Discurso pronto é uma armadilha

Saíram os resultados do Saresp 2012: nada de surpreendente. Nível dos alunos em leitura e cálculo lá embaixo, e a gente se perguntando por quê. Ouvi hoje que deve ser por que os alunos não têm interesse em fazer a prova ou por que não ganham nada com isso.

Então o correto seria premiar esse aluno? Será que na vida tudo que fazemos tem que ter um prêmio? O que estou estimulando, então? A competição num mundo que já se mostra doente, em que as pessoas estão, todos os dias, se digladiando?

Desculpe mas me recuso a essa ideia. Ele tem que fazer a prova sabendo que é o teste para resolver seus problemas de aprendizagem e dos estudantes que vêm depois deles. Se a escola não se presta nem para mudar a atitude de um jovem diante de um verificador de aprendizagem tão importante ou de encarar uma prova como algo sério e necessário, o que estamos ensinando?

O que está claro mesmo é que o resultado é baixo, uma vez que eles não sabem resolver e interpretar as questões. E atesta apenas o fracasso das propostas pedagógicas de muitos anos, quando a educação caiu na armadilha de politicalhas, que não a vêem como política de estado acima de tudo, mas apenas como um curralzão eleitoral ou uma forma muito eficiente de manter a sociedade marginalizada cada vez mais longe do poder, das universidades, das vagas de emprego e da luta por seus direitos. Parece lugar-comum, mas não é arriscado dizer que, manter o atual estado das coisas, é lucrativo para muitas formas de fazer política.

Mas é lógico que não é apenas isso.

O Saresp só escandaliza o que estamos cansados de ver todos os dias, os mais diversos problemas da educação, dentre eles, a espinha dorsal: professores cansados e extremamente desmotivados, vítimas de uma política de trabalho não apenas de desvalorização salarial, mas também que os deixa acuados, para não perder seus poucos direitos de uma legislação esdrúxula. Ainda assim há outros inúmeros problemas: classes lotadas, falta de estrutura e material adequado, a ausência das famílias na escola, excesso de obrigações e papeis burocráticos obsoletos, péssimas medidas de investimento em bibliotecas. Há algumas que verdadeiramente funcionam?

Todo esses problemas somados a uma crise cultural, econômica e ambiental sem precedentes na história da humanidade, coloca o país num ciclo doentio e sem condições de qualquer tentativa de mudança.

O que me angustia é, na verdade, a questão sobre o que estamos fazendo?

Não seria a escola a responsável por essa mudança de pensamento? Através dela não iríamos em busca da verdadeira vida em comunidade, da celebração do bem viver e do incentivo à colaboração no lugar da competitividade?

A meta para a educação do Brasil seria alcançar no início de 2020 a média 6,0 dos países desenvolvidos, no entanto depois de anos de políticas desastrosas e descompromissadas , não alcançamos, na maioria das escolas, nos últimos dez anos, nem metade disso.

Na maior parte de São Paulo, as médias não chegam a 2,5.

Não vamos cair em discursos prontos, a situação é grave é merece tomada de atitude, nós, professores, sabemos que há muito tempo não se é levada a sério a educação no Brasil.

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Crianças sírias correm em campo de refugiados. E no Brasil, o que nossas crianças aprendem?

Matéria da história

Muito legal o encontro A história em debate, sobre a greve de Guariba e o ano de 1984, que gerou a discussão acerca das consequências daquele evento para a vida das pessoas e para o trabalho nos canaviais, no sindicalismo e na política, nos estudos sociais e na economia.

Chiquinho Alves, autor de diversos livros e filmes, em sua fala, marcou o encontro. Entre suas palavras ” faz 29 anos que conheço Guariba ” e ” os migrantes, na verdade, foram expulsos de suas terras” , concentram-se o poder de encantar as pessoas, a certeza da relevância do assunto e o conhecimento das maiores causas da pobreza e da exploração.

Despojado e hábil pôde descrever, com perspicácia e incrível franqueza, parte do momento histórico brasileiro, as causas da greve, a situação do migrante, o processo industrial e econômico de nossa região e comparar toda essa conjuntura com o atual estado das coisas.

