O amigo alemão

“O mal da pobreza não está tanto no sofrimento que impõe ao homem, mas no apodrecimento físico e espiritual que provoca.” (George Orwell)

O pesquisador Jan Brunner da Universidade de Berlim é do departamento de Ciências Sociais. Ele participa de um projeto chamado GLOCON – Global Change – Local Conflicts? https://www.land-conflicts.fu-berlin.de/en/index.html (Mudanças globais – conflitos locais) – em que analisa os efeitos da globalização na América Latina e África Subsaariana.

A Jan coube o estudo da indústria da cana de açúcar no Brasil. Ele viajou pelo interior de São Paulo e Recife. Aqui pela Região de Ribeirão Preto, esteve em São Carlos na Universidade Federal falando com o famigerado ( Chiquinho ) professor Francisco Alves – autoridade máxima no assunto – em Pontal e em Guariba, onde estive ciceroneando – o por alguns pontos da cidade a fim de que pudesse aprofundar a pesquisa sobre o movimento sindical, a greve de Guariba e as condições atuais do trabalhador rural.

Conheci-o algum tempo antes com Vambeto Gomes de Jesus, apresentei-lhe o autor de Realidade Nordestina e lhe entreguei cópia do documentário Trajetórias sobre os 30 anos da Greve de Guariba – material que possibilitou este encontro e que deve ter servido de fonte para seu trabalho.

Tempos depois quando esteve em Guariba, levei-o à famosa Feira do domingo e encontramos o Luquinha Atleta e outros, com quem pudemos conversar comendo um pastel. Lembro que quase todas as pessoas com quem ele falava o 7 x1 quebrava o gelo, um que outro arriscava sobre o papel proeminente da Alemanha na economia e eu, a certo momento, brinquei “a Merkel é a Manda-Chuva de lá” tese à que Jan torceu levemente o nariz. Embora ele em abril do ano passado já me antecipasse a perda de relevância da premiê e do partido Democrata-cristão, o pesquisador decerto não esperava que os socialistas mais uma vez tivessem que se engalfinhar a Merkel para que juntos pudessem enxotar a tendência de extrema-direita que começa a mostrar as garras mais uma vez.

Foram dois dias bem interessantes que ele passou em Guariba, Jan é um tipo loiro, alto e simpático. Muito alemão embora odeie este tipo de estereótipo. Além de conhecer a Feira e entrevistar o Luquinha e trabalhadores rurais, andamos pelo Jardim São Francisco e Bairro Alto à procura de mais gente, estivemos na Cohab II, onde os ônibus rurais chamaram a atenção dele. Parou especificamente próximo à casa do turmeiro Jurandir, com quem brevemente falou sobre a disputa sindical dos últimos anos.

No dia seguinte esteve com José de Fátima e na EE José Pacífico, escola em que eu lecionava, para entrevistar um de meus alunos. No fim da noite ainda fomos até um Posto para tomar uma cerveja quando ele disse num português bastante razoável “ Queria entender por que no Brasil as pessoas se encontram e bebem em postos de combustíveis ?” Apenas dei de ombros assistindo a Neymar marcar mais um gol, não soube responder, tempos depois com outro amigo ao lembrar a situação disse “ deve ser a maneira brasileira de celebrar o fim do mundo, com bastante festa, a queima de combustíveis fósseis”. Quando ele foi embora me convidou para conhecer Berlim e disse “agora você tem um amigo lá”.

Sempre é bastante intrigante receber pessoas de outras culturas e, sobretudo, perceber que a realidade político-econômica local é muito estudada em um departamento tão distante, ao passo que a América Latina parece viver – em tempos de globalização! – uma fase de entorpecimento, transbordando ódio e se esquecendo mais uma vez de sua história, ficando novamente tão distante do mundo do conhecimento.

