Sinta-se indignado pelo papel da América na crise que afeta o Iêmen

Os EUA abastecem com bombas e outras armas a guerra que mata civis e está gerando mais uma crise de fome no mundo

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A notícia sobre Bret Kavanaugh e Rod Rosenstein é viciante, mas reserve um tempo para um Crime contra a Humanidade que os EUA estão provocando no distante Iêmen.

Presidente Trump não mencionou isto nas Nações Unidas, mas a América está colaborando com a morte, a mutilação e a fome de várias crianças iemenitas. Ao menos 8 milhões de iemenitas correm risco de desnutrição por uma crise alimentar que não foi causada por falhas na safra de alimentos, mas causada pelos americanos e seus aliados. As Nações Unidas estão chamando de pior crise humanitária atual e nós a causamos.

Uma bomba americana fabricada por Lockheed Martin atingiu um ônibus escolar o mês passado matando 51 pessoas. Um pouco antes, bombas americanas mataram 155 pessoas que atendiam a um funeral e 97 pessoas em um mercado.

Crianças iemenitas passando fome acabam tendo que se alimentar de uma espécie de sopa de folhas. Mesmo aquelas que sobreviverem ficarão comprometidas pelo resto da vida, física e psicologicamente.

Muitos assuntos de segurança global envolvem negociações complexas, mas esta é diferente: nosso comportamento é inadmissível.

A atual crise no Iêmen é provocada pelo homem, disse David Miliband, ex-secretário britânico e atual do Comitê Internacional de Resgate, que recentemente retornou do Iêmen. “Este não é caso em que o sofrimento humanitário é o preço a pagar por vencer uma guerra. Ninguém está vencendo, exceto os extremistas que grassam no caos”.

Os EUA não estão diretamente lançando bombas no Iêmen, mas abastecem com armas, inteligência e suporte aéreo a Arábia Saudita e os Emirados Árabes enquanto eles massacram o Iêmen com ataques aéreos, destroem sua economia e deixam a população à beira da fome e miséria. O objetivo dos sauditas é derrotar rebeldes Houthi que tomaram a capital do Iêmen e estão alinhados ao Iran.

Esta é uma sofisticada REALPOLITIK para você: porque não gostamos dos Aiatolás iranianos, vamos matar de fome as crianças iemenitas.

“O governo Trump é cúmplice de uma sistemática de crime de guerras”, disse Kenneth Roth do Human Rights Watch.

Vamos ser claros, também. Esta é uma catástrofe moral bipartidária. Esta política começou com Barack Obama, com algumas reservas, e depois Trump a multiplicou e descartou qualquer reserva.

“A guerra no Iêmen é hoje considerada a pior tragédia humanitária em curso no mundo”, disse Robert Malley, um ex-assessor de Obama que reconhece os erros do governo no Iêmen – que Trump tem agravado. Agora presidente do GRUPO PARA CRISE INTERNACIONAL, uma organização sem fins lucrativos trabalhando para evitar conflitos, Malley acrescentou “ Pelas nossas ações e inações, somos inevitavelmente cúmplices de tudo isso”.

Eu sei, eu sei. Todos os nossos olhares estão focados no reality show que é a Casa Branca de Trump. No entanto não podemos deixar Trump sugar todo o oxigênio de assuntos que envolvem vida e morte. O drama de Trump não pode anular as tragédias globais.

O massacre no Iêmen só não é mais visível porque os sauditas usam bloqueios para manter os jornalistas longe do país. Faz dois anos que estou tentando viajar ao país, porém os sauditas me barram de ir com grupos de ajuda.

Os dois lados desta guerra civil têm às vezes se comportado de forma brutal, e a única saída é a diplomacia. Mas o príncipe saudita prefere a fome e uma estado fracassado no Iêmen a qualquer outro compromisso, e quanto mais oferecemos armas a ele mais prolongamos os sofrimentos. Deveríamos usar nossa inteligência a fim de parar os sauditas e não os incentivar.

Para crédito nosso, alguns congressistas estão tentando parar esta atrocidade. Um esforço bipartidário, liderados pelos senadores Mike Lee, Chris Murphy e Bernie Sanders tentou limitar apoio à guerra no Iêmen e surpreendentemente conseguiu algo bom, com 44 votos. Outros esforços estão a caminho.

Líderes mundiais se reuniram na Assembleia Geral da ONU, fizeram votos sobre os objetivos globais em busca de um mundo melhor, mas a assembleia está infundida de hipocrisia. Rússia não dá a mínima para os crimes contra a humanidade na Síria, a China mantém detidos talvez um milhão de UIGHURS enquanto também apoia Mianmar em seu provável genocídio, e os EUA e o Reino Unido estão ajudando os sauditas a cometer crimes de guerra no Iêmen.

Isto é patético: quatro dos cinco membros permanentes do Conselho de Segurança das Nações Unidas são cúmplices de crime contra a humanidade.

Muitos americanos irrompem em fúria quando Trump mente, ou tuíta algum comentário indesculpável. Por favor, indigne-se, no entanto, guarde mais indignação para outros atos ainda mais monstruosos – aqueles em que contribuímos para matar crianças de fome numa das piores crises humanitárias dos últimos anos.

 

Tradução da coluna do Nicholas Kristof no NYT de 26/09/2018

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A gestão participativa e a história da comunidade

A GESTÃO PARTICIPATIVA E A HISTÓRIA DA COMUNIDADE: CAMINHOS PARA A CONSTRUÇÃO DA IDENTIDADE ESCOLAR

FACULDADE DE EDUCAÇÃO SÃO LUÍS
JABOTICABAL
2016
BRUNO GARAVELLO

A GESTÃO PARTICIPATIVA E A HISTÓRIA DA COMUNIDADE: CAMINHOS PARA A CONSTRUÇÃO DA IDENTIDADE ESCOLAR

Trabalho de Conclusão de Curso apresentado à Faculdade de Educação São Luís, como exigência parcial para a conclusão do curso de pós-graduação em Gestão Escolar.

Orientadora: Profa. Dra. Adriana Turqueti

FACULDADE DE EDUCAÇÃO SÃO LUÍS
JABOTICABAL 2016

Dedico
Aos meus familiares, pelos sorrisos e choros, alegrias e tristezas compartilhadas.

AGRADECIMENTOS

Agradeço a Vambeto Gomes de Jesus, José Nilson Santana e José de Fátima Soares pelo apoio e participação neste trabalho.

“Não basta que seja pura e justa a nossa causa. É preciso que a pureza e a justiça existam dentro de nós”
Mia Couto

RESUMO

O trabalho a seguir faz um estudo acerca da importância da história da comunidade para a (re)construção da identidade da escola, na qual está inserida, em outras palavras, é uma forma de afirmar que a escola/comunidade são indissociáveis, perante uma verdadeira gestão democrática e participativa da unidade escolar. O trabalho participativo, assim como o Projeto Político Pedagógico elaborado em sintonia com às necessidades locais, são capazes de transformar a realidade de um bairro e até mesmo de uma cidade. A gestão participativa requer a democracia na tomada de decisões elaboradas em prol da proposta pedagógica e na qualidade da aprendizagem, através de ações coletivas. Nesse sentido, o papel do gestor é fundamental. É possível afirmar que o estudo da história entre a escola e uma dada comunidade abre caminho para analisar vários enfoques, quais sejam, a relação entre a escola e a família, a participação comunitária no Conselho de Escola e na Associação de Pais e Mestres – APM e tantas outras. Todavia o objetivo desse trabalho é abordar os acontecimentos, os fatos relevantes e motivadores que permeiam a história entre a escola e a comunidade. A greve que ocorreu em Guariba é um fato histórico que repercutiu não só na comunidade, mas lança luz sobre a reflexão da questão da qualidade do ensino e o movimento grevista, ávido por melhores condições de trabalho, salarial e participativo na gestão da escola pública. Portanto, o trabalho se divide em duas partes: a primeira parte aborda o referencial teórico acerca da importância da escola em debater o momento histórico local e a Proposta Político-Pedagógica; a segunda faz um resumo sobre a greve de Guariba e as narrativas dos participantes e no jornal Folha de S. Paulo.

