Pra começo de conversa

O discurso angustiante de José Genoino, o novo livro de Paulo Moreira Leite e o nó Brasil

Arriscar um primeiro post, que tem bastante coisa, dentre elas a principal, o fato de ser o primeiro de um longo período de indecisão e falta de iniciativa, é no mínimo uma tarefa inglória e muito difícil. Isso porque o que se propõe aqui não deve ser nada de grandioso, embora muitas vezes o assunto o seja.
Estive durante um tempo pesquisando a greve dos bóias-frias de Guariba e entrevistando diversas pessoas que participaram do evento ou presenciaram-no. Por isso e pelo fato de ainda ser petista,no domingo passado, fui convidado para participar do debate sobre o livro do jornalista Paulo Moreira Leite, A outra história do mensalão, que tinha mais dois objetivos: reunir a juventude do PT da região de Araquara e apresentar a aqueles como eu, jovem que celebrou a chegada histórica do PT à presidência, o condenado pelo STF e mais uma vez deputado José Genoino.
Saímos às 8h horas da manhã, comigo o coordenador da macro de Ribeirão Preto Moacir Caporusso e Will Ribeiro, jovem promessa do PT em Guariba e estudante da Unesp de Jaboticabal , que revelou ser aluno de Baccarin, economista e figura forte do PT na região.
Pegamos a vicinal Guariba a Motuca e inundamos nossa vista com o vasto verde dos canaviais, depois rumamos para Bueno de Andrade, terra da famosa coxinha, imortalizada em uma crônica de Loyola Brandão, segundo Moacir, embora muitos pensem o contrário, até o próprio Ignácio. “Esse é um dos grandes da nossa crônica, Moacir”, alertei. “uma pena tão grande escritor, nosso vizinho, e que anda pelo país todo por feiras literárias, nunca ter ido a Guariba. “ E ele está sempre por aqui, tem uma fazenda aqui” completou.
Ainda achei engraçado ver o rosto dele em um grande pôster em frente ao bar-restaurante e pensei também em outro fazendeiro-literário da região, o tio Pio de Mário de Andrade, local onde o modernista muitas vezes se refugiava da loucura da Pauliceia Desvairada. E também se muitos conheciam de fato o autor de Zero.
Um dos fatores marcantes da minha ida a esse encontro seria estar próximo de muitas pessoas com quem gostaria de conversar para ampliar o repertório do roteiro O espírito de 84 e a greve de Guariba, e também conhecer um dos salões da FERAESP, um dos maiores sindicatos filiados à CUT, a entidade que representa esse mar de trabalhadores rurais da onda verde da cana-de-açúcar na região.
O salão é imenso, agradável e bem cuidado, no interior à frente, há um palco de bom tamanho e, naquele dia, ele havia se enchido de cadeiras de plástico brancas para receber as lideranças do PT e Paulo que, depois de presenciar as falas entusiasmadas de diversas personalidades, como o deputado estadual Edinho Silva, o federal Newton Lima e José Genoino – que fez um discurso memorável e angustiante – abriu sua fala com “ pra começo de conversa não sou petista”, e não foi vaiado, pensei comigo “menos mal”.
José Genoino é um homem alto e com postura forte, cabelos e barba grisalhos e voz rápida carregada de um sotaque nordestino ainda forte. Num discurso de mais de dez minutos defendeu sua história, recitou Padre Antonio Vieira e citou o novo filme de Vinterberg A caça para comentar sobre acusações injustas e o mito da perseguição “ Não há provas comprovadas contra mim, não existe deputado que recebeu qualquer pagamento mensal descrito no processo…querem apagar a minha história de luta e impedir que demos seqüência ao maior projeto de erradicação da pobreza e desenvolvimento desse país…nunca antes na história desse país…etc…” suava a bicas e vez por outra ia ao recuo lateral do salão para fumar “não bebe, mas é um fumante inveterado” afirmou a cadeira vizinha. Numa dessas idas ao cantinho dos fumantes, pude estar a seu lado e trocamos olhares por algum segundo, pude perceber um líder bastante angustiado e ciente da sua luta pela inocência, não pude trocar palavras, o clima de tietagem, como uma militante de Taquaritinga com a estrela do PT do lado direito do peito e outros que queriam tirar foto com a figura, me impediram.
Em muitos pontos devo concordar com o senhor José Genoino, o mensalão, um dos maiores processos já realizados na história da política brasileira, como afirmou depois Paulo, está mal esclarecido, teve uma repercussão televisiva imprecisa e, no meio de tantos escândalos e poucas condenações ou mesmo julgamentos políticos, como o caso do mensalão mineiro, em surdina até hoje, fica escancarado que o Estado trata assuntos de imensa importância como a justiça e a democracia de forma tão superficial, tendenciosa e rasa.
Entretanto, o lado polêmico da fala de Genoino provém do fato de que há um processo de judicialização no Brasil, e “isso é perigoso”, “será que eles são príncipes além do bem e do mal?” e “querem tirar a legitimidade de um presidente eleito por votar popular duas vezes e feito uma sucessora que continua este projeto. Ele ainda vai além “Chavez morreu, Lula é e sempre foi o maior líder da América Latina e nós que hoje construímos o futuro não apenas na nossa região”, e completou” a sabedoria popular está acima de qualquer coisa, temos índices de aprovação recorde”
A julgar pela fala e pela proposta do livro de Paulinho, ele também está de acordo com a idéia de que se precisa avaliar exatamente os fatos, ter consciência de que a imprensa pode influenciar qualquer situação e de que as forças democráticas precisam ser fortalecidas uma vez que essa mesma imprensa pode ser facilmente manipulada ou não oferecer um debate mais sério para uma população de quase 40% de analfabetos funcionais, que tem os índices educacionais dos alunos na fase final do Ensino Médio mais baixos do mundo, em capacidade leitora e de cálculo, bem como oferece poucas vagas nas universidades públicas, e muitas não chegam a ser preenchidas.
A discussão é válida, não acredito que deva haver regulação na Imprensa, como se propaga a idéia pelos quatro ventos, não obstante a questão ética deve ser reavaliada no Brasil. Há sujeira por toda parte e precisamos avaliar com o mesmo rigor ou com transparência absoluta os casos de corrupção de qualquer tipo e em qualquer esfera pública, para o bem da cidadania. Também precisamos de um novo projeto educacional, pois não dá pra se falar tanto em sabedoria popular quando poucos ainda têm acesso ao grau mais alto e diverso de conhecimento e vivem debaixo de tantos maus exemplos. Também acredito que nossa história deva ser usada em favor de nossa conduta, mas não deve nos eximir de culpa ou perdoar nossos desvios e silêncios.

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2 comentários sobre “Pra começo de conversa

  1. Professor, se pelo menos a metade das pessoas que governam nosso país pensasse como você, o Brasil, indubitavelmente, estaria caminhando para o desenvolvimento.
    Gostei do post, se isso é apenas o começo, imagine o que vem pela frente…

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