Quando íamos embora da Feira, no início da tarde e o sol estava a pino, observei com leve rubor a sujeira: papeis, restos de comidas, copos plásticos jogados por toda a pista, e mais longe pessoas bebendo na rua, ouvindo um ruído de música especialmente alto combinado a um cheiro nauseabundo de algo assado que se dissipava sem antes fazer coçar as narinas. Enrubesci, me irritei e disse que no Brasil ainda há muita pobreza, quis explicar o tipo de pobreza a que me referia, mas Jan me interrompeu e sublinhou “ Pobreza é pobreza, Bruno”.

Fomos embora.

Nunca me esqueço quando li Na pior em Paris e Londres de George Orwell – um dos meus autores preferidos e ao qual deveria recorrer mais vezes – num ensaio o autor cravar “O mal da pobreza não está tanto no sofrimento que impõe ao homem, mas no apodrecimento físico e espiritual que provoca”.

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George Orwell e nós: Brasil e Alemanha vai muito além do 7 x 1.

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Uma mirada perscrutadora

Quando vi Veríssimo na Feira do Livro de 2017 ele acabara de completar 80 anos. É, até hoje, uma das mentes mais brilhantes de sua geração. Era a primeira vez que assistia ao vivo a uma mesa com o autor como protagonista, da outra vez o vi na Flip em uma entrevista com o dramaturgo Tom Stoppard. Porém parecia que já o conhecia há tempos, faz mais de 5 anos que leio semanalmente suas crônicas e para um professor de português é impossível não se lembrar das caricaturas, dos desenhos, ou não topar em qualquer livro didático de qualquer série, do 6° ao Pré-vestibular, com um texto do simpático autor.

A surpresa pra mim ficou por conta de sua mirada perscrutadora, para um fotógrafo amador foi petrificante como um olhar de medusa, não conseguia acertar enquadramento, ajustar o foco, combinar velocidade do obturador e abertura do diafragma a fim de capturar cada vez que ele me mirava, Veríssimo tem aquele olhar plácido que apenas as pessoas no alto de sua sapiência possuem. Certa hora, quando tive a sensação de ser o único fotógrafo no Pedro II e o tempo pareceu “congelar”, consegui “captar” sua mirada firme e sábia. De modo geral, depois de travar uma batalha com minha inapetência e com a figura do cronista a minha volta, consegui alguns cliques razoáveis e resolvi sentar para prestar atenção ao que dizia o grande mestre.

A mesa começou com a eterna pergunta a respeito da definição de crônica, que ele pontuou da seguinte maneira “a crônica é este meio termo entre o jornalismo e a literatura”. Ainda no início quando o mediador comparou a obra literária do pai do autor – o romancista Érico Veríssimo – à dele, ele imediatamente rebateu que, embora escritores, suas atividades em termos de gênero literário são extremamente diferentes “o romance é um transatlântico e a crônica é um barco à vela”, ponderou.

Ainda sobre literatura, ele disse àqueles ávidos por receitas para se tornar escritor que “Escrever é 90% transpiração e 10% desodorante “, ou ainda, num momento menos descontraído revelou “Não há outra maneira de aprender a escrever a não ser lendo”.

Durante a manhã, Veríssimo havia participado do sensacional projeto da Fundação Feira do Livro “Combinando palavras “que promove leituras para mais de mil crianças da rede municipal e depois um encontro com os autores na feira do livro: LFV, Zuenir Ventura, Loyola Brandão foram alguns dos privilegiados (e vice-versa) de ter seus textos lidos e comentados em salas de aulas durante todo um ano letivo. Parabéns a todos os envolvidos. São raros os projetos de leitura no Brasil e quando estes são bem-sucedidos, isto é maravilhoso. Zuenir disse um dia antes em uma mesa que aquele havia sido um dos momentos mais emocionantes de sua vida de escritor. Veríssimo disse “Há esperança”, “Nem tudo está perdido. Através do livro se descobre o mundo, se emociona…”

Logo depois sobre o mercado editorial ele destacou que “Não se formou ainda um mercado para a literatura no Brasil”. E, por isso, “são poucos escritores que vivem de literatura”. Ele disse que esta questão é econômica e reflete na cultura como um tudo. E ao fim sibilou “Há um descaso com a cultura em todo o país”.