Imperdível.

Outro debate visualmente chocante e de teor não menos polêmico do qual participei foi a mesa “A história da Greve dos boias-frias de Guariba contada em dez fotografias ” . Pudemos ver e comentar fotos que não estão disponíveis para o público, as quais fazem parte do acervo do museu da cidade, que não está em funcionamento. O trabalho fotográfico de grandes nomes do fotojornalismo brasileiro, como Carlos Fenerich e Rolando de Freitas, compõe a história da cidade e do Brasil, além disso, o maior resultado da greve, o Acordo Coletivo de trabalho, é histórico, pois não apenas é o primeiro advindo de uma “negociação ” direta entre trabalhadores e patrões, como também pôde garantir para o trabalhador rural direitos trabalhistas já conquistados pela classe trabalhadora brasileira dezenas de anos atrás.

Ficamos muito contentes de ver o anfiteatro lotado, muitos meus alunos ou ex-alunos, amigos, munícipes de várias esferas da sociedade. Muito me alegra saber que o tema escolhido para o nosso próximo trabalho, um documentário, interessa tanto as pessoas e narra um episódio inédito no país, que é, sem dúvida, mais um motivo para levar o trabalho a sério.

PS. As fotografias das mesas de debate são de Sérgio Galvão e falam por elas. Na sequência: Chiquinho Alves, eu, Vambeto Gomes de jesus e José de Fátima.

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nossos amigos secretos, os escritores

Há um tempo acompanho autores da nossa literatura, como romancistas, cronistas e articulistas contemporâneos que preenchem nossas vidas com suas idéias, expressões, comentários e histórias.

No entanto, um deles que sigo mais de perto e tenho, não raro, a oportunidade de acompanhar e fazer parte do trabalho é Vambeto Gomes de Jesus. Seu romance de estréia, Realidade Nordestina, é um marco para a literatura de nossa região. Narra de forma engraçada, envolvente e inédita, a trajetória de um menino nascido e criado no sertão da Bahia e que aos 18 anos enfrenta a vida de migrante e chega ao interior de São Paulo, em 1984, para trabalhar como cortador de cana.

Nesta segunda-feira, estivemos nas Faculdades São Luís, nos acompanhava a simpaticíssima filha dele, Vanicleia. Depois de uma boa vitamina de açaí e de pedir a opinião de meus alunos do ensino fundamental, no período da tarde, a respeito da apresentação, percebi o quanto eles se sentiram eufóricos em poder opinar, pensei “ esse é o caminho”. Então segui à casa de Vambeto e às 19h aportamos na faculdade.

O auditório estava lotado, duas turmas de pedagogia assistiam à apresentação, no início pude apresentar o autor e citar um trecho de Gabriel Garcia Marques de seu livro de memórias de que gosto tanto e que é um dos alicerces de Realidade Nordestina “A vida não é o que se viveu, mas o que se lembra, e como isso é lembrado para ser contado”.

Em seguida conversamos um pouco sobre as causas da migração, a emocionante e difícil vida de encarar a estrada “sem lenço e sem documento” e a tarefa de escrever um livro num país que tem pouquíssimos leitores, que é afogado por campanhas literárias de best-sellers vazios, e, como seqüência, abre pouco espaço para novos autores. “Essa bandeira eu levanto, a dos autores regionais, que falam tanto sobre quem somos” ponderei.

Um dos momentos sagrados em encontros literários é a leitura da obra do autor, o capítulo escolhido foi o décimo terceiro “A escola foi desativada”, o qual abriu um leque muito grande para debater a educação no Brasil, o trecho conta a precariedade do ensino na Bahia em 1972 e o duelo entre o fazendeiro e a rendeira, disputa tantas vezes latente na vida daquelas pessoas.

A participação foi significativa, pudemos debater, nos divertir e incentivar a literatura, nosso primeiro mote, além disso, ficamos muito satisfeitos ao ouvir os alunos destacarem a apresentação como mais uma motivação para o trabalho futuro deles e, sem dúvida, mostrarem o quanto se faz cada vez mais urgente a postura cidadã do professor e o diálogo aberto com todas as culturas que compõem esse rico país.

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