Um dia é da caça, o outro é do caçador

Produzir um filme é sempre algo muito interessante. E se você está com pressa, aí que as coisas não andam. Esqueça datas e se preocupe com seu filme. Dê tempo ao tempo.

Em pouco mais de um mês de gravações já temos um material e tanto. Das trinta a trinta e cinco entrevistas previstas, realizamos 25%. No entanto é apenas agora que a história começa a se encaixar, até então “dirigindo no escuro”.

Outro ponto muito bom é que estou bem acompanhado. Comigo Vambeto Gomes de Jesus, autor de Realidade Nordestina e personagem do filme, me auxilia na produção e muito provavelmente estará conosco no roteiro. Na verdade sua presença é essencial, pois é ele o ” cartão de visitas ” ideal para se apresentar aos outros participantes do documentário, ele tanto quanto qualquer outro entrevistado possuem histórias de migração muito parecidas e também compartilham a participação na greve de Guariba da semana de 15 de maio de 1984.

Fica muito mais fácil o contato e conseguimos a confiança e a compreensão das pessoas.

Esta semana estivemos em um local de belíssima vista e conhecemos mais um migrante guaribense ” sou de Minas Gerais, da Zona da Mata ” ” derrubávamos toras a machadadas em pouco tempo… Mas hoje quase tudo se foi”.

Este cidadão guaribense há mais de 35 anos possui bela história de lutas e conquistas, e conversou com muito desprendimento e clareza sobre os mais diversos assuntos.

Imperdível.

Quem também faz um bom trabalho fotográfico (e de fotografia), é Sérgio Galvão, ele tem registrado momentos da pequena passagem pela memória das pessoas com subjetividade. Além disso vem oferecendo um material de qualidade impecável, temos alguns problemas com montagem de planos explicado pela falta de outros equipamentos. Além disso, o áudio não está talvez no nível que gostaríamos.

Mesmo assim vale a pena o risco, aliás, do que vale a vida sem ele.

Estamos caminhando bem e sofrendo como se sofre em todo bom trabalho. Âs vezes desanimamos, outras percebemos a necessidade de enfrentar as dificuldades quaisquer que sejam.

Em certas viagens, mais vale a viagem do que o destino a que se chega.

Por ora, é sempre difícil trabalhar por conta própria e enfrentar um par de contratempos, como fazer as pessoas entenderem a seriedade do trabalho e a necessidade de deixar este trabalho para a história do município de Guariba, como muitos outros, esquecido aqui no interior de SP, em situação que no início era de estagnação e agora de ligeiro declínio acompanhando a demanda do mercado global; e, como poucos, com uma história de luta e greve insuperável, que deixou marcas de diversas contas na paisagem da cidade e na mente de seus cidadãos.

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Hey you, o trabalho vem sendo feito. Junte-se a nós.

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“Alô, Bozo” dia de crônica de Antônio Prata

Faz tempo que tento ler a revista Piauí em tempo, mas sempre me atraso e só agora neste final de agosto que consigo dar cabo – às reportagens, perfis, ensaios e outros textos literários, como o delicioso de Mário Sérgio Conti sobre o filho de Mário Prata e vizinho de infância de Antonio Candido – da revista de julho.

Prometi a meus alunos que no final da aula leria para eles uma crônica muito bacana do tal do Antônio Prata.

Alô, Bozo ( http://revistapiaui.estadao.com.br/edicao-82/cronica/alo-bozo )me fez lembrar da infância quando assistia a programas em que crianças como eu ( quem nunca tentou ) participavam, ao vivo, via telefone – daqueles antigos mesmo de girar e de “fio preto e espiralado num abismo de expectativa” – de uma prova que mais envolvia sorte (ou azar )do que qualquer outra coisa. E que criava uma expectativa tremenda nos corações puros da infância.

Imaginei que os alunos não tivessem passado por isso e me preocupou a possível não diversão da turma, mas foi o oposto. Primeiro porque ainda existe um programa “bom dia e companhia” que realiza estas provas, embora sei que o Bozo de que falam não é o mesmo que conhecemos. Ainda assim expliquei parte da mitologia por trás da figura engraçada e fantamasgórica que me restou.

Depois pude ver a diversão com que todos ouviam a história, que guarda muitas surpresas, e pude concluir também que aquela infância, que muito se debate se ainda existe, nunca acabou. As crianças sempre esperam histórias como aquelas, porque são as que ainda vivem ou que viveram num passado muito recente, e a crônica bem escrita é uma das poucas maneiras inteligentes e engraçadas que resiste a um tempo de tão pouca leitura, e se resiste, é porque foi lida ao acaso, inserida em um cotidiano escolar ainda frio e que sente tanto a falta de mais investimento em livros e bibliotecas. Ainda assim, sentir a resposta positiva dos alunos ao texto foi reconfortante e incentivador.