Sobre o protagonismo das tecnologias ele brincou “só devemos nos preocupar quando os computadores escreverem textos sozinhos, serem autores”. E para os anunciadores do fim da literatura foi categórico “o texto sempre vai existir, o veículo é que pode mudar. Mesmo que o livro acabe, o texto e o escritor vão continuar”

Quando o debate enveredou pela política e foi questionado sobre o estado das coisas, respondeu à moda de Sócrates “Até que ponto um governo que foca o social vai encontrar resistência?” depois sobre as injustiças sociais seculares brasileiras ratificou o que disse anteriormente “Sempre vai haver resistência contra um governo que destaca a desigualdade”. E a respeito da crueldade do mundo contemporâneo, desmistificou e postulou que “a maldade vem desde Caim, não é uma novidade, é uma realidade humana”.

Depois de quase uma hora de bate-papo com uma plateia entusiasmada que lotou mais uma vez o Pedro II, o grande fã de Louis Armstrong, que aprendeu a tocar sax e criou uma banda de jazz – encerrou destacando “me criei numa casa em que havia livros, isso foi uma das melhores coisas que aconteceram comigo”.

Verissimo o ano passado durante a Feira do Livro no Teatro Pedro II em Ribeirão Preto

A descoberta da autoficção

No panorama literário atual a linha mestra é a autoficção. Atenção jovens autores aspirantes ao stardom: transforme vossas vidas em narrativa. Acrescente tom confessional e reflexão, experimente locações reais. Imprima a tudo isso referências pop, bebida, sexo e, impreterivelmente, citações literárias.

Se for um leitor inveterado e quiser ler o que há de melhor no gênero, escolha um romance nórdico, vai aprender sobre John Fosse, Tor Ulven, ou então estar em contato com o futuro da literatura da Noruega. A descoberta da escrita, 5° volume da série Minha luta, é a odisseia do homem comum. Lembro de várias passagens em que o poeta Espen Stueland e o autor Karl Ove Knausgard discutem os acontecimentos literários da época: publicações e outras referências, ou quando, por exemplo, eles vivem o luto de um dos mais famosos autores da segunda metade do século XX. Tudo isso, sem dúvida, levou este autor ao que ele é hoje, sem descontar a gana que parece não tê-lo abandonado, a despeito do sentimento de frustração descrito em vários momentos.

É muito estranho e paradoxal ler um romance tão bem escrito, autobiográfico, de alguém que se tinha em tão baixa conta. Mesmo quando o sucesso veio aos 30 anos com a publicação de seu primeiro romance, em boa parte da vida narrada neste volume, a sensação de fraude ou delírio descritas por Knausgard o faz pensar que a escrita não o levaria a lugar algum. Em certo momento, quando enfim publica seu romance, ele reflete, então é isso ser autor, viajar pelo país participando de encontros literários com seis ou sete pessoas na platéia?

Para o leitor a obra literária é mais do que entretenimento. Vai além do escape. É o confronto consigo mesmo, a aprendizagem a partir da experiência do outro cruzada a todo o momento com a do leitor. Talvez o que mais seduza os leitores da série Minha Luta não seja apenas a literatura, embora esta seja imprescindível para o conjunto e é o meio ou o veículo usado para retratar o mundo e o humano que nos habita, mas, sobretudo, a experiência temporal da passagem da vida, a relação dos pares na família, os relacionamentos amorosos, as experiências sexuais, o bate-papo com os amigos, a vontade de ser alguém.

Toda essa viagem pela história da própria vida vem temperada com muita música. Neste volume se ouve muito XTC, The Stone Roses e mais uma vez um pouco de The Smiths e outras bandas norueguesas. O autor toca bateria numa banda completada com o irmão na guitarra. É possível sentir a atmosfera vibrante na cidade de Bergen. Karl Ove definitivamente a colocou no mapa.