Palavras Chave: Escola; Comunidade, Gestão Participativa, Movimentos de classe.

SUMÁRIO

INTRODUÇÃO 08
2. O PAPEL DO GESTOR NA DEMOCRATIZAÇÃO DA GESTÃO ESCOLAR 10
3. O RECONHECIMENTO E A FORMAÇÃO DA IDENTIDADE 12
4. AS NARRATIVAS DE UM GRANDE ACONTECIMENTO ” O CASO DA GREVE DE GUARIBA” 16
4.1– O Encontro com as narrativas populares 20
4.2– A Repercussão dada pela cobertura jornalística do jornal Folha de São Paulo 23
5. CONSIDERAÇÕES FINAIS 26
REFERÊNCIAS 27

INTRODUÇÃO

O objetivo deste trabalho é lançar luz à questão escola-comunidade. Para tanto, é imprescindível, analisar a questão da Gestão Democrática através da participação da comunidade na construção do Projeto Político Pedagógico, no Conselho Escolar e na Associação de Pais e Mestres – APM.
De acordo com Oliveira (2010) “as mudanças esboçadas no campo educacional face à reestruturação produtiva e, sobretudo, as mudanças no mundo do trabalho impuseram à escola um novo desafio: a escola enquanto núcleo de gestão”. Nessa direção, ela passa a ser entendida como espaço de deliberação coletiva em diferentes áreas: financeira, pedagógica e administrativa.
Outra reflexão importante é entender como se estabelece a relação de forças entre o currículo e a construção da proposta pedagógica, preservando as características históricas da comunidade.
Através do cruzamento dessas questões, procurou-se considerar a importância da Gestão Democrática sobre a comunidade, resgatando os fatos históricos e, como consequência, o fortalecimento desse laço. Além disso, esse trabalho contempla um olhar especial sobre um acontecimento histórico especial “A Greve de Guariba”, reportada através de vários interlocutores da comunidade e a repercussão gerada pela imprensa escrita, especialmente pela importante contribuição da Folha de São Paulo (1984), a qual repercutiu a greve, suas reinvindicações e as consequências históricas para a comunidade.
Nesse sentido, buscou-se conciliar o levantamento bibliográfico em material escrito, destacando as obras “As Dimensões do projeto político-pedagógico: novos desafios para a escola” das autoras Ilma Passos, Alencastro Veiga e Marília Fonseca e “Gestão e Organização Escolar” de Naura Syria Carapeto Ferreira e alguns depoimentos de pessoas da comunidade com alguma expressão de liderança, como o professor de capoeira e presidente da Comunidade Negra José Nilson Santana, para ajudar a encontrar algumas pessoas que participaram do movimento em 1984.
Por fim, para abordar a greve de Guariba, foram consultados os filmes: “A classe que Sobra” de Peter Overbeck, “Califórnia à Brasileira” e A memória em Nossas Mãos” de Beto Novaes e Francisco Alves, além do artigo sobre a greve de guariba publicada pelo Jornal Folha de S. Paulo, entre os dias 16 e 20 de maio de 1984, especialmente, a reportagem da capa do dia 16 de maio de 1984.

1. O PAPEL DO GESTOR NA DEMOCRATIZAÇÃO DA GESTÃO ESCOLAR

Esse capítulo aborda a importância da gestão democrática dentro e fora da instituição escolar. Nesse sentido, foram analisadas as dimensões da gestão escolar e a comunidade, uma união imperativa, quando ocorre de fato a gestão democrática ou participativa.
Vamos considerar como eixos participativos a família, as instituições e as organizações constituídas pela comunidade. No primeiro eixo a escola e a família, as quais devem agir como parceiras.
Vale destacar que é necessário criar situações para a família participar da vida escolar de seus filhos. Nesse sentido as reuniões bimestrais de pais e mestres, palestras sobre temas abrangentes e locais, formação para a educação de seus filhos, campanhas de solidariedade e outros eventos além de confraternizar, criam situações importantes para a escola democrática.
Sobre a importância dessa participação, Menezes (2016) destaca que:

No início de cada bimestre ou trimestre, as crianças e seus responsáveis – mães, pais, irmãos, tias ou avós – devem ser informados sobre quais atividades serão realizadas em classe e em casa, de que recursos elas farão uso, que aprendizagem se espera em cada disciplina e que novas habilidades desenvolverão. Esse é o momento, ainda, para que todos apresentem demandas e sugestões. Ao promover esse encontro, os professores, em conjunto com a direção e a coordenação, precisam ter clareza das expectativas de aprendizagem e das atividades previstas na proposta curricular, realizadas num projeto pedagógico efetivo. Isso já é um bom começo (MENEZES, 2000, p. XX).

É importante destacar que as reuniões não devem ficar restritas à de pais e mestres uma cada bimestre, como foi apontado. A escola democrática oxigena a comunidade, através da participação em palestras e eventos culturais previstos na proposta pedagógica construída com a participação da comunidade.
No PCN fica evidente esta necessidade:

Esse projeto deve ser entendido como um processo que inclui a formulação de metas e meios, segundo a particularidade de cada escola, por meio da criação e da valorização de rotinas de trabalho pedagógico em grupo e da corresponsabilidade de todos os membros da comunidade escolar, para além do planejamento de início de ano ou dos períodos de “reciclagem”. ( p. 35 – introdução).

Ele ainda vai além quando inclui a formulação de metas e meios, a primeira a fim de que no final de cada processo se faça uma avaliação mais qualitativa de resultados quantitativos, a segunda imprime a ideia da metodologia uma vez que o conhecimento escolar é intencional, sistematizado e embasa-se no teórico.
Para tanto este eixo de participação da comunidade é um dos pilares para a consolidação da gestão democrática garantindo assim a não alienação da família nem da escola nos problemas que envolvem estas duas esferas e assegurando a formação e informação ao educando como ferramentas para atuar no próprio meio social e ir além dele.
Outro eixo são as instituições e organizações que funcionam na comunidade. São representações constantes as de cunho religioso, pois faz parte da rotina de muitos educandos. Embora vivemos em um país laico e a escola também seja laica este assunto é bastante delicado, mas essencial pois se debatem as ideias não apenas na esfera escolar. Neste sentido a gestão democrática deve considerar a religião como manifestação individual e não interferir nesta característica, e também deve considerar a igreja como parte constitutiva da comunidade em que está inserida assegurando assim a participação sem fins doutrinários nas decisões escolares que lhe cabem este direito, tais como festas tradicionais ou campanhas desde que o conselho escolar assim o permita. Outra manifestação cultural, a capoeira, por exemplo, deve ter seu lugar garantido quando for representativo dentro da comunidade, ou incentivado quando não.
As ONGs também devem ser parceiras em projetos e atuar nos momentos propícios pois quanto mais fortes forem estas interações mais a gestão se aproxima de uma educação libertadora e do exercício completo da cidadania.
Além desses, outro aspecto a ser abordado é a criação e o funcionamento dos colegiados, pois apenas a partir deles as decisões serão descentralizadas da esfera da gestão e poderão se firmarem como democráticas e, como consequência, se bem avaliadas pela equipe gestora, transformadoras da vida escolar do educando.
Pata tudo isso acontecer, é necessário que a gestão trabalhe amparada na lei e desta forma garanta a democratização da escola, ao fazer estas parcerias com elementos da comunidade, a escola se torna reflexo e aparelho desencadeador da mudança ajustando os hábitos culturais da comunidade, propondo soluções baseadas na compreensão para diversos assuntos dentro do meio social.

