Nunca se cale diante de uma ameaça

Todos os dias é dia de aprender novas lições. No momento em que escrevo este post, há dias milhares de pessoas saem às ruas para protestar e levantar ideias acerca de como diminuir a desigualdade em um dos países onde ela é extremamente presente desde tempos imemoriais. Pode-se afirmar que nosso país e nossas instituições cresceram alicerçadas em contornos patriarcais e de quase completa impossibilidade de mobilidade social.

Mas os eventos dos dias de hoje também me fazem lembrar de muitas vezes que demonstrei minha indignação com a política de educação no Brasil e principalmente em São Paulo, da qual faço parte como professor há dez anos. Em uma delas, um ano atrás, quando participava de um curso para ingresso de professor no Magistério Público, sim, o professor depois de se classificar através de realização de provas, faz um curso de base virtual (90%) e recebe bolsa mensal para a realização de diversas atividades. Aconteceu em um encontro presencial, depois de uma exposição careta da supervisão de ensino que ainda teima em esconder e defender a ( falta ) de um projeto sério de educação em São Paulo e na qual a supervisora criticou a liberdade de cátedra, o direito sagrado de todo educador, afirmando que professores rejeitam a proposta pedagógica e recusam-se a concordar com as ideias expostas nela escorando-se no preceito de liberdade de pensamento, intervim “ Quando vamos ensinar nossos alunos a pensarem por conta própria “ e recebi uma resposta enfurecida; não contente, reafirmei ainda que o professor deve possuir postura crítica frente ao material, ou corre o risco de repetir ideias selecionadas ali que não condizem com a realidade do aluno e escondem outras visões de mundo que incomodam o poder, que, como vemos, há muito tempo fingia a satisfação da opinião pública através de estúpidas e infundadas pesquisa de opinião.

Como resultado, recebi uma resposta que há muito tempo me atormentou, não pela ideia discutida, isso não aconteceu, mas pelo tom ameaçador, autoritário (que me fez reviver as imagens da ditadura brasileira –  da qual a supervisora deve guardar sérias lembranças e da qual muitos que se dizem educadores na organização escolar estadual hoje participaram direta e indiretamente) e, sobretudo, o meu tormento derivava do meu silêncio diante de tal ameaça. “Recebi um golpe baixo e fui pego desprevenido “amargurava.

Então, tempos depois, com que satisfação não recebi as notícias dos protestos, pois percebia que o meu silêncio havia acabado e agora minha voz se unia ao coro das ruas que pede o fim desta política trágica ,de mais de 20 anos, da educação brasileira e vem para ( espero ) romper com essas raízes profundas do abuso de autoridade, da falta de preparo e, principalmente, com a hierárquica política da educação, ocasião em que os professores não são ouvidos, em que muitos cargos de organização escolar são preenchidos através de ausência de critérios ou principalmente, através de critérios políticos, como a velha troca de favores, fato que obviamente inibe a autonomia e coloca nas mãos de gente despreparada política e socialmente, a maior chance de mudança na sociedade.

Entre tantas propostas de mudanças que a multidão exige nas ruas, espero que esta seja uma das primeiras a serem atendidas. Tornar determinada reivindicação uma realidade, num país totalmente marcado por esta relação de poder, será um processo difícil, lento e com a necessidade da transparência e da união das pessoas. Mas se tudo isso continuar a acontecer e deve continuar, nossa voz (ou como disse a presidente ontem “a voz da cidadania”) nunca mais será calada, nem diante de ameaças nem diante de qualquer outra coisa que fira nossa maior conquista: o direito de expressar nossa opinião.

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