A história se passa quase que totalmente lá. Nos anos de formação do escritor e no período entre o fim da juventude e o início da vida adulta. A primeira parte narra a experiência frustrante na Skrivekunstakademiet, a outra mais variada tem uma passagem pela Islândia, e em Bergen, várias vezes, estudando Letras e em trabalhos esporádicos e temporários, o primeiro escrevendo artigos para revistas e jornais locais, o segundo trabalhando como assistente em hospital psiquiátrico. E nesse ínterim, narram-se as batalhas pessoais na família e com as mulheres. E, sobretudo, a angústia e a vontade de se tornar um escritor.

A gangorra de emoções que é a nossa vida, os momentos banais e significativos ou costumeiros e sagrados, que cada um de nós vivemos, é o que Karl Ove capta tão bem em cada página deste romance e transforma em literatura. Nos aspectos formais não há regra definida de modo simples, certos momentos os discursos diretos tomam linhas de José Saramago, em outros surge o fluxo de consciência ou o discurso indireto-livre. São características que dinamizam a leitura e contribuem para imprimir a ela uma carga subjetiva singular. Estas associadas a uma descrição fulgurante da paisagem, nos remete ao que há de mais belo na literatura contemporânea. No entanto, esta obra permanece envolta no mistério: por que é tão bom se parece tão simples? Por que o fascínio, como se estivéssemos embevecidos em nós mesmos, ao ler um calhamaço de 600 páginas que fala de coisas banais e aparentes a todas as pessoas do mundo?  Será que o fato de ser “real” nos empresta esta sensação?

*

No trecho abaixo um pouco de tudo isso. Uma reflexão em meio aos ritos funéreos da família na ocasião da perda do avô:

 

“Uma neblina espessa pairava sobre o amontoado de espruces verde-escuros, quase pretos na encosta junto à outra margem do lago. Eram nove horas, minha mãe perguntou se seu não podia colocar galhos de espruce na estrada, junto ao portão. Era um antigo costume. Desci em meio à chuva, larguei os galhos em cima do cascalho, olhei para a casa, para as janelas que reluziam na manhã cinzenta. Comecei a chorar. Não por causa da morte e do frio, mas por causa da vida e do calor. Chorei pela bondade que existia no mundo. Chorei pela luz em meio à neblina, chorei pelos vivos naquela casa da morte e pensei, não posso jogar minha vida fora.”

***

E mais uma vez voltamos ao Realidade Nordestina. Em 2009, Vambeto Gomes de Jesus já exercitava a autoficção e desde 2011 divulga seu trabalho em escolas e universidades. Sem o impacto editorial de karl Ove (não há nenhuma Cia Das letras por trás de tudo), mas com o impacto no coração dos leitores de um Brasil tão carente de tudo, e acima de tudo, de editoras e, principalmente, de leitores. Adotar o romance de Vambeto como uma ponte para atravessar esta falha histórica seria imprescindível para entendermos nossa história, do mesmo modo que os leitores na Noruega e em boa parte da alta literatura compartilham a autoficção de Karl Ove.

Para os brasileiros seria a descoberta de um país mais profundo. Longe dos holofotes, das novelas e da mídia. Assim como a de Karl Ove, a literatura de Vambeto é uma viagem às profundezas de ser, porém também é um relato histórico das mazelas sociais que nos afligem e perpetuam o Brasil à condição miserável de sempre. Ler Realidade Nordestina coloca o nosso país definitivamente no mapa. Como diz Paulo Freire, “a compreensão do texto a ser alcançada por sua leitura crítica implica a percepção das relações entre texto e contexto”.

 

 

Karl Ove, Vambeto e Espen: Não importa onde, a descoberta da leitura nunca vai deixar de ser o elemento transformador em uma sociedade.