2. O RECONHECIMENTO E A FORMAÇÃO DA IDENTIDADE

Uma vez em prática a gestão democrática e posto em discussão a elaboração e discussão do Projeto Político-Pedagógico, a escola está pronta para discutir e reformular sua identidade a partir da identidade de seus sujeitos, a qual é construída por várias influências, como as do meio social, familiar e dentro da própria escola.
A partir do pressuposto da construção da identidade como uma ação individual e coletiva pode-se destacar que, no primeiro caso, o sujeito não aceita uma identidade apenas herdada, mas construída a partir de uma racionalização e compreensão de si mesmo e de seu papel no mundo. Esta é uma das prioridades da escola, dar abertura para a liberdade de expressão, a discussão de ideias e o enriquecimento pessoal a partir dos saberes ensinados e aprendidos no cotidiano escolar. No segundo caso, é evidente que a construção coletiva vai formar uma escola mais plural, destacando as diferenças e atando-as aos pontos comuns da comunidade e da própria escola. Desse modo, com a participação de todos os envolvidos no projeto, a escola ganha um novo rosto.
Nesta perspectiva ” ao serem originadas pelos próprios sujeitos e ao constituírem fonte de significado para eles, as identidades são construídas por meio de um processo de individuação que o sujeito empreende em suas relações com os outros indivíduos e as instituições ” (ALENCASTRO, 2012, p.220).
Neste ponto há também o questionamento das relações de poder uma vez que está construção confronta-se com o pensamento dominante. Portanto a construção não é passiva e deve gerar conflitos para a gestão escolar abordar e mediar de forma que não se formule apenas uma identidade de resistência ou seu contrário, uma de aceitação; ao contrário esta nova identidade adquire contornos de ação transformadora do indivíduo que ao internalizar as injustiças pelas quais passam, esses sujeitos tenham o pressuposto de pensar um mundo mais justo em que o conhecimento a o acesso aos mais básicos direitos humanos estejam em pauta e sejam cada vez mais garantidos e lançando assim uma sensação de pertencimento que é parte essencial da constituição de qualquer ser.
Sendo assim o indivíduo está apto para começar a exercer a cidadania pois ela envolve um processo de consciência pessoal e social e segundo Naura Syria Carapeto Ferreira (p 34 e 35).

A realização se faz por meio das lutas contra as discriminações, da abolição de barreiras segregativas entre indivíduos e contra as opressões e os tratamentos desiguais, isto é, pela extensão das mesmas condições de acesso às políticas públicas e pela participação de todos na tomada de decisão.

Toda esta ressignificação do indivíduo como ser social e ” ser-sendo ” é essencial, pois não apenas é um mecanismo eficiente de transformação, mas também aborda o discente como protagonista do processo de ensino-aprendizagem. È apenas com essa sensação de pertencimento que se age sobre o objeto de estudo não só como objeto estático, mas elemento desencadeador de uma nova forma de entender e conhecer.
Outro ponto a destacar é que a comunidade cria uma expectativa em relação a escola que serve a ela e é servida por ela também. Esta relação bilateral tem na comunidade sua fonte histórica de acontecimentos, exemplos de relações familiares e presença de instituições que moldam o caráter da população em geral.
A função da escola é considerar os aspectos construtivos da comunidade e procurar relacioná-lo com o saber aprendido a partir da base curricular nacional e apontar seus pontos de incongruências e interação de modo a preservar a história da comunidade e, ao mesmo tempo, abordá-la sob um outro ponto de vista a fim de resinificar a própria história do bairro e comunidade. Esta é uma forma muito eficiente de se discutir os valores até então absolutos e, muitas vezes, autoritários para que se vençam as fragilidades dos que estão distantes do poder, causando um empoderamento do indivíduo em sua rede social.
A identidade é um organismo vivo, por isso em constante mutação. A legitimidade desta flexibilidade é o que estabelece o ideal democrático de qualquer sociedade e deve ser tema constante no dia a dia da escola. O papel do gestor é equilibrar esta força e torná-la fator motivador para a aprendizagem dos educandos, dos discentes, da equipe gestora e de todo quadro técnico da escola.
Em sintonia com a comunidade o raio de alcance desta identidade se torna maior, criando indivíduos menos intolerantes e que compreendem as dificuldades de se encaixar em modelos sociais cada vez mais impostos por uma cultura global massificante. Ora é a partir do local que se chega ao universal e não o contrário ” se queres ser universal, conhece melhor a tua aldeia ” afirma Tolstói e na raiz deste pensamento também está a preservação do que vem diretamente da comunidade ou que se formou com ela ao longo do tema, sejam esses aspectos linguísticos, religiosos e culturais.
Por isso também a discussão do local na pauta escolar valoriza não apenas a cultura e os ensinamentos e a forma de ensinar, mas também combate a cultura imposta pela mídia e faz crescer a sensação de legitimidade e o caráter único que toda identidade tem.

3. AS HISTÓRIAS DA COMUNIDADE

“É rico de lições perceber que, no momento mesmo em que atingiam sua maturidade, as Ciências Humanas buscassem a alternativa interdisciplinar como solução para seus impasses. Desse enriquecimento, surgiram abordagens diversas e inovadoras, em antropohistória, geohistória, sociolingüística, história e geografia econômicas etc. ”

PCN – Ensino Médio Ciências Humanas p. 07

Depois de um período no limbo as Ciências Humanas ressurgiram timidamente ao término da ditadura para se reestabelecerem e, pós – LDB, comporem parte significativa da matriz curricular e se firmar como um pilar fundamental para o crescimento em vários aspectos, como os cognitivos, os afetivos, os culturais, os sociais etc.

A combinação destes componentes curriculares alinhados às Linguagens e Códigos compõe vasto repertório para a aprendizagem – esta possa abordar uma perspectiva mais ampla e global, sem perder de vista o microcosmo ou mesmo tornando-o “âncora” para as interpretações dos mais variados fenômenos, como os econômicos, nas relações de trabalho, no campo da ciência e tecnologia.
O fundamental é a Proposta Político-Pedagógica apertar o laço com as Ciências Humanas e tornar esta discussão fundamental, principalmente no que tange à história local, pode-se entender que a compreensão do ambiente social passa pelo conhecimento da história local.
Como escreve NORONHA (2007), “a história local dá ao aluno um referencial analítico para compreender a dinâmica social.”

