Romance autobiográfico – um gênero a cultivar

Não faz uma semana terminei de ler o romance autobiográfico, ou a primeira parte dele, Minha luta 1 – a morte do pai, de Karl Ove Knausgard, romancista norueguês que alcançou notoriedade mundial com esta obra, que como ele afirma, nada mais foi do que um pacto com o diabo. Ali ele expôs toda a amargura e o sofrimento com a família, além de conflitos íntimos banais e existenciais ao extremo.

E tive uma surpresa de gênero, pois é o segundo livro deste tipo que leio e nem sabia que existia um gênero específico, mas percebe-se que há uma tendência atual para transformar as histórias de nossas vidas em episódios narrativos, palmas para eles que conseguem envolver o leitor e discutir momentos de sua vida.

Por um bom tempo, desde que a literatura me convenceu como leitor de que existe algo muito além de nossas vidas, abominou-se o fato de comparar a vida do escritor com a obra. Ou melhor, confundir vida e obra. No entanto é comumente estudada a vida do autor para saber detalhes de sua obra, ou o porquê de tal característica em tal livro. Lógico que ficar reduzindo o poder da arte apenas explicando como esse autor viveu é tarefa para tolos ou para uma sessão de psicanálise e isso de nada vale se o que se procura é um bom livro. Machado de Assis é um caso muito debatido quando rompeu com as fontes inesgotáveis aparentemente do Romantismo e, justamente no momento que ficara doente, nos brindou com suas obras mais prolíficas e fundamentais da literatura mundial. O debate sempre fica: será que foi a proximidade com a morte que produziu Memórias Póstumas, ou a influência de suas leituras de Celine e outros? Ninguém nunca saberá, mesmo porque o livro de Brás Cubas se assume como ficção logo nas primeiras linhas, é um defunto-autor e não um autor-defunto.

Nos tempos de hoje me pego com o romance autobiográfico de Vambeto, que fiquei cabreiro em classificá-lo desse modo no início por não saber se tratar de gênero que existisse. Esse livro sim, e o de Knausgard, assumem bravamente o tom autobiográfico, tarefa corajosa e (acredito) penosa, pois não é fácil lidar com a própria história e menos fácil ainda transformar esta história num romance, em que as pessoas tomam ares de personagens, que acabam se transformando em uma ficção do próprio biografado e essa mistura torna cada vez mais borrada e incompreensível a fronteira entre vida e arte.

Ainda assim o romance autobiográfico tem uma sintonia peculiar com o leitor e o fisga pela curiosidade e pela honestidade com a própria história, nos vemos em várias daquelas situações – ainda que em outros ambientes, como na gelada Kristiansand ou na árida Ipirá – somos todos um só, vivemos as mesmas alegrias e passamos pelas mesmas dificuldades.

Isso não desqualifica o romance, e nunca vai, as páginas das grandes obras de ficção sempre permanecerão no panteão das grandes obras da humanidade, assim como continuarão a ser escritas. É apenas mais um capítulo que continua o gênero e vem funcionando muito bem, a obra de Karl Ove é sucesso mundial e principalmente local, na Noruega vendeu quase meio milhão de cópias num país de pouco mais de 5 milhôes de habitantes.

No Brasil, a obra de Vambeto vem, de forma independente, alcançando o coração dos leitores, já vendemos mais de 500 exemplares e passamos por várias cidades da região, em todas, a autobiografia chega bem perto na vida das pessoas, principalmente dos migrantes nordestinos, que encontram no romance novos caminhos para redescobrir a própria vida, se não são por esses caminhos e por essas forças de descoberta que versam todas as obras de arte da humanidade, quais são?

ImagemImagem Karl Ove e Vambeto: em Kristiansand ou em Ipirá somos um só

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4 comentários sobre “Romance autobiográfico – um gênero a cultivar

  1. O que eu acho bacana no tema é justamente a ideia de “transformar histórias de nossas vidas em episódios narrativos”, não somente pela possibilidade de aproximação ou mesmo identificação do leitor e/ou espectador (já pensando em “O espírito de 84”), mas pela re-criação de sua própria realidade pelo autor. Acho que isso é desenvolvido por alguns teóricos através do conceito de autoficção, mas… longe de correr o triste risco de submeter literatura ou outras manifestações artísticas a conceitos e recorrendo agora à re-criação do passado daqueles que vivenciaram o levante de guariba… me impressionou o fato de como a subjetividade constituiu, no teste do documentário, matéria prima tão forte para dar voz às pessoas e apresentar um possível – e encantador – “tom” do filme.
    Descontextualizando Godard “o bom documentário tende à ficção; a boa ficção tende ao documentário”, ao meu olhar, o cuidado e o respeito dado por você às representações desses entrevistados para “O espírito de 84” beirou a poesia… vide o sorriso de D. Dolores, compondo o quadro “Mulheres” ao dizer: “quando sortava todas as muieradas, ai você via lenço cor de rosa, lenço vermelho, lenço preto…”
    Se “algum filme em produção sabe até que ponto chegar?” Acho que não mas o caminho já está traçado… e está bem bonito, hein?!
    Abraço dessa (ex)pectadora =)

    1. Puxa, num tinha feito essa ligação, mas pude ver bem no momento que li seu comentário.

      Valeu, Paula. Estamos gravando, fico feliz em ouvir sua opinião, esperamos realizar mesmo um trabalho mais intimo sobre a greve, pelo menos até agora.

      Adorei a citação de Godard, o grande mestre. Já começa a ser muito útil na nossa reflexão.

      Abraço

      Continuamos a trocar ideias ! : )

    1. Paula, e aí?!

      Nem me fale, dei um tempo no fb, estava mais me atrapalhando do que ajudando.

      E tenho o blog ou o twitter para me comunicar.

      Meu email, se precisar, é bgaravello@gmail.com

      Que legal o trailer do filme que me mandou, gostei muito e farei de tudo para ir assistir a alguma exibição.

      Correria, início de semestre e a gente vê de tudo na educação, não é verdade?!

      Abraços,

      Bruno.

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