A alegria é ver os pássaros voarem

Quando acordei mais ou menos às 7h30 da matina, busquei no google a canção The air that I breathe do The hollies. É uma bela música para começar o dia. Fiz planos, mentalizei tarefas, previ leituras, todas depois da pedalada matutina. No entanto muitas vezes somos surpreendidos por eventos banais ou generalidades que merecem registro, que nos tiram dos trilhos automáticos cotidianos e lançam um desafio, sobretudo, do ponto de vista ético.

O que você faz quando encontra um animal numa armadilha? Quando alguém lhe pede ajuda? O sentido de viver trafega na resposta a essas perguntas.

Resumo da ópera: um bem-te-vi aterrissou numa armadilha de rato, uma cola resistente que eu havia armado, sem saber muito o que fazer, mas com esperança de poder ajudá-lo, retirei-o da enrascada e pedi ajuda, pois com aquela cola espalhada pela penugem ele dificilmente voaria. Minha amiga Priscila, bióloga recém- casada, logo me veio à mente e passei-lhe uma mensagem. Ela rapidamente veio ao meu pedido e, com seu marido, aplicaram óleo de soja para remover a substância, um trabalho bem cuidadoso – pena a pena – e o bem-te-vi, por sorte, não se machucara muito, mas seu coração batia acelerado. É uma ave bonita, há anos não ficava tão perto de uma, o contato com a natureza sempre nos emociona, parece nos oferecer um encontro impagável, aliás, dois: um com o acaso, outro com a responsabilidade. Depois do óleo, esquentamos duas bacias de água, para dar um banho no bicho, a primeira com pingos de detergente dissolvido, a segunda numa temperatura morna para mais um banho e retirar o detergente. No fim o soltamos, e ele voou, para nossa alegria.

Um dos meus autores preferidos é ornitólogo, observador de pássaros, Jonathan Franzen escreveu vários ensaios sobre aves, a caça ilegal, o sofrimento impingido pelo homem a esses bichos tão bonitos, sensíveis, que mostra a diversidade de vida no planeta e a maldade humana. Em O fim do fim do mundo https://www.newyorker.com/magazine/2016/05/23/jonathan-franzen-goes-to-antarctica, texto de memória em que ele conta sua viagem para a Antártida, ele relata que se um ser de outro planeta topasse com um pinguim imperial e um homem, certamente ele acharia o pinguim mais belo e evoluído que o hominídeo. Durante esse trabalho de mais de três horas, quando a esperança enchia nossos corações, sentimos tanto pelos animais que sofrem vítimas da ação do homem, me veio à cabeça a imagem de um pelicano coberto de petróleo quando um vazamento no golfo do México liquidou com a vida marinha de uma área gigantesca. Pensei em como devem sentir os ambientalistas e biólogos que correm para tentar salvar a vida das espécies local. Um misto de  tristeza e obstinação. Por isso e também pela queima do combustível fóssil que lança CO2 para a atmosfera e altera o clima do planeta, deveríamos exigir que se mudasse o paradigma da economia do petróleo. Ainda que as dificuldades sejam grandes, a decisão não se resume a fatores econômicos – e ainda se fossem, as perspectivas não são boas – mas ao futuro do planeta e da espécie.

Outra ideia que nos passou pela cabeça foi a respeito deste mundo maluco em que vivemos quando muitas vezes não assumimos a responsabilidade de fazermos algo de bom pelo outro. Eu disse a Priscila que poderia muito bem me livrar rapidamente do problema – afinal tinha um dia cheio pela frente e não queria quebrar minha rotina e ser incomodado. Porém, a felicidade é ver os pássaros voarem, e a chance de ver um pássaro voar novamente a partir de sua ajuda pode ser única, as duas combinadas, então, podem resultar numa sensação de dever cumprido.