A partir disto o gestor deve acompanhar com os professores ações que não sejam “estanques” nas disciplinas, mas que transitassem por todas as disciplinas e espaços escolares a ponto de transpor os muros da escola e estender-se para o bairro e toda a comunidade. Que a comunidade seja um espaço de conhecimento e, assim, abra possibilidade para transformação no indivíduo e na própria comunidade. E que estes laços sejam cada vez mais fortes, é um caminho que se abre para o desenvolvimento de outros conhecimentos e para que a visão de mundo do educando seja cada vez maior, ampla e ele possa compreender os fenômenos em nível mundial que também o afetam.
Muitas vezes histórias simples da comunidade, da memória coletiva do povo, da migração e tantas outras passam despercebido ou são desimportantes frente aos “grandes acontecimentos do mundo” que nos fisgam a todo instante nos noticiários de jornal ou internet. No entanto, é válido destacar que a construção do saber começa pela compreensão do “quem somos” e “onde vivemos”. A ambas as perguntas a resposta começa pelo conhecimento daquilo que nos cerca e para o ambiente sob o qual fomos moldados, “construídos” e criados. A própria história pessoal ou a da família pode ser o capítulo inicial desta busca. Esta recuperação da memória e construção da identidade compõe capítulo essencial para toda escola que se deseja democrática e transformadora, não refém de modelos impositivos ou alienadores.
Tudo isto para formar as histórias da comunidade. A partir deste momento impõe-se a necessidade do registro e adequado arquivamento do material, seja ele visual, sonoro, através da escrita; e da compilação de livros, artigos acadêmicos e outros que já existam mas precisam ser reunidos e disponibilizados para a comunidade escolar.
De acordo com Noronha (2007), “as publicações locais, escritas por moradores da cidade, devem ser utilizadas dentro do espaço escolar como forma de oportunizar o aprendizado da história local. Estas publicações, por serem de autoria de munícipes, trazem, além da história, a experiência do autor na sua cidade, e torna-se um objeto de investigação mais interessante para ao aluno”.
Apenas desta forma alcança-se a cidadania plena, com atores protagonistas no processo de construção da própria história. A escola que adota tal projeto tende a alcançar o sucesso porque ela pensa além de seus muros e começa a refletir e atuar dentro da própria realidade (ROCHA, 2001, p. 45).
Não basta falarmos em datas e personagens e sim explicitar o contexto do fato, como era a sociedade nesta época, como pensavam e o como isso interfere ou não na realidade vivenciada atualmente por eles. Mostrar que fazem parte dessa história e que podem e devem se posicionar ativamente nas transformações da sociedade. Para Rocha (2001), “É preciso que os professores tenham bem claro o papel da história no currículo escolar, para que ocorra uma renovação na prática educativa”.
Além desses benefícios o Ensino da história local esclarece dois conceitos difusos na sociedade, o primeiro afirma que se precisa valorizar a história do homem comum assim não se cai no risco de que seus membros não a considerem importante ou valorizada; o segundo defende que ao presenciar a diversidade, esta pesquisa resulta na ruptura de preconceitos e, por conseguinte, no respeito às diferenças.

4. AS NARRATIVAS DE UM GRANDE ACONTECIMENTO ” O CASO DA GREVE DE GUARIBA”

A greve de Guariba é um exemplo de fato histórico ignorado ou desconhecido por quase todas as camadas sociais e, como consequência, não é objeto de estudo nas escolas ou quaisquer outros meios, salvo exceções muito raras, como citação em livros de moradores da cidade, como o de Dinho Grieco cujo capítulo se inicia com um “é uma página negra na história de Guariba” ou no livro de cem anos, com direito a publicação da réplica do Acordo de Guariba, ou ainda no romance autobiográfico de Vambeto Gomes de Jesus – Realidade Nordestina – em que fica evidente a figura do migrante como participante da greve e do processo sócio histórico de formação de identidade da cidade naquela época.
Também há quatro documentários em curta-metragem Califórnia à brasileira e A memória em nossas mãos de Francisco Alves e Beto Novaes, O boia-fria de Carlos Caxassa e A classe que sobra de Peter Overbeck. Enfim neste caso há referências sólidas para o desenvolvimento do tema nas escolas, ainda assim, percebe-se o silêncio nas propostas pedagógicas do município ou mesmo em escolas estaduais, quase sempre amarradas a um currículo imposto pela secretaria e presas à gestão que ignora praticamente não apenas fatos históricos relevantes, mas também fatos mais “corriqueiros” tornando a escola um objeto estranho na sociedade e ficando distante das histórias dos alunos e da formação da sociedade.
Que esteja bem claro não haver necessidade de fatos históricos proporcionais ao da greve para se fazer este trabalho de aproximação entre a Proposta Político-Pedagógica e a comunidade, uma vez que a construção da identidade se faz nos acontecimentos ordinários do cotidiano quase se dá uma dimensão mais profunda a eles.
4.1– O Encontro com as narrativas populares

A facilidade com que se dá, ainda, de encontrar testemunhas, grevistas e ex-cortadores de cana é muito evidente. Basta comentar o assunto e quase todas as pessoas possuem alguma narrativa para ser contada, principalmente acerca do dia 15 de maio de 1984, dia em que ocorreu a paralisação e as consequentes ações dos boias-frias ao depredar dois prédios da cidade e a reação da polícia que, depois de dispersar a multidão com gás lacrimogêneo e tiros ( de fato, muitos trabalhadores ficaram feridos e uma testemunha foi morta nas escadarias do campo onde dias depois se realizariam as assembleias), subiu o morro e espancou várias pessoas.
Escolhi três dos vinte entrevistados para abordar por razões de relevância à greve e à proposta deste trabalho.
O primeiro personagem do qual se ouve o nome é José de Fátima, figura proeminente após a greve, pois seria o líder sindical e o escolhido pela CUT e pelo partido de esquerda da época como representante do movimento. Por trás desta lenda, 30 anos depois, há muito mistério e divergências. Quando entrevistei Zé em um primeiro momento, em 2012, ele vivia de pequenos serviços na cidade, longe da força sindical que o havia catapultado e sarcástico frente aos acontecimentos políticos nacionais, a saber, o caso do mensalão que derrubou José Dirceu e Antônio Palocci, desafetos dele desde a época em que Zé optou pelo malufismo em meados dos anos 80.
Ele me abriu as portas para investigar a história de várias pessoas, e ao lado do material digitalizado da Folha de S. Paulo, me serviu como referência para a interpretação dos fatos.
José de Fátima conta que a greve de Guariba teve toda essa manifestação contra a Sabesp e o mercado de Cláudio Amorim por razões políticas locais. Dois anos antes quando houve as eleições municipais, o grupo vencedor, representado por vereadores locais, prometiam não entregar a água do município para a Sabesp do governo Montoro, que havia começado um grande plano de saneamento básico no estado, no entanto, quando eles venceram as eleições, A Sabesp começou na cidade, com um dos vereadores acumulando função na diretoria da estação, revoltando os boias-frias. A este fato se somou um plano tarifário relacionado ao gasto de cada residência, que versava em linhas gerais que quem gastasse menos, pagaria menos. Os boias-frias, por que moravam em grupos ou com grandes famílias, e por estarem expostos a sujeiras e fuligens, gastavam muita água para higienização, banho e lavagem das roupas, deste modo o plano, em vez de ajudar, lançou a conta de água deles a valores astronômicos. Quanto a Cláudio Amorim, ele disse que além de uma peleja política – ele havia sido derrotado para prefeito por um torneiro – ele era um dos mais bem-sucedidos empresários no ramo e os boias-frias compravam no mercado dele. Todos os prédios ficavam a menos de cem metros de distância e próximos à entrada do estádio Domingos Baldam, palco das assembleias que chegariam ao acordo coletivo de trabalho.
Ele também conta dos dias que se seguiram e da formação do Sindicato do Trabalhador Rural de Guariba (STR) um dos desdobramentos que fortaleceram a greve. Ele foi presidente e durante os dois anos seguintes, uma das principais lutas dos sindicalistas era garantir que o acordo fosse cumprido. Foi uma luta muito grande ele dizia, pois além de muitos participantes configurarem numa lista negra que os impedia de trabalhar como assalariados, gerando um movimento nunca visto de criação de assentamentos na região de Ribeirão Preto, também houve uma luta muito grande para que os usineiros cumprissem com o Acordo.
Como o movimento se espalhou por todo o estado, com a abertura democrática e o fortalecimento e a legalização de grupos sindicais, José de Fátima se configuraria como grande líder na região e chegaria a ser vice-presidente regional da CUT regional de Ribeirão Preto, tendo acima dele apenas Antônio Palocci.
Outra narrativa interessante cabe ao senhor Geraldo Amorim, citado por José de Fátima, estive em sua casa para conversar, ele e sua esposa eram cortadores de cana como muitas outras famílias à época, ele se lembra das dificuldades de viver em apenas um cômodo com filhos e também dos dias anteriores quando acendeu a centelha da greve. Havia muita conversa no eito sobre a dificuldade que o novo regime de sete ruas apresentava aos trabalhadores, primeiro porque ficava muito difícil formar a partir de sete ruas, três montes de cana, havia perda de tempo e esforço extra de trabalho para carregar a cana até os montes. Vale observar que para o usineiro havia um plano de redução de gastos com combustíveis através do número menor de montes e também mais economia ao transportar menos terra.
Também o dia 15 de maio marca um episódio para eles, ele disse que sua casa foi invadida por policiais que pisoteavam o prato de comida das crianças, agrediam e deixavam marcas de violência e medo por onde passavam, em sua casa ou na casa de vizinhos. Várias pessoas foram agredidas e as imagens estão presentes na memória e nos filmes Califórnia à brasileira, que foi um dos primeiros documentários a veicular mais uma vez a truculência da polícia militar brasileira durante a greve.
Um dos registros interessantes se concedermos a memória marcante dele, é quando ele me conta que segurou o filho pequeno nos braços e correu quando um piquete formado por ele e amigos tiveram que se desvencilhar de uma saraivada de balas da polícia. Ele se lembra claramente de correr protegendo o filho e chegar em casa desesperado e atônito por conseguir escapar. A imagem que fica na memória deste senhor de 58 anos é muito rica, pois é quase uma atitude de herói e por ser parte do nosso imaginário coletivo – deixa a pergunta no ar sobre verdade e invenção, memória e imaginação, heroísmo e sorte.
Por fim existe a narrativa de Tio Bica, que hoje vive assentado. O grupo de pessoas de Guariba que iniciou a reforma em Córrego Rico em 1998 invadiu as terras improdutivas entre Guariba e Jaboticabal – até então do estado – depois de muito refletir e tiveram a ocupação reconhecida pelo governo do estado. Eles estão até hoje lutando para que seus ideais e suas vontades sejam ouvidas e cumpridas.
Tio Bica foi um dos líderes da greve de Guariba, participou dos piquetes e dos primeiros movimentos na segunda quinzena de maio de 84. Na época, disse que era um velocista e venceu na corrida a pancadaria dos policiais durante a repressão violenta. Partiu para a reforma pois seu nome circulava nas listas negras das usinas da região como agitador e rebelde. Além disso é o homem do campo por excelência, gosta dessa vida e acha que se muitos fizessem como ele desde aquela época, não sofreríamos tanto um período de dominação como esse que temos atualmente.
Enrolou um pequeno fumo e aos goles de um café preto tragava e contava grandes histórias de como a luta vale a pena embora os riscos sejam grandes. Também chegou a reforma em 98, tem dois filhos, um deles ainda sofre pelo passado revolucionário do pai e uma das indignações é o fechamento da usina são Carlos no final de 2012.
Ele conta sobre as dificuldades de mercado enfrentadas e continua à espera de uma verdadeira Reforma Agrária que não contemple apenas a agricultura familiar, mas que discuta o agronegócio e o coronelismo no país.
Estas pequenas narrativas mostram a importância de se investigar as histórias particulares dos moradores da comunidade escolar. É tarefa de sumo importância, pois, incluir num Projeto Político-Pedagógico as narrativas dos arredores escolares, não apenas como forma de recuperar a história, mas também como valorização dos cidadãos que compõem a comunidade.

