Murakami à beira-mar

Uma semana de aula quase se foi, ainda tenho mais algumas esta noite. E o que se nota é que educar hoje é, acima de tudo, colocar seu trabalho intelectual a serviço da sociedade.

Vivemos um mundo cheio de informações, mas vazio de conhecimento; pode-se ter acesso à música, cinema e literatura bem como à História e tantas outras curiosidades como nunca antes, no entanto, o conhecimento vem antes da informação, ele é algo a ser produzido no indivíduo em seu convívio social, na escola e na família, principalmente. E esse papel é fundamental, sobretudo o da escola, pois ela enriquece o mundo do jovem desenvolvendo a sensibilidade, o espírito crítico e despertando o incentivo à colaboração, necessidades tão especiais nos dias de hoje. Só uma sociedade com essas características tende a não embrutecer a alma e valorizar o outro.

Taí a batalha para a qual a educação, no sentido amplo da palavra, vem perdendo há um bom tempo. Embora os avanços com a universalização do ensino possa classificar minha opinião como pessimista, ainda é tão clara como o brilho do dia a necessidade de uma educação mais humana e pessoal.

Ainda assim o professor levanta para sua batalha diária, carregada de excesso de horas de trabalho que o impede de desfrutar de um momento de prazer e de se preparar intelectualmente para o desafio de ensinar numa rede de escolas em que não apenas o currículo se perdeu ( é compreensível ), mas também se encontra carente em infra-estrutura, tecnologia e estratégias de ensino.

No entanto, a maior perda para a sociedade é o professor não ter mais tempo para seu trabalho intelectual…mais tempo para ler Murakami e explicar para seus alunos curiosos e já acostumados a ver o mestre sempre com um livro nas mãos – e esse ano foram tantos e tão bons – a beleza de um grande romance ou de fazer em suas aulas um breve ( ou nem tanto ) comentário a respeito do nome estranho desse livro cuja personagem principal ou uma delas se revela uma assassina profissional com métodos, digamos, exóticos.

Em uma das salas eu li um dos capítulos em que Aomame explica exatamente o momento terrível pelo qual passou antes de tomar a decisão que mudaria sua vida. Muitos alunos ficaram eufóricos e durante um tempo, o silêncio e a atenção máxima na sala de aula reinaram.

Em outras salas pude ler e comentar outros trechos, o que se tornou um bom exercício, porque pude relembrar partes que já me esquecia e dar vigor à leitura, porque não o “toco” faz uma semana. Outra surpresa foi perceber que há espaço para a alta literatura contemporânea na escola, só falta nos acostumarmos e termos condições para isso.

Não estou falando de um aluno ter a obrigação de ler o romance todo de Murakami, mas, sim, estar preparado para desfrutar, um dia, a boa literatura. Tenho certeza de que há espaço para isso, mas precisamos sem dúvida de currículos melhores e que dialoguem com o que há de melhor na cultura pop e, como consequência, possam inserir nossos alunos nesse mundo da curiosidade intelectual que tanta falta faz na era da informática.

Ainda hoje, ao entrar na minha última aula da tarde, o 6. ano me pediu para ler mais um trecho do livro, mas estava exausto.

Vi aqui na internet o volume dois por 35 reais, mas fiquei interessado em ler também pelo menos Norwegian Wood, e expliquei a meus alunos que naquela capa de desenho vermelho, branco e preto interessantíssima da Companhia das letras estava escrito livro 1, e que o terceiro, última parte, nem havia sido lançado ou traduzido do japonês para o português.

 

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“Não se deixe enganar pelas aparências. A realidade é sempre única” é um dos lemas principais do romance de Murakami e um convite à reflexão.

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