Hoje com câmeras nas mãos pudemos inclusive mostrar isso aos colegas, amigos e divulgar as boas notícias. Num tempo em que notícias trágicas abundam e se fazem multiplicar pelas redes, espalhar as boas novas pode arrancar este pássaro triste de dentro de nós e enxergar os pássaros voando novamente. Alem disso, há quase sempre um dilema ético em questão. E depois de tudo, vale a pena agir com ética, perseverar, não desistir. Encontrar os amigos que compartilham dessa responsabilidade. Conhecer, informar-se e investir na ação. Eram mais de quatro horas da tarde e não havíamos almoçado. Entretanto ouvi de minha amiga bióloga “estou feliz”. Eu também estava. Falta a todos nós muito isso, cultivar os bons hábitos, assumir a responsabilidade, pensar no outros, evitar o ódio. Compreender a situação e fazer o melhor por ela.

Como diz a música ” às vezes só o que preciso é o ar que respiro e amar você”.
Este texto muito provavelmente de forma malfadada refere-se à crônica publicada no El País Brasil “A tristeza é um pássaro morto” do jornalista espanhol Juan Árias. O autor recebeu o prêmio de melhor correspondente internacional há alguns dias. Parabéns e muito obrigado.

Operação por mais vida e menos ódio 

Billy Pilgrim, nosso bem-te-vi, espantou-se com a sorte que teve. Coisas da vida.

 

A arte do encontro

De apenas um encontro nasce uma multiplicidade de outros. Precisamos estar atentos para não perdê-los ou darmos pouca importância quando os essenciais aparecerem. Também termos o coração aberto e acreditarmos na outra pessoa é fundamental para que esses encontros durem e se tornem verdadeiros atores de mudança de nossa breve trajetória nesta vida. É preciso dizer “a satisfação de termos dado o nosso melhor e a prova deste trabalho são as únicas coisas que podemos levar para o túmulo”.

Conheci primeiramente Vambeto quando dei aula a ele na EJA e, anos depois, um pouco melhor, quando corrigi o livro que ele havia escrito durante este longo tempo. Do livro Realidade nordestina, romance autobiográfico neo-regionalista, nasceu a produção Trajetórias – 30 anos depois da greve de Guariba, cuja exibição nesta semana em Américo Brasiliense – SP se deu de forma amistosa , franca e em clima de festa. Numa verdadeira sessão pipoca, turmas de alunos da EJA do Ensino Fundamental, anos inicias, também se encontraram com a gente. Alguns tivemos o prazer de rever.

Esta experiência só foi possível também, pois quem amarrou este laço foi a diretora da escola Paula Scanuela, amiga e apoiadora do projeto. Agradeço sempre a atenção e a organização de tudo.

O co-diretor Sérgio Galvão, amigo de longa data, também esteve presente na sessão e disparou alguns cliques.

Esperamos que surjam novos encontros e a existência, essa roda viva cotidiana, continue a girar e girar…

 

 

 

 

 

Na EMEF João Batista em Américo: estamos sempre muito gratos.

abaixo o link do filme

“Eu estou sempre lançada para frente” Marina Colasanti aos 79

Autora que abriu o Salão de ideias da 17° Feira do livro de Ribeirão Preto cativa com um discurso fascinante

Quem conhece Marina Colasanti por alguns de seus mais famosos textos – o fabuloso conto A moça tecelã, a crônica Eu sei, mas não devia – não esquece jamais o impacto de um salão de ideias marcado por inteligência, descobertas, histórias de vida e morte, ” A morte é mais inevitável que a vida” dispara a escritora.

Num dos grandes momentos da conversa,  a autora brinca, não maltrata e enaltece a morte. Sua avó lhe dizia “Eu olho ao redor e vejo um grande cemitério”. Exemplifica na pintura A morte de Sardanápale o movimento que ocorre ao redor do rei antes da indesejada das gentes acontecer em contraste com o morrer do mundo contemporâneo: rodeado de aparelhos, num hospital em um quarto frio.