4.2– A Repercussão dada pela cobertura jornalística do jornal Folha de São Paulo

Aqui se propõe fazer um pequeno resumo e comentário da abordagem de um jornal de grande circulação da época a fim de discutir como a imprensa narrou o fato e como os articulistas o interpretaram.
Os fatos do dia 15 de maio de 1984 tiveram uma repercussão tão forte na mídia televisiva da época e foram incrivelmente registrados por fotógrafos e jornalistas que em Guariba aportaram, que não é de se surpreender que Guariba estreava na capa de um jornal de grande circulação. Com o título de Conflito em Guariba e o lead tendencioso, “Boias-frias demolem prédios, incendeiam veículos e saqueiam supermercados” percebe-se a tônica do jornal em acusar os trabalhadores rurais de distúrbio e provocadores da violência que tiveram que enfrentar. Melhor seria um lead em que se afirmasse a truculência da polícia que no mesmo dia, quando abafara a depredação, atirou em cidadãos desarmados e depois subiu o morro para “acabar o serviço” e invadir as casas, espancar e intimidar trabalhadores que buscavam fugir das condições de miséria a que se submetiam.
Este tipo de notícia, quase sempre em débito com a verdade dos fatos e omissa, é prática recorrente no Brasil, embora vivia-se um período de transição para a abertura democrática, a mídia brasileira, de modo geral, quase sempre se curvou aos grandes poderes e evitou a polêmica e a perda, talvez, de patrocinadores, pois não se faz notícia para um país em que mais da metade da população era analfabeta e os leitores, classe média, de pequenos empresários ou profissionais liberais que leem estes jornais em sua grande maioria, é claro.
No entanto, em clima de diretas já e engajamento político por parte de intelectuais, além de um clima marxista que extravasa como poucas vezes os nichos universitários, vários colunistas saíram em defesa dos trabalhadores rurais e denunciaram o crime silencioso à integridade das pessoas que ocorriam. Ainda que fosse na página 2 ou no espaço dedicado à opinião, a qual muitas pessoas abdicam da leitura, o tema pegou fogo.
Galeno de Freitas num artigo do dia 18 de maio de 1984 destaca ” este país formado à sombra das sesmarias e crismado pelo latifúndio, em nível das classes dominantes, acostumou-se a auto explicar a partir de preceitos que inculpam sempre os de baixo. O nobre, o senhor e o dono do latifúndio nunca tem culpa pelas disfunções dos sistemas econômicos”. Por fim ele comenta a necessidade de pôr em discussão o Estatuto da terra de 1967, que entre outras definições, “objetivava a criação de uma classe média rural – pequenos e médios proprietários – que seria a base política do regime futuro”
A importância de não apenas se informar, mas debater as opiniões dos jornais se faz evidente em qualquer contexto, ela amplia a visão do projeto escolar, traz à tona novas formas de interpretação de um mesmo fato e aprofunda o conhecimento acerca do fato noticiado. Se está em consonância com a realidade local escolar, e o caso de Guariba é extremamente rico neste ponto, só há ganhos.
Ainda no jornal do dia 18 de maio de 1984 em uma seção especial intitulada A revolta dos boias-frias (sic), noticia-se o resultado da assembleia de Guariba, outro fato marcante, e do qual saiu o primeiro Acordo Coletivo de Trabalho entre usineiros e trabalhadores rurais, conhecido como Acordo de Guariba (ver anexo 1) que se estendeu para todo o estado e país.
Na capa do dia 19 de maio de 1984 uma manchete no canto esquerdo do jornal anunciava que o Acordo valeria para o estado. O anúncio saíra da Cooperativa dos cortadores de cana de Sertãozinho, uma espécie de representante patronal, e do qual participaram os secretários do Governo e do Trabalho, Roberto Gusmão e Almir Pazzianotto, respectivamente. Porém no editorial do mesmo dia, o jornal já alertava que ” a ausência de sindicatos bem organizados” põe a greve em Guariba em situação de temeridade em relação ao futuro das conquistas.
Por fim, outro assunto destacado pelos colunistas foi a violência – perpetrada pelos policiais – e outras formas de ela se manifestar “não-violência é não à violência(…)a proposta ética de resistir às multiformes de opressão econômica, social e ideológica que se resumem na conhecida palavra ´ injustiça`” foi uma afirmação de Alfredo Bosi na seção Tendências/Debates do jornal do dia 19 de maio.
Enfim, toda a cobertura de um fato histórico ou de fatos cotidianos da comunidade é uma forma de apresentar o assunto de forma viva, atraente e colocar os educando e educadores como sujeitos da ação, prontos para interpretar os fatos e recriar sua própria realidade a partir da compreensão do que somos. É imprescindível adicionar esse conceito à Proposta Político-Pedagógica, de modo que ela se torne mais rica, um instrumento de reflexão e por que não, de política ou de tomada de consciência de que somo sujeitos de nossa própria história.

