o tempo da educação

Tem uma expressão popular que carrego sempre comigo que diz “não é a quantidade que importa, mas a qualidade “, e ela cabe muito a esse nosso contexto escolar, muitas vezes, cheio de regras, com tempo cronometrado que os gestores da educação influenciados por uma onda hierárquica e retrógrada teimam em defender, com o acréscimo infeliz da proposta malfadada e enganosa das escolas de tempo integral. Mais uma vez, a quantidade sobrepuja a qualidade ou qualquer outra ideia que valha.

Nessa caminhada vivemos sob a ditadura do relógio, ainda que a pressão pelas horas trabalhadas ou estudadas seja matéria de mais de dois séculos – quando a produção industrial se valeu dos acúmulos de horas e exploração do trabalhador – e vá na contramão de grandes pensadores que recomendam o incentivo à criação, como Domenico de Masi explica em seu livro O ócio criativo.

Não é novidade dizer que educar-se é para sempre e a missão maior da escola não é apenas cumprir horas ou 200 dias letivos, mas sobretudo ensinar ao educando a autoaprendizagem, o gosto pelos estudos e pela apreciação da cultura, esta disponível em larga escala devido à expansão dos meios de informação.

Ainda assim, sob o signo do relógio ainda trabalhamos movidos pela repetição diária de sinais a cada 50 minutos, momento em que o fluxo de conhecimento é cortado para se tentar dar início a outro, exemplo, toca o sinal, hora de parar de pensar em língua portuguesa e começar a pensar em matemática, chega de pensar em geografia, agora é a hora de aprender inglês. Desse modo ainda estanque, se faz a educação no Brasil. Não que esse seja o maior problema, não existem muitas alternativas com o atual currículo engessado em que o professor é um mero executor de tarefas e cumpridor de ordens, raramente ouvido, mas o atual modelo se mostra desgastado, arcaico e obsoleto, principalmente pelo fato de que parece muitas vezes a única coisa que se deve fazer e desconsidera o fato de que o tempo e o aprender são medidas abstratas também.

Dentro desse cotidiano o que resta ao professor é tentar ser o dono do tempo na sala de aula e escapar dessas amarras ferozes e tiranas do tempo cronometrado para poder fazer render sua aula.

O que fica óbvio mesmo é que o aluno não precisa de mais tempo estanque dentro da sala de aula ou da escola, ele precisa de livre circulação nela, para isso o ambiente precisa se mostrar agradável e receptivo, precisa se mostrar de portas abertas para a comunidade, e não à parte, separado através de altos muros, grades, cercas elétricas, câmeras e outras tendências do mundo brasileiro contemporâneo.

Uma dica, em vez de investir na bobagem de tempo integral, mais ditadura do relógio, invista numa escola receptiva, com bibliotecas abertas para a comunidade, salas de informática e mídia prontas para atender o cidadão a qualquer hora do dia, quando ele preferir. Para isso, trabalhar em conjunto com o professor que vai preparar o terreno para esse aluno participar efetivamente da sua comunidade é essencial.

Assim este ambiente vai se transformar naquilo que sempre deveria ter sido: local de vida comum, mantido e usado por todas as pessoas, independente de classe ou qualquer outra coisa. Só assim o tempo da educação estará em nossas mãos e não na obrigação temporal de estar na escola.

Essa semana se foi um colega de trabalho, amigo e grande pessoa, professor Paulo, vai fazer falta. Muito embora não acredito no tempo como algo que só nos empurra para frente indelevelmente, mas nos dias que passamos juntos e que ensinou para seus alunos, estes se farão sempre presentes na memória, local de onde nunca vai sair e onde o tempo não pode ser medido, mas sim reinventado a todo momento.

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2 comentários sobre “o tempo da educação

  1. Infelizmente é o que está acontecendo. Todos nós conhecemos a frase: Na sala de aula a autoridade é o professor. Mas os professores só têm autoridade até o sinal tocar. Foi muito bem colocado este argumento, poucas pessoas pensam assim, mas para que se resolva o problema, é preciso fazer ,destas poucas pessoas, a maioria. Mas não é fácil, nem do dia para a noite mudar esta realidade.

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