Outras experiências literárias de hoje também foram bem curiosas. Pude rever sobre a mesa na sala onde se faz a ATPC o livro com a deliciosa crônica-polêmica de Ignácio de Loyola Brandão “Obscenidades para uma dona de casa” http://www.releituras.com/ilbrandao_obscenidades.asp e me deu muita vontade de ler para todos, entretanto escolhi não. Seria muito por aquele dia, quando pude ver mais uma vez no rosto das pessoas um endereço de luta e pouco resultado, fora a desmotivação de enfrentar os mais variados problemas, desde salas lotadas de indisciplina generalizada, há tamben questões como falta de estrutura mais a desmotivação salarial e profissional – a profissão vem cada vez mais sofrendo golpes da sociedade com a perda da relevância tanto profissional quanto salarial. Convenhamos: vivemos em um mundo globalizado que valoriza cada vez mais o acúmulo de capital e o excesso de consumo com o professor lutando em três períodos para sobreviver com sua família. Em uma etiqueta branca muito bonita e fitacrepada sobre a capa amarelada da coletânea, estava escrito “ material para uso do professor”. Um aviso aos desavisados sobre a historinha sem-vergonha do Loyola Brandão. Um escândalo. Uma delícia de história.

No momento em que termino esta postagem, posso ver no meu pulso esquerdo duas pulseirinhas daquelas coloridas com dizeres e desejos, ganhei de alunas do sexto ano hoje, a amarela diz paz e a roxa , saúde. Se tem uma coisa que faz você aprender é estar ali na prática do dia a dia com os ouvidos atentos e os olhos bem abertos – é a vivência escolar. A educação no Brasil tem solução. Precisamos investir mais nas pessoas. Nunca se precisou tanto de uma educação mais pessoal e intuitiva. Em tempos de falta de tempo para tudo, conseguir que o aluno foque sua vida na escola e debatermos juntos como podemos melhorá-la, é o caminho para transformar as pessoas.

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Quando mostrei aos alunos o desenho do sapato escandalosamente impresso nas páginas da revista, eles viram e apontaram ” é o sapato do palhaço Bozo “

Murakami à beira-mar

Uma semana de aula quase se foi, ainda tenho mais algumas esta noite. E o que se nota é que educar hoje é, acima de tudo, colocar seu trabalho intelectual a serviço da sociedade.

Vivemos um mundo cheio de informações, mas vazio de conhecimento; pode-se ter acesso à música, cinema e literatura bem como à História e tantas outras curiosidades como nunca antes, no entanto, o conhecimento vem antes da informação, ele é algo a ser produzido no indivíduo em seu convívio social, na escola e na família, principalmente. E esse papel é fundamental, sobretudo o da escola, pois ela enriquece o mundo do jovem desenvolvendo a sensibilidade, o espírito crítico e despertando o incentivo à colaboração, necessidades tão especiais nos dias de hoje. Só uma sociedade com essas características tende a não embrutecer a alma e valorizar o outro.

Taí a batalha para a qual a educação, no sentido amplo da palavra, vem perdendo há um bom tempo. Embora os avanços com a universalização do ensino possa classificar minha opinião como pessimista, ainda é tão clara como o brilho do dia a necessidade de uma educação mais humana e pessoal.

Ainda assim o professor levanta para sua batalha diária, carregada de excesso de horas de trabalho que o impede de desfrutar de um momento de prazer e de se preparar intelectualmente para o desafio de ensinar numa rede de escolas em que não apenas o currículo se perdeu ( é compreensível ), mas também se encontra carente em infra-estrutura, tecnologia e estratégias de ensino.

No entanto, a maior perda para a sociedade é o professor não ter mais tempo para seu trabalho intelectual…mais tempo para ler Murakami e explicar para seus alunos curiosos e já acostumados a ver o mestre sempre com um livro nas mãos – e esse ano foram tantos e tão bons – a beleza de um grande romance ou de fazer em suas aulas um breve ( ou nem tanto ) comentário a respeito do nome estranho desse livro cuja personagem principal ou uma delas se revela uma assassina profissional com métodos, digamos, exóticos.

Em uma das salas eu li um dos capítulos em que Aomame explica exatamente o momento terrível pelo qual passou antes de tomar a decisão que mudaria sua vida. Muitos alunos ficaram eufóricos e durante um tempo, o silêncio e a atenção máxima na sala de aula reinaram.

Em outras salas pude ler e comentar outros trechos, o que se tornou um bom exercício, porque pude relembrar partes que já me esquecia e dar vigor à leitura, porque não o “toco” faz uma semana. Outra surpresa foi perceber que há espaço para a alta literatura contemporânea na escola, só falta nos acostumarmos e termos condições para isso.

Não estou falando de um aluno ter a obrigação de ler o romance todo de Murakami, mas, sim, estar preparado para desfrutar, um dia, a boa literatura. Tenho certeza de que há espaço para isso, mas precisamos sem dúvida de currículos melhores e que dialoguem com o que há de melhor na cultura pop e, como consequência, possam inserir nossos alunos nesse mundo da curiosidade intelectual que tanta falta faz na era da informática.

Ainda hoje, ao entrar na minha última aula da tarde, o 6. ano me pediu para ler mais um trecho do livro, mas estava exausto.

Vi aqui na internet o volume dois por 35 reais, mas fiquei interessado em ler também pelo menos Norwegian Wood, e expliquei a meus alunos que naquela capa de desenho vermelho, branco e preto interessantíssima da Companhia das letras estava escrito livro 1, e que o terceiro, última parte, nem havia sido lançado ou traduzido do japonês para o português.

 

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“Não se deixe enganar pelas aparências. A realidade é sempre única” é um dos lemas principais do romance de Murakami e um convite à reflexão.