5. CONSIDERAÇÕES FINAIS

A pauta do cotidiano, o olhar para a comunidade e a percepção das injustiças nos leva sempre a uma reflexão mais profunda. Ainda que possa ser doloroso, a viagem de descoberta põe em evidência aquilo que somos e acende as centelhas da transformação. Uma escola não pode encarar o currículo como algo distante de sua realidade. Ao contrário, ela precisa a todo momento colocá-lo em evidência e despertar os educando e educadores em busca da história perdida e, sobretudo, daquela que acontece todos os dias de modo que possamos levá-la a nosso favor através da atuação sobre ela.
Também a gestão participativa é uma das dimensões mais importantes na gestão escolar, ela é uma forma de “desinstitucionalizar” a educação, tornar a escola mais independente de, não raro, propostas de trabalho descontextualizadas e geridas por governos, muitas vezes, despreocupados com a formação cidadã e com reconhecimento da história como fator precípuo da formação do indivíduo.
Essa combinação, como muitos educadores citados apontam, é salutar e já foi considerada uma conquista de, infelizmente, poucas escolas de nosso país.

REFERÊNCIAS

RIOS, T. A Identidade da escola. Disponível em: http://gestaoescolar.abril.com.br/comunidade/identidade-escola-autonomia-etica-valores-gestao-participativa-democratica-trabalho-equipe-escolar-515765.shtml. Acessado em 15 de mai de 2016.

MENEZES, L.C. A escola e família como parceiras. Disponível em: http://revistaescola.abril.com.br/formacao/escola-familia-como-parceiras-423328.shtml. Acessado em 15 de mai de 2016.

VEIGA, I.P.A.; FONSECA, M. As dimensões do projeto político-pedagógico: novos desafios para a escola. São Paulo: Papirus, 2002.

FERREIRA, N.S.C. Gestão e organização escolar. Revista Retratos da Escola, Brasília, v. 3, n. 4, p. 273-275, jan./jun. 2009.

Acervo do Jornal Folha de S. Paulo (1984). Disponível em: http://acervo.folha.com.br/resultados?q=greve++Guariba&Site. Acessado em 15 de mai de 2016.

Nick Cave e o início do fim da democracia no Brasil

Com um show vibrante de um dos músicos mais admirados do mundo e com um inequívoco #elenão o Brasil se despede do breve período democrático. Parece contraditório, mas aquele público do Espaço das Américas, representa apenas parte do país. Jovens adultos e adultos saudáveis, bem vestidos e da alta cultura são a minoria que o candidato do PSL e sua base não alcançam e pretendem combater. Talvez seja uma vingança, talvez apenas ressentimento, o fato é que naquele espaço em que o Nick Cave e os bad seeds fizeram um espetáculo musical excepcional, não cabe toda a margem de brasileiros.

Na fila da entrada, ouvindo as conversas de grupos próximos parecia estar em outro país. Discursos de tolerância, outro ridicularizando a campanha difamatória de Bolsonaro sobre os projetos de educação de Haddad quando ministro, revelam um grau de intelectualidade não visto em qualquer outro cerco. No entanto, quando se volta para as áreas populares os discursos que mais se ouvem é de brasileiros ressentidos, sem estudo e conhecimento, galvanizado pelo ódio, sedimentado pelas redes sociais e pelas fake News, que sem condições de interpretar o que se diz, traduz no apoio às ideias mais retrógradas e fascistas.

Na guerra pela informação rápida e instantânea, ganha não aquele que tem o compromisso ético e moral, mas aquele que quer a vitória a qualquer preço, que reinventa as regras do jogo, ou melhor, subverte-as a seu favor. A tecnologia chegou a quase todos os brasileiros, a educação de qualidade não. Se o período democrático brasileiro apontou uma falha gravíssima para consolidar seus ideais, esta falha foi na área da educação. Embora tenha havido avanços na universalidade da educação básica, os índices baixíssimos nas avaliações institucionais mais a formação precária de professores, muitos apoiando um candidato que endossa a tortura e a violência como cura dos males, são sinais do abismo a que chegamos. O Brasil tem uma das taxas mais baixas de leitura do mundo ocidental, adultos quase não leem nem livros nem jornais, jovens vivem pendurados em vídeos de youtubers que se tornam sucessos instantâneos sem o filtro da ética e da qualidade, e eles influenciam demais as pessoas.

Quando se coloca um jovem na escola em frente a um computador, ele não sabe fazer outra coisa a não ser acessar site de jogos e redes sociais, como o facebook e o Instagram. Isto ocorre porque enquanto a escola priorizou vencer conteúdos, passar informação de modo tradicional, se esqueceu de que a informação está em toda a parte ao alcance das mãos, e por isso, deveria centrar seu método em ensinar a interpretar os fatos, reconhecer pontos de vista, praticar o senso crítico, não achar que problemas complexos sociais sejam resolvidos com sandices e propostas vazias ou autoritárias. Não deixar que, em decorrência disso, a imprensa independente morra e se crie em seu lugar redes de informação monopolizadas, canais alternativos comandados por pessoas que tentam persuadir de forma suja a opinião pública.

A democracia por esse motivo foi entregue ao populismo ou ao messianismo, a moderação perdeu a batalha ao descomedimento, este inimigo íntimo dos democratas, e o show do Nick e sua manifestação explícita contrária ao autoritarismo vai ficar reservado àquele seleto grupo de homens e mulheres educadas de São Paulo. Eles cavaram esse fosso entre a pobreza e riqueza, entre o conhecimento e a falta dele, e essa arrogância, ainda que despropositada, será paga com o ressentimento das urnas, endossado por artistas pífios e marginalizados pela alta cultura, como Zezé di Camargo e Regina Duarte.

É uma pena que a educação no Brasil não tenha chegado a todos, assistir ao show do músico australiano e sua banda formidável foi um dos maiores prazeres que um país democrático poderia conferir a mim e deveria conferir a tantas outras pessoas este mesmo prazer ou outros similares a todos os gostos.

Na saída, extasiado, fui comer um lanche dentre os inúmeros food trucks que ficam na avenida adjacente ao espaço. Ao meu lado, um casal argentino feliz pela oportunidade única de assistir ao espetáculo vê no celular o vídeo em que a plateia entoa o #elenão e come um hot dog, atrás da gente, beirando o muro da UNINOVE em meio ao lixo jogado na calçada, um morador de rua tenta dormir com um pano branco enrolado na cabeça, ele não tinha colchão nem travesseriro, à minha frente se levanta o Memorial da América Latina; por onde se olha a realidade salta aos olhos e o país pulsa sem saber para onde se vai ao certo. Até agora o que se escolhe é uma estrada escura e vazia de sentimentos. ( foto de fabrício Vianna)

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O benefício da dúvida numa época de certezas inabaláveis

Tudo de que não precisamos é nos distanciar um pouco mais da civilização do século XXI no que ela tem de melhor: seu ativismo em defesa do planeta, da paz, do bom uso dos nossos recursos, de uma melhor distribuição da riqueza, de um diálogo constante entre as nações: o sonho a que todos os grandes aspiraram: Martin Luther King, Nelson Mandela e Gandhi para citar só alguns – e nos afastar de repente dos raios democráticos do dia, para dar espaço ao crepúsculo melancólico e estranho que instantaneamente se transforma num fim de tarde frio e nebuloso.