A autora que vai completar 80 anos em setembro vai lançar seu livro de número 60. Também trabalha em um outro de poesia. Ela nasceu na Eritreia e viveu na África até os 4 anos de idade. O pai foi à guerra. Marina diz que pensa “em italiano tanto quanto em português” depois emenda “tenho uma alma africana”. Estávamos mais uma vez frente a uma escritora que se sente uma estrangeira, certo momento ela lembra “como Clarice, eu costuro para dentro” e “Sempre sou o outro “.

Quando abordou o ofício, disse ser uma observadora que presta atenção a tudo, faz um exercício instintivo comparativo, sempre a se perguntar quem é o outro. A escrita, para ela, começa no olhar. Diz se sentir uma indiscreta, o que não a impede de manter um olhar pausado sobre os outros e o mundo.

“A literatura e as histórias são veículos…um longo e interminável discurso sobre o mundo, os sentimentos” – em mais um momento mágico, ela completa que ler é aprender a absorver o mundo e aprender a estar no mundo.

Sobre as redes sociais diz que são impérios do mexerico. Embora haja a veiculação de notícia e informação, é um terreno pantanoso, puxado por elementos numéricos e, por isso, muitas vezes, se vai através do gosto coletivo, pela quantidade de likes.

As dificuldades por que passa a alta literatura se deve ao desaparecimento da crítica literária da imprensa, um vez que livros não são anunciados, pra quê a resenha? Outro fator é a postura tacanha do mundo editorial, por fim, segundo ela, a maior parte da literatura está na universidade, que são universos fechados e não chega ao grande público.

As escolas também precisam assumir um papel que sempre lhes coube. Aprender é um caminho exigente. Para a autora, que defende um certo papel secular da escola, ela afirma “Aprender de cor…não é horroroso”. É um treino de memória muito importante. Na verdade, Marina tenta dar exemplos de equívocos de alguns pensamentos. O professor serve de ponte ao transformar a obrigatoriedade em prazer, em conhecimento, “num gesto de amor”. Para formar leitores ela acha que o professor deve pensar “vou fazer com que a leitura se torne para ele (o aluno) uma necessidade”

Ela mesma desde criança sempre teve contato com a leitura, em sua família sempre houve uma cultura leitora. Quando jovem conheceu uma amiga e com ela foi a  livraria onde trocaram autores. Ela lembra até hoje ler Cesare Pavese e poetas da China por causa desse encontro. Por isso recomenda aos jovens autores e amantes da literatura “procurem seus semelhantes”.

Quando perguntada sobre o livro de crônicas e o texto Eu sei, mas não devia, estabelecendo relações com a vida nos grandes centros urbanos, ela mais uma vez é esclarecedora ” estamos perdendo o sentido da identidade na multidão”, por isso, “Não acostumar-se com certas coisas é garantir a identidade”.

No fim ela define como prioridade alimentar o espírito narrador nas crianças. Estimular sempre a leitura “Dois leitores não leem o mesmo texto da mesma maneira”. E ressalta que está sempre lançada para frente, fazendo as coisas que mais gosta, como viajar que é sem dúvida uma forma de estar em permanente contato com o novo.

Para quem não perde o contato com a autora, há um blogue excelente no qual toda quinta-feira ela escreve uma crônica: http://www.marinacolasanti.com/

 

A autora num domingo de manhã no auditório Meira Jr. Pontapé inicial da feira não poderia ser melhor.

Trajetórias – Assista no YouTube 

Para quem quiser assistir ao filme Trajetórias – 30 anos da greve de Guariba, que teve sua primeira exibição bastante discreta e essencial na Unesp em meados do ano passado, vide postagem logo abaixo, ele está disponível agora no YouTube.

Agradeço mais uma vez a participação de todos sem a qual o trabalho não seria finalizado.

A jornada do filme inicia outra etapa. Espero que assistam.

Obrigado.

Clique no link abaixo para assistir.