto final. Pensando sobre isso, observo o fenômeno da educação e percebo o quanto o trabalho do professor possui uma medida subjetiva. Afinal, um vestibular ou essas avaliações institucionais criadas pelo governo de São Paulo, como o SARESP, e pelo governo federal, como a Prova Brasil, nada mais são do que mecanismos que medem ineficientemente o que realmente deveria se aprender na escola e como deveria ser a formação do indivíduo.

A educação deveria aparecer como um produto final e não apenas uma medida do quanto o aluno aprende de leitura e cálculo, ainda assim o que vemos são tentativas malfadadas há pelo menos dez anos.

Na última gravação que fizemos, nesse misto de encantamento, tensão e nervosismo, vai ficando mais evidente a transformação que uma história pode provocar em seus realizadores.

Quando falei com Sérgio Galvão, o fotógrafo do filme, que tinha em mente, naquele momento, a viagem de Che pela América do Sul, ele riu, não transparecendo se aquilo que eu havia acabado de falar seria uma bobagem ou uma demonstração de perigo. Na verdade o que quis afirmar é o quanto somos fisgados pela história quando entramos de cabeça nela. São marcas que não se apagam nunca. No caso de Ernesto Guevara, aquele momento foi o de transformação absoluta, brilhantemente retratado em seu diário e romanticamente adaptado às telas por um dos maiores cineastas da atualidade, Walter Salles, que soube dar vida a um dos momentos mais marcantes da história da América Latina e compreender o processo de formação e de descoberta do maior ícone da política de nossa região do século XX.

Guardadas as devidas proporções, cada vez que penso o quanto esse trabalho em que nós, mais o autor de Realidade Nordestina, Vambeto Gomes de Jesus, e a Comunidade Negra de Guariba, estamos envolvidos, chego a conclusão de que o que vale a pena em um trabalho é o quanto ele pode nos transformar.

Aprender no mundo em que cada vez mais estamos plugados em excessos de informações baratas e desnecessárias, é o caminho das pedras, mas o caminho, sem dúvida, do verdadeiro sentido de estarmos aqui.

Por outro lado, quando entramos em histórias, nunca mais saímos delas, temos que ser espertos para tomar o comando e aproveitar as oportunidades quando elas surgem, pode ser nossa única chance.

Por esses dias, continuando a jornada literária fantástica da leitura de Murakami, falei para meus alunos d’ A cidade dos gatos, e pudemos refletir justamente isso. O personagem que pegou um trem até esta cidade dominada por felinos de comportamento e tamanho incomum, tem que se virar para deixá-la e, embora a maioria deles ficaram curiosos e despertados pelo final da historia, comentei que muitas vezes as histórias não possuem o final que gostaríamos e que às vezes nem final há, como nossa vida.

E continuei indagando: Será que já não estamos na cidade dos gatos?Se sim, O que estamos fazendo nela? Como sair dela ou dar continuidade a viagem?

São questões muito interessantes e que confirmam mais uma vez que sempre começamos uma história e precisamos tirar o melhor dela, senão do que vale a pena participar.

Pude explicar isso a eles e comparar com o meu trabalho extra-classe, concluindo que tanto a produção de um filme quanto a educação é uma viagem para a vida toda, por isso precisamos saber em que direção estamos indo e dar o melhor de nós.

Assim como Che, em sua estada no sanatório como médico( certamente uma das mais marcantes de sua vida), diz para uma mulher em tratamento que a vida é uma luta e que “temos que batalhar por toda bocada de ar”.

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Quando Fuser estende a mão para cumprimentar um dos internados no sanatório, ambos sabiam que suas histórias seriam marcadas para sempre.

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2 comentários sobre “A viagem de Che e A cidade dos gatos

  1. Acho que na verdade estou per/seguindo seus escritos no blog… Gosto muito e me identifico com aqueles que falam de Escola. Sua colocação sobre os sistemas de avaliação que desconsideram o processo, valorizando apenas os resultados e que – “amarrando” com meu comentário anterior – condicionam cada vez mais nossa prática, distanciando estudantes e professores de uma formação integral, bem como a maneira como você descreve a forma com que leva as histórias, a literatura e os livros para sala de aula, me fizeram lembrar um trechinho de Roberto Piva… “o Estado mantém as pessoas ocupadas o tempo integral para que elas NÃO pensem eroticamente, libertariamente. Novalis, o poeta do romantismo alemão que contemplou a Flor Azul, afirmou: ‘Quem é muito velho para delirar, evite reuniões juvenis. Agora é tempo de saturnais literárias. Quanto mais variada a vida tanto melhor’ “. Bom, né? Abraço grande!

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