Mas deve existir uma maneira, se não de convencer este povo, pelo menos, pô-los para pensar: plantar a semente da dúvida e afastar o ovo da serpente. Pois estamos a ponto de caminhar para um desses dois caminhos: ou despertamos a riqueza da dúvida, incitamos eles – os menos convictos, meio perdidos no vendaval de fakes – a lerem livros de economia: o Valsa brasileira da Laura Carvalho, ou de história: Sobre a tirania, 20 lições do século XX para o presente de Thimoty Snyder, ou ainda de literatura: a tetralogia de Elena Ferrante que resgata quatro décadas da história napolitana – do contrário o ovo da serpente vai chocar e o que virá a partir daí é um mal irrefreável.
Em dado momento no quarto livro da série A amiga genial de Ferrante, a narradora Elena Greco explica assim o fim e a consequência social e política da operação Mãos Limpas (na qual a Lava Jato se inspirou)

“Eram anos complicados. A ordem do mundo em que tínhamos crescido estava se dissolvendo. As velhas competências devidas ao longo estudo e à ciência do bom caminho político pareciam de repente um modo insensato de empregar o tempo. Anarquista, marxista, gramsciano, comunista, leninista, trotskista, maoísta, proletarista estavam se tornando etiquetas retrógradas ou pior, uma marca de ferocidade. A exploração do homem pelo homem e a lógica da otimização dos lucros, que antes eram consideradas uma abominação, agora tinham voltado a ser em toda parte os pilares da liberdade e da democracia.” (p.425)
(…)
Esta é uma das tarefas mais difíceis da vida: demover alguém de seus “princípios” (ainda que sob argumentos de grandes autores) ou convencer alguém a mudar de opinião (quem assistiu a 12 homens e uma sentença sabe bem do que digo); mas se nada disso for possível, ao menos deixe clara sua posição, na medida que o melhor é não se render nem mentir para si mesmo afirmando: vou anular meu voto.
O homem é movido pela esperança. Mas também é chamado à ação. Justamente quando momentos como esses se aproximam, é hora da persuasão, de desmascarar os fakes, de orientar os perdidos a ter empatia pelo próximo e menos ódio, fazê-los aceitar cada um da forma que se é, isto é, fazer valer toda caminhada que nossos ancestrais engendraram para nos trazer até aqui. Ou outra mais incisiva que vale para todos nós de Ortega y Gasset, importante filósofo espanhol do século xx, “o vigor intelectual de uma pessoa é medido por sua capacidade de suportar dúvidas.”

Quando tudo parece ser uma imensa confusão, ler pode tentar ordenar o caos.

Paisagem com leitor

Uma paisagem só de livros não tem graça. Ela precisa de leitores e outros leitores para que assim a manhã seja tecida: luz-balão. Caminhava pela feira do livro de Ribeirão e ouvia nos fones de ouvido Beirut – culpa do Palermo Shooting do Win Wenders – pela música e pela mania de fotografar que se concretizava ali pelo espaço da praça do leitor. Há muito tempo namorei nas vitrines de lojas e na tela do celular uma câmera profissional e o tiro certeiro foi dado por um dos filmes mais malhados do alemão. Que bom que há tempo desconsidero muita crítica e sigo meu próprio caminho. Caminho este só possível por meio da leitura.

Susto maior foi ter conseguido algumas fotos legais, o ambiente estava propício, a praça em 2017, com a fonte, a concepção não apenas decorativa mas de reaproveitamento de objetos e espaços, como pneus, paletes, geladeiras e contêineres, davam o tom da paisagem. Ainda o domingo ensolarado e a presença de um público variado levaram tudo a uma atmosfera extremamente agradável.

Depois de assistir a uma fala espetacular de Chico César na Tenda Sesc, que falou sobre Estado de Poesia, seu mais recente disco, que entre as pérolas estão Atravessa-me e Reis do agronegócio, esta última estabelece relação surpreendentemente irônica com o patrocínio do evento em si, mas delineia perfeitamente o proverbial dístico “o homem e suas contradições”. Tivesse Chico mais presente nas escolas e nas periferias a discussão certamente seria mais profunda.

Um momento marcante foi quando a conversa sucumbiu ao flerte autoritário de nosso tempo, ele disse “o autoritarismo é a ausência de poesia”. Depois de muitos cliques, Chico deve ter notado a minha pouca discrição, saí dali satisfeito. Encontrei um coletivo de atores encenando trechos de textos literários, vestidos à romanesca e com livros às mãos, eram performáticos, usavam gestos largos e modulavam a voz como encantadores.

Mas a foto que mais me chamou a atenção foi uma que fiz sem querer, enquanto fotografava ambientes com livros em vista de registro e soma de ideias para uma possível feira na cidade em que vivo, eis que surge uma menina na minha tela, depois da foto batida, durou segundo, pois não a vi quando cliquei, vi apenas um vulto e ela brotou na tela perfeita. Deu vida a tudo.

Comecei a pensar, como a paisagem sem leitor perde tanto a graça. O que dá vida aos livros são os leitores, de que valem bibliotecas borgianas, infinitas se não existe a aventura do leitor. O segredo do sucesso do Brasil passa pela sedução de leitores, como se fossem flautistas encantadores, as escolas precisam de professores e educadores que executem esta tarefa.

Durante três anos e um bimestre fiz este trabalho com muito zelo numa escola estadual de ensino médio e pude perceber como a relação leitor-livro foi crescendo e as personagens viraram figuras de proa em minhas aulas por meio de grandes autores que dispunha o acervo da escola, ali eles conheceram o drama pessoal e familiar de Marcelo Rubens Paiva em Feliz ano velho e se encantavam com sua pungência de viver narrada tão belamente, a história do pai assassinado durante a ditadura militar foi outro ponto de destaque dessas aulas – alguns alunos tinham pela primeira vez conhecido por meio deste livro a noção de um governo autoritário e compartilhavam do sentimento da perda de um pai.

Mas a lista seguiu com Gabriel Garcia Marques e Relato de um náufrago e O velho e o mar de Hemingway, os quais foram um dos primeiros experimentos certeiros – geralmente esta era a primeira caixa do ano. Em seguida vinham os contos de Laços de família de Clarice Lispector e Antes do baile verde de Lygia Fagundes Telles e tantos outros, com um repertório bastante vasto do professor e do acervo pudemos variar, teve Herman Hesse, Sidarta e Demian, Admirável Mundo Novo de Aldous Huxley e Menino de Engenho do José Lins. Esperava chegar em breve a Machado e até usei alguns, como o belíssimo conto Pai contra mãe e cheguei a Guimarães Rosa, com o Primeiras Estórias e funcionou.

Em suma, recobro que a escola é um campo aberto a ser explorado, os alunos mais soltos, não apenas presos a aulas absurdamente teóricas, pode ser uma fórmula para combater a ojeriza ou o desprezo à leitura tão evidentes por onde quer que se anda.

Esta falta abre caminho aos pulhas, aos verdugos que assassinam o futuro do país. Deixa na mão de gente sem caráter, gananciosa, incompetente e maldosa, um país inteiro, que só precisa ler mais, levar a sério a escola e os livros para que deixemos de ser apenas uma paisagem no mapa a ser explorada. Para que sejamos protagonistas e comecemos por explorar nossos próprios potenciais.

“Antes as pessoas brigavam contra a ditadura. Agora brigam entre si.” Zuenir Ventura e Florestan Fernandes Jr debatem o Brasil em Ribeirão Preto

O teatro Pedro II esteve quase cheio para receber dois grandes nomes do jornalismo brasileiro em um momento crucial para o país e para o jornalismo. Florestan Fernandes Jr. começou com uma homenagem ao citar o amigo Alberto Dines (com quem realizou o projeto Histórias do poder) que morrera durante a tarde “É preciso reformular e pensar o poder no Brasil, ele dizia”. Depois logo quando enveredou pela política, disse “a política invadiu minha casa nos anos 60 a partir do golpe militar”. Ele também relembrou Antonio Candido, o melhor amigo de seu pai, o sociólogo Florestan Fernandes.

