“Alô, Bozo” dia de crônica de Antônio Prata

Faz tempo que tento ler a revista Piauí em tempo, mas sempre me atraso e só agora neste final de agosto que consigo dar cabo – às reportagens, perfis, ensaios e outros textos literários como o delicioso de Mário Sérgio Conti sobre o filho de Mário Prata e vizinho de infância de Antonio Candido – da revista de julho.

Prometi a meus alunos que no final da aula leria para eles uma crônica muito bacana do tal do Antônio Prata.

Alô, Bozo ( http://revistapiaui.estadao.com.br/edicao-82/cronica/alo-bozo )me fez lembrar da infância quando assistia a programas em que crianças como eu ( quem nunca tentou ) participavam, ao vivo, via telefone – daqueles antigos mesmo de girar e de “fio preto e espiralado num abismo de expectativa” – de uma prova que mais envolvia sorte (ou azar )do que qualquer outra coisa . E que criava uma expectativa tremenda nos corações puros da infância.

Imaginei que os alunos não tivessem passado por isso e me preocupou a possível não diversão da turma, mas foi o oposto. Primeiro porque ainda existe um programa “bom dia e companhia” que realiza estas provas, embora sei que o Bozo de que falam não é o mesmo que conhecemos. Ainda assim expliquei parte da mitologia por trás da figura engraçada e fantamasgórica que mês restou.

Depois pude ver a diversão com que todos ouviam a história que guarda muitas surpresas e pude concluir também que aquela infância, que muito se debate se ainda existe, nunca acabou. As crianças sempre esperam histórias como aquelas, porque são as que ainda vivem ou que viveram num passado muito recente, e a crônica bem escrita é uma das poucas maneiras inteligentes e engraçadas que resiste a um tempo de tão pouca leitura, e se resiste, é porque foi lida ao acaso, inserida em um cotidiano escolar ainda frio e que sente tanto a falta de mais investimento em livros e bibliotecas. Ainda assim, sentir a resposta positiva dos alunos ao texto foi reconfortante e incentivador.

Outras experiência literárias de hoje também foram bem curiosas. Pude rever sobre a mesa da ATPC o livro com a deliciosa crônica-polêmica de Ignácio de Loyola Brandão “Obscenidades para uma dona de casa” http://www.releituras.com/ilbrandao_obscenidades.asp e me deu muita vontade de ler para todos, escolhi não. Seria muito por aquele dia, quando pude ver mais uma vez no rosto das pessoas um endereço de luta e pouco resultado, fora a desmotivação de enfrentar os mais variados problemas, desde salas lotadas de indisciplina generalizada, há questões como falta de estrutura e desmotivação salarial e profissional – a profissão vem cada vez mais sofrendo golpes da sociedade com a perda da relevância profissional e salarial, convenhamos que vivemos em um mundo globalizado que valoriza cada vez mais o acúmulo de capital e o excesso de consumo com professor lutando em três períodos para sobreviver com sua família. Em uma etiqueta branca muito bonita e fitacrepada sobre a capa amarelada da coletânea, estava escrito “ material para uso do professor”. Um aviso aos desavisados sobre a historinha sem-vergonha do Loyola Brandão. Um escândalo. Uma delícia de história.

No momento que termino essa postagem, posso ver no meu pulso esquerdo duas pulseirinhas daquelas coloridas com dizeres e desejos, ganhei de alunas do sexto ano hoje, a amarela diz paz e a roxa , saúde. Se tem uma coisa que faz você aprender é estar ali na prática do dia a dia com os ouvidos atentos e os olhos bem abertos, é a vivência escolar. A educação no Brasil tem solução. Precisamos investir mais nas pessoas. Nunca se precisou tanto de uma educação mais pessoal e intuitiva. Em tempos de falta de tempo para tudo, conseguir com que o aluno foque sua vida na escola e debatermos juntos como podemos melhorá-la, é o caminho para transformar as pessoas.

Imagem

Quando mostrei aos alunos o desenho do sapato escandalosamente impresso nas páginas da revista, eles viram e apontaram ” é o sapato do palhaço Bozo “

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2 comentários sobre ““Alô, Bozo” dia de crônica de Antônio Prata

  1. Que escrito bacana, Bruno! Eu também havia pirado com esse texto da Revista Piauí (ainda que eu esteja um pouco receosa com muito textos da mesma…). Foi uma espécie de viagem na máquina do tempo do Dr. Brown, pois me lembrei das vezes em que telefonava para o programa sob o pretexto de ouvir apenas a gravação, mas com a oculta esperança do palhaço atender e eu arrasar no jogo da memória. Agora… a etiquetinha “material para uso do professor”- aparentemente divertida – me lembrou quando a Secretaria de Educação de São Paulo mandou retirar o quadrinho do Will Eisner, “Contrato com Deus”, das bibliotecas escolares. Bem, acho que ainda acredito que uma hora serei atendida e ganharei no jogo da memória… e também acredito em crianças, adolescentes e em professores que lêem histórias nas escolas públicas. Abraço grande!

    1. Então, hehe, tudo bom?

      É, foi muito divertido, por essas e outras que ainda acredito no poder da leitura e como ela pode mudar a educação no Brasil, e no prazer instantâneo de ver a reação da criançada.

      Legal ouvir você, eu gosto da revista Piauí, embora em alguns momentos me sinto cabreiro ao lê-la também, ainda assim é um bom mapa do que acontece no mundo da reportagem, matéria pela qual estou apaixonado…

      Abraço e até breve.

      Bruno

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