Ao comentar Histórias do poder pôde afirmar que durante anos de pesquisa conseguiu chegar, ao menos, a duas constatações acerca da história política do Brasil: sempre houve uma presença forte dos militares e as oligarquias mantêm o controle do país.

Assim que chegou de fato ao tema da mesa “1968 – o ano que não terminou”, resumiu “aquele foi um momento de ebulição. Contaminou o país e a utopia moveu a minha geração”. Ele relembrou o AI – 5, o fechamento do Congresso e, ao mesmo tempo, surgiu a lembrança do Festival de Música quando Sabiá venceu e foi vaiado, “os jovens queriam a música do Vandré”. Concluiu este primeiro momento dizendo que 1968 “foi um sonho interrompido “e que tem semelhanças com 2013.

Zuenir começou brincando “Eu vou terminar antes deste livro”. Depois continuou “1968 não é um ano, é um personagem que não quer sair de cena. Houve talvez outros anos mais importantes, mas não tão lembrado, festejado…”

Quem conhece a obra sabe que Zuenir tem várias ressalvas com relação a idealização daquele momento. Para isso o ilustra logo de início ao citar a epígrafe do livro em que cita Mário de Andrade – que se referia a geração dele e dos modernistas contemporâneos, Manuel Bandeira, Oswald e outros personagens brilhantes da semana de 22 – da seguinte forma “Não devemos servir de exemplo a ninguém. Mas podemos servir de lição.”
Ao mesmo tempo que havia a onipotência e a confusão das coisas e regras, a “geração que não tinha limite” deixou ao menos quatro legados positivos: os movimentos negro, de gênero, ambiental e feminista. Deste último Zuenir ressaltou as várias conquistas.

50 anos depois quando lhe perguntam como viver um novo 68, ele cita Caetano “Pra ser igual tem que ser diferente” E finaliza esta primeira parte aludindo a 2103 “Foi empolgante, mas aquele movimento se perdeu com a participação dos vândalos. Não se derruba o capitalismo quebrando caixa de banco e vidraça.”

Quando a conversa voltou a 68 e ao Regime Militar com Florestan Fernandes Jr, ele referiu-se ao período de Geisel da seguinte maneira “Com ele a truculência aumentou. Ele tinha o controle da repressão. Durante anos de ditadura mais de 30 bombas foram detonadas em bancas. Uma na OAB e outra no rio Centro”.

Produtor do Voz Ativa, programa de cobertura jornalística e debate, destacou alguns dados alarmantes veiculados sobre Fake News: “A mentira tem 70% de chance de ser espalhada. Atinge das redes sociais ao Whats app da família” e Zuenir completou “Fake news é o problema maior das eleições deste ano. Fake News não é notícia, é fake!” e finalizou dizendo que vivemos um período de excesso “informação demais é ruído”.

Florestan Fernandes e Zuenir discordaram sobre a liberdade da imprensa e a democracia. Quando Zuenir afirmou que não se pode tirar o crédito da cobertura jornalística “a imprensa é fundamental para a democracia”, Florestan tomou a palavra e escandiu “A grande imprensa faz política o tempo todo. O papel da imprensa é muito complicado no Brasil. Destrói as pessoas sem provas…”
Enfim o debate esquentou e Zuenir destacou “vivemos uma democracia incompleta, cheia de imperfeições. Sou como Churchill. Democracia tem que ser aperfeiçoada”. Elogiou” Graças a Lula e FHC a transição para a democracia foi possível”

Zuenir Ventura tentou ponderar todo tempo “Me incomoda a polarização e a intolerância mútua”. E afirmou “Antes as pessoas brigavam contra a ditadura. Agora brigam entre si.”

Ao aparecer o nome de Bolsonaro numa pergunta da plateia, houve uma longa e uníssona vaia. Zuenir disse nem citar o nome dele “para não apoiar este tipo de coisa”. Florestan Fernandes Jr. Citou o texto do pai em O fascismo na América Latina “Hitler e Mussolini perderam a guerra, mas o fascismo continua”.

O debate se encerrou com o educadíssimo Zuenir Ventura “Vamos manter este clima aqui, de tolerância e respeito, principalmente por quem pensa diferente”. “É muito fácil respeitar quem pensa com a gente. E o contrário?”

Ribeirão Preto lança debate que chacoalha o Brasil

Fernanda Takai – música e literatura

Com dois passos bem decididos, a compositora, autora de livros infantis e líder da banda Pato Fu, subia para o palco do Sesc montado num tablado de madeira leve e clara para conversar sobre literatura, música e outras histórias da vida.

Embora de ascendência japonesa ela confessou tardiamente atentar-se a raiz de seus avós. Despertou-lhe a curiosidade quando leu Corações Sujos de Fernando Morais, livro que relata “a revolta da colônia japonesa”.

Falou muito sobre música entrelaçada à literatura. Em dado momento “a música nos traz emoção, nos faz lembrar de nossa história” em outro “Uso a música como forma de me concentrar. “Já escrevi esperando em aeroporto, ouvindo música no fone”.

“Quando as coisas ficam muito tempo na minha cabeça, ou viram música, ou alguma outra coisa”. Sobre a inspiração para o livro O cabelo da menina, ela conta que partiu de uma situação banal, a filha depois de uma noite de festa junina, acordou com o cabelo marcado pelas xuxinhas da personagem caipira e quis ir pra escola assim. Ela não deixou, mas a ideia circulou pela sua cabeça e daí nasceu o livro. Um sucesso da coleção Itaú. “O artista escreve a partir de suas experiências”, resume. “Gosto de fotografia, anoto o que me chama a atenção”. Suas influências na carreira de cronista (Não deixem de ler o texto Procura-se uma professora de violão) vão de Fernando Sabino a Rubem Braga, e ainda, “Drummond cronista além de poeta”. A carreira de Fernanda é perpassada pela literatura, ela cita a música A hora da estrela inspirada no livro homônimo de Clarice Lispector que virou trilha do filme Olhando para as estrelas,

No começo disse “Dê livro de presente para as crianças” e continuou “Devemos dar mais credibilidade à escola e à família”. No final, quando o evento esteve aberto a perguntas, a respeito do ódio nos dias atuais disseminado tão selvagemente pelas redes, ela respondeu o ódio é “a falta de jeito de entender e olhar “, depois comentou que se precisa aprender a olhar para os outros, com menos julgamentos, esquecendo um pouco de nós mesmos.

Fernanda Takai ainda respondeu a mais algumas perguntas e encerrou: posou para mais algumas fotos e autografou livros. Mais à noite ela iria apresentar com o Pato Fu o show Música de brinquedo 2.

Eu dei uma passada na feira em frente ao Pedro II, as atividades do Sesc estão mais uma vez muito bem boladas, um lance ecológico, bonito de se ver. Parece que a praça do leitor assim como as atrações da Feira deu uma minguada. Porém o trabalho, principalmente o Projeto Combinando palavras são as sementes que germinaram da história de 18 anos. Para o leitor que ainda não exige muito, a maior parte dos stands estão cheios de literatura infantil desenterrada e pechinchas a módicos dez reais que vão desde O pequeno príncipe – em quase todas as editoras – até o livro sobre Sérgio Moro. Os clássicos desapareceram mais um pouco. Também a parceria com as livrarias e os autores que participam das mesas devia ser mais evidente. Parece que ainda existe um longo caminho a percorrer. De um lado e de outro. O bom é que tem um monte de gente envolvida.

Fernanda e o enigma do olhar…mais pousado sobre a feira se vê uma instalação: homens de papelão com mensagem nas costas em meio a bancos de paletes reaproveitados reforçam a ideia de cidadania difundida pela Feira deste ano.